nacionalização dos lucros, uma notícia por realizar

Diz a Helena Garrido (O pior do capitalismo e do comunismo), num artigo de apurado malabarismo retórico, que

Nacionalizar os prejuízos e privatizar os lucros é escolher o pior do capitalismo e o pior do comunismo.

Dito de uma forma clara:
– “nacionalizar os prejuízos” é o “pior do comunismo”, e
– “privatizar os lucros” é o “pior do capitalismo”.

O comunismo produz o inferno da Terra porque ao proibir (“abolir”) a propriedade privada, esmaga a liberdade individual. Tudo passa a ser controlado pelo poder político, incluindo a actividade económica — nem se pode falar de lucros ou prejuízos. Quero pensar que ninguém civilizado acha que há algum aspecto “melhor” no comunismo. O único silver lining é que <sarcasmo> mais cedo ou mais tarde eles matam-se uns aos outros. Muito menos faz sentido falar de “pior” do comunismo, sobretudo com o afastamento de uma análise económica, precisamente porque estes regimes têm a sua génese em pilhagem, vivem de repressão, e descambam para a matança.

É deixada passar airosamente a ideia que “privatizar os lucros” é o “pior do capitalismo”. Em rigor HG diz .. lucros e prejuízos pertencem aos accionistas ou proprietários. Só assim o capitalismo funciona bem. — o que compõe a noção, infelizmente com aceitação popular, que os lucros são um mal necessário.

O melhor do capitalismo — que não é a nacionalização dos prejuízos e a privatização dos lucros — não é a constante e efectiva ameaça de falência. Não é que os investidores financeiros possam perder dinheiro. Esta é uma visão destrutiva e odiosa. O melhor do capitalismo é permitir que as pessoas usem a sua propriedade para levar a cabo os seus objectivos, recolhendo as recompensas da sua acção, e assumindo as perdas da mesma. O “pior” é esta liberdade ser um bem muito escasso – mercê dos estatistas que invejam, cobiçam e abominam os ditos “lucros”.

Num sistema capitalista os “lucros” não provêm de pilhagem obtida por vida política – obtêm-se por relações consensuais, mutuamente benéficas — obtêm-se quando pessoas abdicam livremente de capital que é seu em troca de bens e serviços que melhoram a sua vida. São recompensas integralmente merecidas que pertencem ao empreendedor — mas também atestados de valor social, e incentivos mais para servir o próximo.

É a ânsia estatista de nacionalizar essa riqueza moral e material que destrói as condições da sua criação. E que potencia que um dia primeiro os prejuízos sejam nacionalizados, e depois os infames lucros, e em consequência a liberdade das pessoas, e a prosperidade de toda uma sociedade. O jornalismo de serviço reportará imparcialmente, como diligente “consciência social” e agente de mudança que não se esquiva ser.

16 pensamentos sobre “nacionalização dos lucros, uma notícia por realizar

  1. asdasd

    Não li o artigo em questão, mas parece-me que um liberal deve estar contra a nacionalização do BPN em Portugal, bem como da banca e do sistema financeiro da Irlanda, para citar apenas dois exemplos recentes. O que acontece então no BPN é de rir, pois a SLN teria capital suficiente para arcar com os prejuízos. Isso sim, é o pior do capitalismo (ou corporativismo, como quiser).

  2. Não Interessa

    Tive que trazer galochas para conseguir passar por tanto lirismo.

    “cada um desemmerda-se conforme pode, com o que tem e quem não pode.. arreia” era isto? E quantos anos até uma sociedade de castas? É que eu tenho pressa..

  3. JPHB

    “…obtêm-se por relações consensuais, mutuamente benéficas — obtêm-se quando pessoas abdicam livremente de capital que é seu em troca de bens e serviços que melhoram a sua vida.”

    Isto faz-me lembrar os pensionistas da Enron…

  4. Joao

    Um pouco mais de equilibro no artigo nao fazia mal nenhum… A critica ao comunismo é pelo aspecto económico mais também pelo aspecto humano (no sentido de “descambam para a matança.”). Mas também o capitalismo livre tem mais que apenas coisas positivas. a capacidade de restrição de liberdades individuais por abuso de posições dominantes ou excessos de exploração do individuo pelo capital.

