O Acordo Ortográfico

O que mais me impressiona no Acordo Ortográfico é a imposição de uma forma de escrever e, se aplicarmos as regras, de falar. Ao contrário do que seria natural, a língua portuguesa está a mudar, não porque evoluiu ao longo dos anos num determinado sentido, que agora se poderia confirmar, mas é orientada num rumo, sem o consentimento tácito das pessoas que a utilizam. Não estamos perante uma evolução, mas uma imposição. Uma língua que muda assim, é uma língua morta.

E se isto me impressiona, já me alarma a voluntariedade com que leio quem se antecipa na utilização destas novas regras. É estranho que haja qualquer sentimento de satisfação na sua utilização, mas não deixo de temer que este exista e explique a adesão a normas emanadas de um gabinete, sem que sejam ainda obrigatórias.

14 pensamentos sobre “O Acordo Ortográfico

  1. ” que mais me impressiona no Acordo Ortográfico é a imposição de uma forma de escrever ”

    Já era imposta antes – até se pode argumentar que o AO até cria uma liberdade temporária, já que durante algum tempo acho que várias hipotese serão permitidas

    “se aplicarmos as regras, de falar”

    Como assim?

    “E se isto me impressiona, já me alarma a voluntariedade com que leio quem se antecipa na utilização destas novas regras. É estranho que haja qualquer sentimento de satisfação na sua utilização, mas não deixo de temer que este exista e explique a adesão a normas emanadas de um gabinete, sem que sejam ainda obrigatórias.”

    Pode-se argumentar que é menos sinal de opressão cumprir voluntariamente um coisa que ainda não é obrigatória do que cumprir por ser obrigatória.~

    De qualquer maneira, se o AO foi aprovado, de certeza que há pessoas favoráveis a ele, logo faz todo o sentido que essas pessoas comecem já a escrever da maneira que perferem.

  2. Zé da esquina

    “Ao contrário do que seria natural, a língua portuguesa está a mudar, não porque evoluiu ao longo dos anos num determinado sentido, que agora se poderia confirmar, mas é orientada num rumo, sem o consentimento tácito das pessoas que a utilizam.”

    Discordo. Não há nenhuma alteração imposta à forma de falar. Aliás o acordo é por definição ortográfico, aplicando-se à escrita. Na verdade o acordo aproxima a escrita da forma de falar, transformando a ortografia de palavras como “ato/acto” ou “ótimo/óptimo” para coincidirem com a sua fonética. Em palavras onde a fonética não o exija, esta conversão não é obrigatória. P.ex. eu pronuncio “facto” com o C plosivo a meio da palavra e não da maneira brasileira “fato”. Nesse caso mantenho a minha ortografia.

    Assim sendo, parece-me que o acordo ortográfico está sim a adequar a convenção de forma à realidade prática. Afinal de contas a escrita não é sempre uma “imposição” convencionada? Se obrigássemos as pessoas a falar de maneira distinta é que acharia um abuso. Mas estando na verdade a fazer o oposto, parece-me que o acordo defende precisamenta a liberdade e evolução natural da língua que divergiu da escrita.

    Nota 1: não sou linguista nem semelhante por isso, se cometi alguma incorrecção técnica
    Nota 2: como poderão ter reparado não escrevo com o novo acordo ortográfico. Faço-o não por determinação ou convicção mas porque os hábitos demoram a morrer e não estou ainda disponível para fazer o esforço de conversão. Não significa isto que tenha algum pudor com a imprensa que escreve com a nova grafia ou que me importe que esta grafia passe a ser o standard a ser ensinado nas escolas.

