Mate-se o mensageiro

O Zé Aníbal, individuo de gostos refinados, é um moço lá do bairro. Todas as semanas, são finas as iguarias que vêm das mercearias do bairro, e enchem o olho os artigos vindos das lojas de electrodomésticos.

Há muito que o Zé Aníbal resolveu o problema do pagamento dos seus gostos pouco frugais: se o vencimento não chegava e os gostos teimavam em se manter refinados, tudo se resolveu no dia em que descobriu que isso se resolvia com uma assinatura no livro de fiado nas lojas do bairro. O dinheiro recebido ao fim do mês pagava assim as dívidas do passado de que o Zé Aníbal já nem se lembrava bem, e todos os meses a chegada de novos carregamentos de coisinhas boas aguçava o apetite. Não havia problema: bastava mais uma assinatura em mais uma linha e prontos.

Ao fim de alguns anos, já não conseguia sobreviver sem o seu caviar e blinis, o seu relógio suíço ou sem o último grito da tecnologia, e perguntava-se até como seria possível a qualquer ser humano sobreviver sem tais bens essenciais.

As festas que organizava e para as quais convidava uma parte substancial do bairro tornaram-se rapidamente memoráveis, tanto por elas em si, como pela possibilidade que conferiam ao resto do bairro de observar o fausto em que vivia o nosso Zé Aníbal.

Nos últimos tempos, tudo se desmoronou: as mercearias e restantes lojas do bairro começaram a preocupar-se com o crescimento sucessivo das entradas no livro de fiados respeitantes ao Zé Aníbal. Mais: começaram a falar entre elas e a ver que o problema era generalizado. Para agravar a situação, o Tó Sovina, indivíduo respeitado mas principalmente temido pelo manancial de podres que conhecia da vizinhança – e que era convidado para as sumptuosas festas mais por temor reverencial desse facto que por amizade – começou a ser inquirido pelas lojas em relação ao que sabia do Zé Aníbal. Este, individuo bem informado, começou a dar com a língua nos dentes e a dizer que face ao que sabia que eram os rendimentos do sujeito e ao que conhecia das suas festas e dos seus gostos refinados, se fosse aos lojistas começaria seriamente a pensar se algum dia veriam todo o seu dinheiro devido pelos bens que tinham entregue.

Vai daí, tudo colapsou: acabou-se o crédito ao Zé Aníbal, que se viu na eminência de ter que prescindir dos seus bens essenciais. Agora, crédito e acesso ao livro de fiados só depois da respectiva loja ouvir o que o Tó Sovina tinha a dizer sobre o assunto.

Epílogo: Passado dois meses o Tó Sovina foi acusado por difamação, com queixa apresentada pelo Quim Farras, um dos principais frequentadores das festas e amigo do Zé Aníbal (e particular apreciador do presunto ibérico que era servido copiosamente em todas as festas). A condenação parece bem encaminhada.

Entretanto, corre no bairro um abaixo-assinado e erguem-se as vozes dos convivas para a expulsão do mesmo do Tó Sovina.

Estava descoberto o culpado e o empecilho.

15 pensamentos sobre “Mate-se o mensageiro

  1. Pinto

    Sem ser grande expert em economia, gostei desta Moody’s explicada às criancinhas. Mas, continuando nesta linha mais simplista e menos técnica, imaginemos que o Zé Aníbal começava a tentar pagar as dívidas, umas vezes com o dinheiro do seu ordenado, outras com os fios e anéis de ouro que tinha em casa. Imaginemos que um dos merceeiros, sabendo de antemão que ele tinha um belo e grosso fio e sabendo da confiança que os restantes merceeiros depositavam no Tó Sovina, combinava um encontro com este e lhe pagava uma quantia em dinheiro para que ele fosse dizer junto dos restantes merceeiros que o Zé Aníbal estava pelas horas da morte. Assim nenhum dos merceeiros lhe fiaria por um dia que fosse, empurrando-o à venda do dito fio, ainda por cima por um preço inferior ao que ele inicialmente poderia pedir.
    Pergunto: a conduta do Tó Sovina era lícita?

  2. Na minha opinião sim.

    Mas há dois problemas: primeiro, duvido que os outros merceeiros continuassem a confiar no Tó Sovina quando soubessem que tinham sido enganados (ou pelo menos que este tinha agido a soldo de um concorrente); segundo, nada garante ao merceeiro que pagou ao Tó Sovina que o fio lhe vai ser entrege a ele e não a outro dos merceeiros.