    Além disso acho que a privatização dos lucros é em contraponto à nacionalização dos prejuízos não no sentido de lucros de actividade privada. Mais especificamente acho que a autora poderia ter falado em “nacionalização de prejuízos privados” e “privatização de lucros públicos”.

  5. Ricardo G. Francisco

    Nao interessa,

    Já vive em uma sociedade de castas, ou não nota?

    Há quem queira mudar, mas enquanto os que não interessam estiverem em maioria é difícil 🙂

  6. «Mas também o capitalismo livre tem mais que apenas coisas positivas. a capacidade de restrição de liberdades individuais por abuso de posições dominantes ou excessos de exploração do individuo pelo capital»

    Se há um regime de capitalismo livre, ou seja, não há barreiras à entrada em nenhum sector, como é que uma empresa pode abusar da sua posição dominante sem perder essa mesma posição?

    Se há um regime de capitalismo livre, ou seja, as relações entre indivíduos são puramente voluntárias, como é que alguém pode ser explorado?

  7. Paulo Pereira

    O capitalismo ñunca pode ser totalmente livre. Nunca foi nem nunca será.
    Precisa de regulação e do apoio do consumo publico, senão crasha por si próprio.

  8. Jorge

    “Se há um regime de capitalismo livre, ou seja, não há barreiras à entrada em nenhum sector, como é que uma empresa pode abusar da sua posição dominante sem perder essa mesma posição?””

    Goldman Sachs,
    Microsoft,
    DuPont,
    Rothschild,
    etc…

    “Se há um regime de capitalismo livre, ou seja, as relações entre indivíduos são puramente voluntárias, como é que alguém pode ser explorado?”

    Quando há concertação entre empregadores para manter um salário artificialmente baixo. Acontence, por exemplo, no Vale do Ave. Quando se teve a sorte de nascer de papás bonzinhos que meteram o menino nas melhores escolinhas é muito fácil ignorar que a realidade da esmagadora maioria dos humanos não é assim tão idilica…

  9. lucklucky

    Heh. As pessoas não precisam de produtos pelos vistos.
    O consumo publico destroí a economia livre ao inserir muito mais informação errada.
    Em Portugal uma boa parte dos preços são falsos – aliás no Ocidente estamos cada vez mais próximos da falsidade de preços Comunistas- e é precisamente onde o estado intervêm que os preços são mais caros para as pessoas: Educação, Saúde, Energia, Transportes.

  10. Muito bem AA. Alguém reparou que o texto da senhora dizia sim (deixemos as empresas falhar) e não (temos de salvar os investidores que apostaram mal em Estados falidos) ao mesmo tempo?

  11. “Goldman Sachs,
    Microsoft,
    DuPont,
    Rothschild,
    etc…”

    Nenhuma dessas empresas compete num regime de “capitalismo livre”, para usar a expressão do Joao. O Jorge está a confundir capitalismo com corporativismo. Nenhuma dessas empresas teria tanto poder como tem hoje se não tivesse forma de influenciar sistematicamente as decisões políticas.

    “Quando há concertação entre empregadores para manter um salário artificialmente baixo. Acontence, por exemplo, no Vale do Ave.”

    E o Vale do Ave também deve ser um exemplo perfeito de capitalismo livre, está visto. Portugal é um pioneiro do liberalismo e eu não sabia de nada. Como eu implicitamente dizia no comentário anterior, num regime sem barreiras legais à entrada não há oligopólio ou cartel que se consiga suster porque uma empresa nova que entre no sector pode, neste exemplo, oferecer um salário superior a todas as outras e deixar as restantes sem empregados.

    “Quando se teve a sorte de nascer de papás bonzinhos que meteram o menino nas melhores escolinhas é muito fácil ignorar que a realidade da esmagadora maioria dos humanos não é assim tão idilica…”

    Fale por si. Eu sempre andei em escolas fatelas do Estado. E talvez por isso conheça melhor a realidade da esmagadora maioria dos humanos que são escravizados pelo socialismo do que o Jorge, seja no Vale do Ave ou no escritório a sofrer com o lock-in da Microsoft.

