laissez faire

“A crítica que, cada vez mais, se pode fazer, indiferenciadamente, à S&P, à Moody’s e à Fitch diz respeito ao “timing” e à natureza pró-cíclica das suas avaliações, pelo que, o problema está na atenção que se lhes dá (…) Assim, a solução está em reduzir essa importância relativa e em esvaziar o poder das agências de “rating”, nomeadamente o destaque que hoje assumem nos mercados financeiros. Como? Abolindo certas restrições ao investimento e a obrigatoriedade de certas qualificações, isentando os emitentes (vendedores) das notações de risco. E responsabilizando, como deve ser, os compradores por qualquer avaliação de risco adicional, para além da ‘due diligence’ dos próprios.”, em “Para o rating que os parta”, um texto que publiquei em Abril passado no Portugal Contemporâneo.

A revisão em baixa, ontem à noite, da notação de risco com que a agência Moody’s avalia o risco da República Portuguesa está hoje a penalizar fortemente os títulos portugueses. A bolsa registou a pior sessão do ano. E os juros da dívida pública, em mercado secundário, agravaram-se para níveis recorde desde a introdução do euro.

Enfim, sendo o “timing” da Moody’s muitíssimo discutível – pessoalmente, não vejo que nova factualidade possa ter justificado esta revisão agora –, a discussão em redor da bondade da decisão acaba por ser inócua pois, para o bem ou para o mal, a decisão já está tomada, assumida e anunciada. Assim, mais importante do que discutir o nível da nota, importa debater a importância atribuída às próprias agências de “rating”. É que hoje, apesar de todas as críticas dirigidas ao sistema de incentivos inerente ao funcionamento destas agências, continua-se a insistir, como suposta boa prática internacional, nas avaliações de risco produzidas por esta gente que, entre os quatro principais “players”, representam 99,9% das avaliações de risco produzidas por esse mundo fora – dos títulos de dívida pública aos malfadados títulos “subprime” – e que, em muitos casos, determinam a (não) elegibilidade desses mesmos activos para carteiras de investimento ou para salvaguarda de operações de financiamento.

Ora, está visto que aquilo que era (e que ainda é) percepcionado como uma boa prática internacional, não está a dar bom resultado…É, pois, preciso mudar o “statu quo”. Eu acabaria com a obrigatoriedade de atribuição de “rating”; cada qual que comprasse, e se responsabilizasse, à sua vontade.

9 pensamentos sobre “laissez faire

  1. Luís Lavoura

    Estou plenamente de acordo com o Ricardo.

    Note-se entretanto que já mais de uma vez foi argumentado neste blogue que as agências de rating são importantes apenas porque os investidores lhes dão importância. Isso é patentemente falso, tal como eu já mais de uma vez fiz notar: elas são importantes porque há diversas regras legais que exigem que a sua notação seja boa para que certos investimentos possam ir àvante. O Ricardo neste post confirma, implicitamente, essa minha objeção, indo pois contra as opiniões emitidas por diversos seus colegas de blogue.

  2. ricardo saramago

    Caro ricardo a.
    As três grandes agências só beneficiam de estatuto oficial nos EUA, aliàs desde há pouco tempo, com outras que ninguém conhece.
    O mercado é livre, o mundo é grande, agências não faltam, e cada um pode seguir os conselhos de quem entende.
    No entanto a função utilíssima que as três grandes exercem, e que justifica o dinheiro que recebem, ainda não encontrou concorrentes à altura, que forneçam ao mercado informação de melhor qualidade, mais independência e universalmente comparável.
    Tal como a Microsoft, podemos não gostar do Windows, reclamar dos seus problemas, das suas práticas menos transparentes, do seu custo, mas no mundo real temos que viver com ele.

  3. O simples facto de o LL concordar com este post bastaria para granjear o meu desacordo, mas por acaso nem isso é preciso para que diga ser esta a primeira posta do RA, aqui ou no PContemporâneo, a padecer de alguma paralaxe na apreciação.

  4. Ricardo Saramago, o estatuto oficial das ditas, vem de 1936 não é de há pouco tempo. E não é só nos EUA, desde Basileia I e da criação do BIS que se passa o mesmo na Europa e, aos poucos, no resto do Mundo

  5. ricardo saramago

    Caro Helder
    Não me fiz entender.
    Em 1975 a SEC dos Estados Unidos criou as Nationally Recognized Statistical Rating Organizations, em que as três Fitch, S&P e Moodys, entre outras, adquiriram o actual estatuto. Das sete agências originais, ao longo dos anos por fusão entre elas restaram as três actuais. Recentemente a SEC atribuiu esta designação a novas agências, no sentido de aumentar a concorrência e diminuir o seu poder.
    Este estatuto só é oficialmente reconhecido nos EUA com força regulamentar, enquanto que fora dos EUA o estatuto das agências não está regulamentado e depende da política de cada instituição.
    (As recomendações do Comité Basel não são obrigatórias, embora tenham grande peso.)

  6. Ricardo, vou insistir, as NRSRO foram reconhecidas em 1936 quando os reguladores bancários americanos (a SEC foi criada em 1934) decidiram proibir os bancos de investir em “speculative investment securities”, ou seja, só podiam investir em obrigações cuja notação fosse BBB ou mais alta. Para isso eram obrigados a usar os chamados “recognized rating manuals” publicados pela Moody’s, Poor’s, Standard e Fitch. O que aconteceu em 75 foi que a SEC passou a obrigar a requerimentos de capital mínimos para as firmas de securities. Com receio de que aparecessem agências de rating “convenientes” formalizou de facto o monopólio das 3 agências que passaram a ser as únicas com estatuto legal de NRSRO, quando na prática já o eram há 40 anos.

  7. Pingback: Sócrates tinha razão: a culpa é das agências de rating… « O Insurgente

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