Indignação para quem?

Os portugueses estão indignados com o facto de as agências de rating terem qualificado o investimento em dívida portuguesa como “lixo”.  A imprensa portuguesa e demais instituições alinham pelo mesmo diapasão.

Estar no “lixo” quer dizer muito simplesmente que só um louco irá investir num Estado que vai entrar em default.

Na realidade, os portugueses não estão indignados com as agências de rating, mas sim com eles mesmos e com a classe política nacional. Deixaram-se convencer pelo discurso de que se fossemos bons alunos do FMI/UE o problema se resolvia. News flash: não é verdade.  Mesmo que se siga à risca todas as regras que nos estão a ser impostas, Portugal irá entrar em default, e é por isso que as agências de rating (com todos os defeitos que lhes podemos apontar) colocaram Portugal no “lixo”.

Mesmo que as agências de rating não existissem, existem outras formas dos investidores avaliarem o risco de emprestar dinheiro ao Estado português. Por exemplo, ler livros. Olhar para a história económica e perceber a partir de que grau de dívida pública o default se torna provável ou até inevitável.

A resposta encontrada por historiadores económicos indica que a partir dos 90% de dívida pública em relação ao PIB o crescimento económico cai drasticamente e que os únicos resultados possíveis são um default ou uma massiva impressão monetária para permitir o recuar da dívida.

Ora, se Portugal já atingiu a marca dos 90% e não tem qualquer controlo sobre a sua política monetária porque está preso ao euro., resta o inevitável default. Todos os políticos nacionais sabem ou deviam saber isto; contudo, na sua ânsia de jogar o jogo do “vamos salvar o euro e o projecto europeu”, venderam uma ilusão aos portugueses que faz com que estes pensem que a culpa está no portador das más (mas reais) notícias: as agências de rating.

Com excepção para a extrema esquerda (que tal como um relógio estragado acerta na hora 2 vezes por dia), todos os políticos optaram por progressivamente vender a soberania portuguesa à União Europeia, por colocarem os bancos à frente dos contribuintes nacionais e por contraírem mais dívida. Isto tudo porque no fim os “sacrifícios valeriam a pena”. Mas não valem, pois o default é, em condições normais, inevitável.

Nestas condições, a única coisa que um governo poderia fazer seria liberalizar a economia o mais possível para que não o tivesse de fazer quando o default chegasse, pois aí seria muito mais doloroso. Infelizmente, parece que o governo opta por subir impostos e financiar-se pela via da receita para pagar uma dívida que … exactamente… nunca será paga.

Não, os portugueses não estão indignados com as agências de rating, estão indignados com os seus governantes que os tributam em vão.

6 pensamentos sobre “Indignação para quem?

  1. Pingback: Sócrates tinha razão: a culpa é das agências de rating… « O Insurgente

  2. Fernando Correia

    Senhor Filipe Faria

    Atendendo a que um dia tem 24 horas e um relógio tem habitualmente números de 1 a 12, um relógio que esteja estragado, presumo que parado, acerta na hora duas vezes ao dia.
    Melhores cumprimentos

    Fernando Correia

  3. Luís Lavoura

    “a partir dos 90% de dívida pública em relação ao PIB o crescimento económico cai drasticamente”

    (1) A Bélgica não é um contra-exemplo?

    (2) Esta conclusão contradiz afirmações que tenho visto escritas por alguns liberais, segundo as quais o Estado não seria muito importante para o crescimento de um país. De forma explícita, como é que o Estado e a sua dívida influenciam, positiva ou negativamente, o crescimento económico?

  4. «De forma explícita, como é que o Estado e a sua dívida influenciam, positiva ou negativamente, o crescimento económico?»

    Esta é de caras: Negativamente, por retirar recursos á sociedade.

  5. Caro Fernando Correia

    Se for um relógio com números de 0 a 24 a questão já não se coloca.
    Mas tem razão, para efeitos da piada, em média será 2 vezes.
    Irei corrigir. Obrigado pela chamada de atenção.

    Cumprimentos

  6. Penso que a teoria expressa no artigo linkado não é que o crescimento económico cai drasticamente a partir dos 90% da dívida, é apenas que cai (enquanto abaixo dos 90% não parece ter efeitos no crescimento económico)

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