  3. VS

    A imposição da ortografia brasileira é um acto inqualificável, ilegal e ilegítimo, passando escandalosamente por cima de todos os pareceres negativos dos organismos oficiais portugueses (excepto um -1-, favorável, assinado pelo Malaca, um dos «negociadores» da coisa!). O «acordo» nem sequer está em vigor, resulta da imposição do Brasil* e está ao serviço da megalomania brasileira** (português como língua oficial***, lugar permanente no Conselho de Segurança para o Brasil. Tem enorme oposição, como se pode verificar pelas redes sociais onde há dezenas e dezenas de milhares de pessoas a manifestarem-se contra. Também tem a oposição do escol cultural português, e o Manifesto contou para além de muitos intelectuais (Magalhães Godinho foi um deles) com mais de 100 000 portugueses que o assinaram.
    O «acordo» apenas terá os favores da maçonaria, que é quem, em Portugal se tem encarregado de forçar a sua imposição e pela utilização da ortografia mutilada podemos traçar um mapa da influência maçónica e outro, simétrico, da nossa falta de cidadania e das insuficiências do estado de direito e da democracia em Portugal.

    Está em curso uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos http://ilcao.cedilha.net/ para que a resolução da Assembleia da República seja revogada

    * «Assim que o Acordo Ortográfico entrar em vigor, e isso está sendo trabalhado junto ao nosso Ministério das Relações Exteriores, que recebeu orientação firme do presidente Fernando Henrique Cardoso no sentido de ativar os entendimentos, deveremos modificar cerca de 400 palavras hoje constantes do VOLP.»
    ** As mentiras são uma constante : “As Nações Unidas vinham resistindo porque [a língua portuguesa] não tinha uma ortografia comum, então esse acordo ortográfico, que é muito tímido, muito pequeno, não a…feta a liberdade do exercício lingüístico em nenhum país, regulamenta o mínimo, unifica e possibilita essa demanda ser atendida pela comunidade internacional”. (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2008-11-16/acordo-ortografico-deve-contribuir-para-que-portugues-seja-lingua-oficial-na-onu) Estas mentirolas do ministro da cultura brasileiro foram desmentidas, nada tem a ver com nada.
    ***O português dificilmente será uma língua oficial já que, apesar de ser falado por 180 milhões de pessoas, estas estão maioritariamente concentradas num só país. É este dado da distribuição que constitui o principal óbice. De lembrar que a adopção do português como língua oficial da ONU não se traduziria em qualquer ganho, desconhecendo-se qualquer estudo sério nesse sentido.

  4. paulorcf

    Não há imposição nenhuma da ortografia brasileira. O português de Portugal tem os seus próprios recursos independentes (vocabulários, verificadores de texto, etc) que dizem como escrevemos cá. Os brasileiros também mudam muita coisa. Já enoja esta história de se dizer que vamos passar a escrever (e falar!!!) brasileiro! O acordo não muda a forma de falarmos e tanto mudamos nós como eles!

  5. PP

    O post conten medos fundamentados em preconceitos repetidos mil vezes. De resto, nada de substantivo nem de objetivo.

    Toda a ortografia é uma regra estabelecida por alguma instituição nova ou antiga.

    É certo que a ortografia pode condicionar a forma de falar, pelo menos nas neolatinas. Mas é errado dizer-se que o AO condiciona a forma de falar; esta opinião não tem qualquer fundamento.

    Ridículo também é esta ideia de que as linguas não podem, não devem evoluir no sentido da dissipação das variantes de uma mesma língua. Na verdade, num mundo globalizado, a evolução natural e normal das línguas vai no sentido da eliminação das variantes locais.

    Por exemplo, os britãnicos adoptaram os mais diversos americanismos e as diferenças entre o EN-GB e o EN-US falado são hoje menores do que nunca e com tendência para se reduzirem cada vez mais. De resto, aconteceu o mesmo nos EUA onde as fortes diferenças de pronuncia de antes da IIGG são hoje cada vez manores.

    A oposição ao acordo ortográfico, isto é, a promoção do apartheid na LP é alimentada pelo lobby dos tradutores e livreiros, aqueles que nos vendem os livros mais caros da Europa.

