João Cardoso Rosas, Miguel Morgado e Carl Schmitt

Tive a sorte de ser aluno tanto de João Cardoso Rosas como do meu amigo Miguel Morgado quando fui mestrando no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e, não obstante o que aprendi com ambos no âmbito da teoria política (ou talvez por causa disso), custa-me a compreender o que poderá ter motivado o parágrafo final deste artigo:

Um aspecto em aberto é o de saber se o liberalismo anti-igualitário e conservador deste Governo será ou não democrático. Parece-me significativo que Passos Coelho tenha nomeado como seu assessor político alguém que considero ser o nosso mais talentoso crítico da democracia: o meu amigo e ex-aluno Miguel Morgado. Uma das ideias fortes do Miguel é a de que “todos os Governos funcionantes são autoritários” e que, em democracia, não é possível a existência de autoridade. Isso leva-me a pensar que a grande tentação do actual Governo, no seu afã de ser “funcionante”, consistirá em invocar uma espécie de estado de emergência – a lembrar Carl Schmitt – devido à ameaça de bancarrota, impondo autoritariamente à sociedade portuguesa uma liberalização radical da economia e das funções sociais do Estado, muito para além do memorando de entendimento e contra o espírito da Constituição. Para isso não será necessário um golpe de Estado no sentido clássico. A invocação da absoluta excepcionalidade do momento será suficiente, desde que os restantes órgãos de soberania, em especial o Presidente, deixem passar a procissão.

Sendo certo que na imprensa (como aliás na blogosfera) o grau de rigor exigido não é – nem deve ser – o mesmo que em contextos académicos, a associação da nomeação do Miguel Morgado a um eventual carácter “não democrático” (!) do actual Governo parece-me um excesso de difícil justificação. Com ou sem referências a Carl Schmitt.

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10 thoughts on “João Cardoso Rosas, Miguel Morgado e Carl Schmitt

  1. André, li o artigo na totalidade e fiquei sem perceber uma coisa. Será que podes esclarecer isso de forma a que um leigo entenda?
    O Miguel defende que “todos os Governos funcionantes são autoritários”, em que sentido? No sentido de alertar contra as práticas autoritaristas desses governos, ou no sentido de considerar que essas práticas são as adequadas?

  2. Tiago Geraldo

    Totalmente de acordo. Mais sintomático ainda é a referência – em nada inocente – ao facto de o Miguel Morgado ter sido seu aluno. O tom não podia ser pior.

  3. “todos os Governos funcionantes são autoritários” parece-me uma boa descrição de todo e qualquer governo (funcionante), democrático ou não. Carl Schmitt tinha toda a razão quando disse que o estado moderno é uma teocracia secularizada.

  4. Vladimir

    Existe o Dr. Jekill Cardoso Rosas (excelente) professor e uma jóia de pessoa …

    … e o Mr. Hyde Cardoso Rosas cronista, simplista, caricaturista, caceteiro, pouco sério e com um enviesamento à esquerda que a direcção-geral de viação devia mandar apreender-lhe a carta.

    E não me baseio apenas neste útlimo artigo para dizer isto.

  5. Subscrevo ipsis verbis o post do AAA.
    La-c, a “autoritas” é condição necessária do exercício do poder.

  6. Pingback: Democratas « Gato do Cheshire

  7. ricardo saramago

    Neste momento o exército tem um novo chefe. A guerra está acesa e o inimigo avança.
    No estado maior depois das paradas (1 mês de tomadas de posse e discursos) agora o estado maior está em reunião, remodelam gabinetes, distribuem fardas novas e nomeiam novos ajudantes e disputam os lugares e gabinetes.
    Estão à espera que a guerra pare, e o inimigo lhes dê tempo para se organizarem.

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  10. Ludovina Janotas

    O professor precisa de reconstituinte cerebral para a memória afectada e algo para prever o esclerosamento já latente e precoce. Estes professores comentadores do Partido Socialista não enganam ninguém, só enganam papalvos. E para eles enquanto houver dinheiro pagam sempre os mesmos, mas parece, e tudo indica, que a festança acabou para algumas décadas e o professor poderá ter de esgaramantear ( para usar um termo do Alexandre O’Neil) um emprego extra para ganhar a vida. Talvez guiar um táxi fosse uma boa terapia de realidade.

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