  3. Pinto

    Na minha opinião sim

    A especulação não é problema nem deve ser evitada por quem fiscaliza o mercado de capitais?

    duvido que os outros merceeiros continuassem a confiar no Tó Sovina quando soubessem que tinham sido enganados

    Mas não o saberiam se o Zé Aníbal ficasse mesmo pelas horas da morte (estado esse que o Tó Sovina não era alheio de responsabilidades.

    nada garante ao merceeiro que pagou ao Tó Sovina que o fio lhe vai ser entrege a ele e não a outro dos merceeiros

    Mas fica-lhe a vida mais facilitada se estiver realmente interessado no negócio.

  4. “A especulação não é problema nem deve ser evitada por quem fiscaliza o mercado de capitais?”

    Na minha opinião, por princípio, não.

    “estado esse que o Tó Sovina não era alheio de responsabilidades”

    Quais responsabilidades?

    “Mas fica-lhe a vida mais facilitada se estiver realmente interessado no negócio.”

    E estará disposto a pagar correndo o risco de o estar a fazer para beneficiar um terceiro não tendo nenhuma contrapartida?

  5. DavC

    Se o Zé Anibal estivesse muito preocupado com o fio não se tinha endividado até ao pescoço.

    Se o Tó Sovina é credível aos olhos da comunidade não será por acaso. A credibilidade não é inata.

    Agora a questão. O Zé Anibal tem realmente razão para se queixar de alguma coisa? E outra, os merceeiros que o sustentaram a vida toda devem ser proibidos de consultarem o Tó Sovina sobre a sua situação?

  6. Lusitânea

    Só faltou o GPS.Isto é a “peça” situada num conhecido bairro social multicultural…

  7. Luis

    “Assim nenhum dos merceeiros lhe fiaria por um dia que fosse, empurrando-o à venda do dito fio, ainda por cima por um preço inferior ao que ele inicialmente poderia pedir.”

    Moral da história: pedir crédito é ceder um pouco da nossa liberdade. A questão do Zé Aníbal nem seria um problema se ele não precisasse de continuar a pedir crédito e a aumentar a dívida.

  8. Pingback: Mate-se o mensageiro (2) « O Insurgente

  9. Pinto

    Na minha opinião, por princípio, não

    O n.º 2, do art. 35.º, do Decreto-Lei n.º 28/84 criminaliza-o. Mas aceita-se que discorde de tal inciminação. No plano internacional cabe aos Estados evitar essas especulações.

    E estará disposto a pagar correndo o risco de o estar a fazer para beneficiar um terceiro não tendo nenhuma contrapartida?

    Depende da certeza e da vontade que tenha no negócio.

  10. Pinto

    DavC
    Se o Tó Sovina é credível aos olhos da comunidade não será por acaso. A credibilidade não é inata

    Que é que isto tem a ver com o que escrevi.

    E outra, os merceeiros que o sustentaram a vida toda devem ser proibidos de consultarem o Tó Sovina sobre a sua situação?

    Não. Mais uma vez, não foi essa a questão.

  11. Pinto

    A questão do Zé Aníbal nem seria um problema se ele não precisasse de continuar a pedir crédito e a aumentar a dívida.

    Não seria um problema e a Moody’s nem sequer existia. E os bancos também não. Nem sequer havia um sistema financeiro.

  12. Luis

    “Não seria um problema e a Moody’s nem sequer existia. E os bancos também não. Nem sequer havia um sistema financeiro.”

    Huumm…parece que não expliquei bem. O Tó Sovina podia perfeitamente existir, e os merceeiros idem. O Zé Aníbal é que não dependeria deles, nem teria que vender o fio. Quando muito, apertava um bocadito aqui, um bocadito ali, e gastava só o que tinha disponível.

  13. DavC

    “DavC
    Se o Tó Sovina é credível aos olhos da comunidade não será por acaso. A credibilidade não é inata

    Que é que isto tem a ver com o que escrevi.”

    É simples, quem tem e quer manter a sua credibilidade não pode andar aí a espalhar informação falsa, tem que se esforçar para ser visto pela comunidade como alguém isento, sob pena de deixar de ser por ela acreditado e perder o seu ganha-pão (que é a informação).

    Quanto à segunda questão, já não me referia especificamente ao seu comentário, admito que isto não tenha sido bem explicito. Era mais um comentário à forma como esta questão tem sido abordada pela maioria dos media.

  14. Pingback: Sócrates tinha razão: a culpa é das agências de rating… « O Insurgente

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