  6. LSD25

    A imposição da ortografia brasileira não é a questão. A questão é que os brasileiros há algum tempo que tomaram a decisão acertada de “emudecer” certas consoantes que, de faCto, não faziam sentido. Será que eles também alteraram o “ph” por “f” antes de nós? Se sim, isso faz de nós seguidores deles?

  7. VS

    Tantas ideias feitas nos comentários: 1 a ortografia é uma convenção, mas não é arbitrária. Quanto mais certa e sedimentada mais fácil o seu conhecimento. 2 no entanto, a ortografia não é uma transcrição fonética nem uma roupagem da palavra 3 os USA e a Inglaterra convergem porque nunca divergiram: nunca houve reformas ortográficas nem acordos. Houve o que não há em Portugal e no Brasil: uma eficaz alfabetização e autores comuns estudados no secundário. 4 o ct e os pt são sinais tais como o acento agudo ou grave. Existem em todas as línguas europeias. Os brasileiros cortaram alguns porque não fecham as vogais. Nós fechamos e precisamos deles. Por isso, espectador em Portugal precisa do ct para que o e não se comece a pronunciar ê. Os brasileiros não têm esse problema. 5 A ideia de que as modificações são semelhantes no Brasil e em Portugal é falsa: no Brasil a mudança é à volta de 0,5% e em Portugal seria de 4%. São milhares de palavras e convirá lembrar que um artigo de jornal precisa em media de 750 vocábulos diferentes. Por último, mas relevante, as deficiências e erros do “acordo” são a negação da própria ideia de ortografia. As normas não podem ser facultativas.. E devem ser precisas, permitindo um conhecimento fácil e certo.
    As regras que os académicos brasileiros impuseram nos anos 30 do século passado e que a propaganda quer fazer passar por “evolução” não se mostraram de grande utilidade para o Brasil, que tem um índice de analfabetismo superior ao do Zimbabué.

  8. PJA

    Só por ignorância (que é desculpável, desde que haja a humildade de a reconhecer) se pode afirmar que esta reforma da escrita (incorrectamente designada de “ortográfica”, porque, na verdade, não segue qualquer critério ortográfico cientificamente suportado) corresponde a uma adaptação da grafia à fonética.
    Se fosse assim, todos os “H” iniciais desapareceriam, o mesmo sucedendo àqueles inúteis “U” apostos entre os “Q” ou os “G” e as vogais “E” ou “I”.
    Por outro lado, haveria que manter as impropriamente chamadas consoantes mudas, porque a sua função decorre da fonética e da etimologia. Assim, se eu pronuncio “corretor” diferentemente de “corrector”, ou “espetador” diferentemente de “espectador”, isso assenta (tanto quanto se reflecte) na diferente grafia das palavras. Mas, podemos também observar a incoerência que resulta em grafarmos “infecto” e “infeção” (que deverá ler-se com o “E” fechado), “egípcio” e “Egito”.
    Outros exemplos se podem aduzir, como “concessão” e “conceção”, “acessão” e “aceção”, em que surge uma desnecessária homofonia, mesmo que com diferente grafia.
    Enfim, as letras desempenham uma função estabilizadora na escrita, tanto quanto na oralidade. E isso não pode, ou não deve, ser ignorado.
    Quanto à existência de um acordo ortográfico, ele não é útil, não é necessário, não é interessante. Mas pode existir?
    Talvez possa, se for bem feito. Este foi mal feito. Não percebo qual o motivo da sua defesa, ainda que esporádica.
    A não ser que os defensores do acordo de 1990 digam que a etimologia não interessa, a ortografia deve ser como cada um entende e que o que importa é que os brasileiros estejam satisfeitos (eu creio que nem eles estão…).
    Se forem esses os “argumentos”, eu não tenho nada a rebater.

  9. paulo

    Por que não aproveitamos a resistencia Portuguesa e separamos as linguas já. Criando a lingua Brasileira seriam 200 milhões de falantes imediatamente, e os Portugueses não precisariam mais se preocupar com esta bobagem. O Congresso Brasileiro precisa tomar a iniciativa escreva ao seu deputado.

    Paulo

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