  12. Jorge

    Acho engraçadissimo quando os liberais como o meu amigo dos Santos são muito rápidos a esclarecer que os exemplos que dei não são o capitalismo verdadeiro ou o liberalismo puro mas chama socialismo a tudo o que mexe. Inclusive adoram chamar socialismo à corrupção e compadrio que grassa pela esfera politica portuguesa e cujos beneficiários muitas vezes são os mesmos que noutros posts, por vezes neste mesmo blog, são elogiados pelo seu empreendedorismo e mérito. So para risos ainda gostava de ver o top 10 dos contribuidores para o Mises Institute, mont pelerin, ayn rand foundation e outras organizações catitas do género.

    “não há oligopólio ou cartel que se consiga suster porque uma empresa nova que entre no sector pode, neste exemplo, oferecer um salário superior a todas as outras e deixar as restantes sem empregados.”

    Isto só pode ser inocência ou desonestidade… Com que então qualquer empresa consegue furar um cartel, basta oferecer mais. Isto talvez seja verdade na sala de aula, mas a realidade é bem diferente e aí está a História para o provar..

  13. tiago

    O capitalismo é o google+ dar uma coça ao facebook daqui a uns meses. a posição dominante do facebook vai desaparecer mais cedo ou mais tarde… com o comunismo ainda teriamos o mirc, porque o marc zuckerberg tinha que pedir autorização para poder competir…
    o capitalismo é dinâmico e mutável, dando mais oportunidade às invenções, à competição. O estatismo, ou o comunismo, promovem visões da sociedade estagnadas, inertes, prevenindo a inovação e a competição… no capitalismo uma grande empresa se deixar de prestar um bom serviço está sujeita a desaparecer. pelo contrário no comunismo a grande empresa é mantida incapaz de responder rapidamente aos sinais dos “clientes”, sujeita a dinheiro público e a vontades (interesses) políticas… o capitalismo respeita a vida, e tal como ela não é perfeito… o comunismo controla a vida…

  14. «Acho engraçadissimo quando os liberais como o meu amigo dos Santos são muito rápidos a esclarecer que os exemplos que dei não são o capitalismo verdadeiro ou o liberalismo puro mas chama socialismo a tudo o que mexe.»

    O que é que o Jorge chama a uma sociedade com cargas fiscais de 40% do PIB, despesa estatal de 50% do PIB, regulações em todos os sectores, intervencionismos e proteccionismos vários? Tenho alguma dificuldade em chamar a isto “capitalismo livre”. O Jorge critica a realidade presente e depois tenta associá-la aos que defendem uma filosofia política completamente distinta. Chame-lhe os nomes que quiser, dê-lhe as definições sui generis que entender, mas fazer de conta que o que os liberais defendem tem alguma coisa a ver com isto é uma falácia do espantalho.

    «Inclusive adoram chamar socialismo à corrupção e compadrio que grassa pela esfera politica portuguesa e cujos beneficiários muitas vezes são os mesmos que noutros posts, por vezes neste mesmo blog, são elogiados pelo seu empreendedorismo e mérito.»

    Não vejo qual é a sua confusão. Quanto mais socialista for um país (quanto mais o estado desrespeitar a propriedade privada e transferir a riqueza dos privados para si mesmo, o “colectivo”, na forma de impostos ou regulações), mais oportunidades existem para corrupção e compadrio porque os agentes do estado podem receber subornos para não aplicar determinado imposto ou regulação. E, aliás, quanto mais oneroso for o imposto/regulação, maior é o incentivo do sector privado para subornar os agentes do estado. Acha mesmo que é pura coincidência que a liberdade para estabelecer/manter empresas esteja negativamente correlacionada com a corrupção?

    http://blogs.worldbank.org/psd/corruption-correlated-to-doing-business

    Quanto aos elogios, não sei do que fala.

    «Isto só pode ser inocência ou desonestidade… Com que então qualquer empresa consegue furar um cartel, basta oferecer mais. Isto talvez seja verdade na sala de aula, mas a realidade é bem diferente e aí está a História para o provar..»

    E porque é que na realidade é bem diferente? Porque há todo o tipo de barreiras legais à entrada. Como é que alguém pode furar um cartel se não pode competir livremente? Se eu quiser abrir uma coisa tão simples e básica como um restaurante em Portugal arrisco-me a estar anos à espera de licença:

    http://quartarepublica.blogspot.com/2009/10/um-case-study-de-como-afugentar.html

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