A Inflação e o Euro: Podemos Fugir mas Não nos Podemos Esconder

Em inúmeras conversas com amigos “conservadores monetários”, ouço a recorrente observação: “ao defenderes a saída de Portugal do euro não tens medo da inflação de um escudo inflacionista?”

Apesar da resposta simplista ser “sim”,  na realidade, a alternativa de permanecer no euro revela-se igualmente inflacionista, com a grande desvantagem de propiciar a  indesejável centralização federalista europeia.

Com a progressiva construção da união de transferências europeia (transfer union), os contribuintes (essencialmente) alemães estão a suportar a manutenção e expansão das insustentáveis dívidas dos países mais improdutivos, o que retira a pressão a estes últimos para que façam quaisquer reformas liberais profundas.

Desta forma, vislumbram-se duas soluções para a actual situação do euro: a primeira é o federalismo fiscal e monetário através das soluções dos eurobonds e da oficialização das transferências em massa de país para país; a segunda é o fim do projecto do euro porque a Alemanha compreensivelmente retira-se do euro antes que o seu dinheiro se acabe por andar a suportar a improdutividade de outros.

Na primeira hipótese, o federalismo e os eurobonds produziriam um ganhar de tempo ao emitirem novas dívidas europeias, mas rapidamente os investidores se aperceberiam que estariam a comprar obrigações sem valor no meio de algumas com valor e deixariam de as comprar. Por outras palavras, a seu tempo, esses eurobonds estariam cotados como lixo. A solução provável seguinte para resolver os problemas do pagamento das endémicas dívidas públicas seria colocar o banco central europeu a imprimir moeda suficiente para o efeito. Sem surpresa, a inflação que se temia de base chega igualmente por esta via, com a desvantagem de deixar a centralização europeia para a “posteridade”.

A outra hipótese seria a saída da Alemanha do euro. Mas porque sairia a Alemanha do euro?

Segundo o artigo de Philipp Bagus no Cobden Centre “The official start of the european transfer union”, as garantias que os alemães poderão ter de dar aos restantes países europeus podem chegar em última instância aos 56% do PIB.  Algo que será certamente incompreensível para os cidadãos alemães e não tolerado de todo. Só a saída da Alemanha do euro poderá por um fim à “EUSSR”, acrescenta o autor.

Consequentemente, talvez acompanhado por outros países mais produtivos, a Alemanha sairia do euro para permitir ao banco central europeu desvalorizar a moeda única de forma a “pagar” as dívidas dos restantes.  Tal geraria um euro desvalorizado de segunda categoria e, de novo, sem surpresa, a inflação que se temia inicialmente também chegaria por esta via, com a desvantagem de se ficar com uma única moeda desvalorizada em vez de inúmeras em concorrência (apesar de ser crível que o euro se desmoronasse em seguida).

Em suma, dado o cenário actual, seja qual for a via tomada pelos líderes europeus, escapar ao flagelo da inflação real será algo extremamente improvável. Podemos fugir (ao não querermos considerar a hipótese de sair do euro), mas infelizmente não nos podemos esconder.

Por fim, sem nunca esquecer o objectivo da desnacionalização monetária, dentro do actual paradigma do papel moeda em que nos movemos, parece-me que a melhor forma de minorar os danos causados pela criação virtual de dinheiro é a competição monetária entre moedas nacionais. Numa conferência do Mises Brasil, esta lógica é exposta claramente por Hans Hermann Hoppe ao responder à pergunta: “como minorar os estragos no actual contexto do papel moeda?”(a partir do minuto 7.37).

 

3 pensamentos sobre “A Inflação e o Euro: Podemos Fugir mas Não nos Podemos Esconder

  1. Desde que começou este problema com as dívidas “soberanas” tenho defendido que existe uma única solução sem a formação de uma EUE (estados unidos da europa) a saída da Alemanha do Euro. Como estou completamente contra uma EUE que só poderá trazer um enorme desastre para os países europeus (um união imposta verticalmente contra a vontade dos cidadãos) resta a defesa da saída da(s) formiga(s) deixando o euro às cigarras. Esta é a única forma de evitar um melt-down financeiro e económico dos países do euro.
    – Imaginemos que algum dos países dos PIIGS (falta o C de chipre?) sairia do euro, tirando o caso italiano isso seria completamente indiferente para o euro à primeira vista, mas a dívida desse país continuava em euros (por muito que desvalorizasse o novo escudo) o que levaria inevitavelmente ao default… activação dos CDS da dívida… consequência imprevisível para os países da zona euro. Mais esse país ver-se ia com uma virtual impossibilidade de importar o que qer que seja durante uns meses (desastre social e económico imediato).
    A saída da Alemanha permite uma desvalorização (inflação) controlada do euro desvalorizando o stock de dividas acumuladas

  2. Paulo Pereira

    Parece cada vez mais óbvio o erro que foi a criação e adesão a este EURO estúpido.
    .
    Não é possivel existir uma moeda única sem divida única.
    .
    Só economistas ignorantes e incompetentes que não percebem como funciona a economia podem continuar a defender este EURO.

  3. CN_

    Seguramente o “actual Euro” obriga a muito maior disciplina e isso é o que não gostam uns e daí aparecerem com o caminho da salvação via federalismo ou se não for possivel, o fim do Euro para poderem monetizar os défices e injectarem as reservas monetárias que entenderem.

    Da parte liberal, a concorrência monetária faz todo o sentido tirando o facto que com o tempo existe uma tendência inevitável para as moedas de economias mais pequenas a de uma forma ou outra a fusionarem-se (por exemplo, por necessitarem de emissão de divida em moeda não nacional o que por regra é seguido de crises dada a desvalorização cambial das moedas mais pequenas) com outras maiores.

    Como sou realista o caminho ortodoxo mais curto parece-me a defesa da circulação de moeda em ouro e prata a par de qual seja o arranjo monetário que prevalece num dado momento e até porque seja qual este arranjo for o regime politico tratará sempre de dar cabo dele e propor outro qualquer (para ficar tudo na mesma).

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