Que horror!

Hoje pela manhã ouvi uma pessoa a falar da injustiça que é as taxas moderadoras nos Hospitais serem iguais para todos sem discriminar pelo rendimento. Falava de saúde, mas podia ser de outro serviço qualquer daqueles que o estado diz que presta de forma tendencialmente gratuita ou mesmo, mesmo, gratuita. Sei lá, podia ser da educação ou até, quem sabe da Justiça. E ouvi uma pessoa, podiam ter ouvido muitas, paletes delas, porta-contentores delas, que isto o que está na moda é o utilizador- pagador. É a vida. Esta coisa da social-democracia que a malta gosta tanto, dos impostos progressivos, da justiça social, por deus!, é muito complicada para as mentes simples dos pastores que nos desgovernam (ou querem desgovernar) e respectivos cães de guarda. Pois pagar os serviços que o estado presta de acordo com o rendimento não é?

Ora bem, tomai lá ò social-democratas encartados, no vosso sistema fiscal que paga os serviços do estado e que desconheceis, funciona assim:

1)   Salário mensal: 700€; IRS a reter: 28€; Contribuições: 77€*

Total pago ao estado anualmente: 1.470€

2)   Salário mensal: 1.500€; IRS a reter: 210€; Contribuições: 165€*

Total pago ao estado anualmente: 5.250€

3)   Salário mensal: 5.000€; IRS a reter: 1.375€; Contribuições: 550€*

Total pago ao estado anualmente: 26.950€

Ou seja, o acesso aos serviços do estado não custam o mesmo para todos e há discriminação de acordo com o rendimento, só que ela é feita no momento de pagamento desses serviços e não no momento da sua utilização. Por isso, almas penadas, ide, ide reformar a vossa social-democracia falida, mas ao menos tende o cuidado de conhecer e quiçá, perceber como é que ela funciona.

 

*Neste exemplo considerei apenas os 11% de contribuições sociais que aparece nos recibos de vencimento, se tivesse considerado o total de 34,75% muito social-democrata ficava com um nó no cérebro, fi-lo para os poupar à utilização de mais de dois neurónios, não fossem entrar em curto-circuito. Muito obrigado.

 

Fonte dos números: Direcção Geral das Contribuições e Impostos

15 pensamentos sobre “Que horror!

  1. Eurocético

    Pois é. Essa teoria é muito bonita. Só é pena é que há para aí muitos fulanos que sabem fugir ao fisco. Os empregados por conta de outrem é que estão sempre a pagar. Não se lembram de um fulano que foi presidente de um grande clube que ganhava menos que o SMN? E andava de BM ou Mercedes ou Audi, tinha casas na praia, na cidade e no campo. Se a justiça fiscal funcionasse isto andava muito melhor. Mas os peixes gordos escapam às malhas de rede. Essa é que é essa.

  2. caro Euro, isto não é teoria, é assim que funciona. Quanto à sua nota, pois a Justiça que funcione não é? Custa-nos os olhos da cara

  3. Paulo Pereira

    O autor tem toda a razão.
    Se quem ganha mais paga muito mais em impostos progressivos não tem nada de pagar mais por serviços do estado.
    É irritante que o PSD e o CDS defendam o contrário.

  4. Carlos Duarte

    Caro Helder,

    Vou-lhe apresentar a resposta que lhe dariam (com a qual não concordo, mas é “fácil” de ver a lógica):

    Para uma despesa de saúde anual de 1.000 € (assumindo taxas iguais para todos):

    1) Dinheiro disponível para gastar: 9.310 € (anual)
    Dinheiro após gastos com saúde: 8.310 €
    Impacto dos gastos com saúde os rendimentos: 10,74%

    2) Dinheiro disponível para gastar: 15.750 € (anual)
    Dinheiro após gastos com saúde: 14.750 €
    Impacto dos gastos com saúde os rendimentos: 6,78%
    Capacidade de pagamento em relaçao a 1): 1,58x

    3) Dinheiro disponível para gastar: 43.050 € (anual)
    Dinheiro após gastos com saúde: 42.050 €
    Impacto dos gastos com saúde os rendimentos: 2,32%
    Capacidade de pagamento em relaçao a 1): 6,80x

    Ou seja, a “lógica” aqui nao é o que contribui de forma absoluta, mas antes a capacidade que tem de absorver as despesas de forma a equalizar o impacto do que é considerado um “bem essencial”. Logo, e segundo esta lógica, um contribuinte na situaçao 3) tem 6,8 vezes mais capacidade de utilizar o SNS que um contribuinte em 1), pelo que deve ser “moderado” na utilizacao para nao sobrecarregar o sistema.

  5. Excelente demonstração, Helder Ferreira.

    Até mesmo a forma desesperada, mas ineficaz, com que alguns comentadores tentam distorcer a evidência do demonstrado é prova clara da sua verdade.

  6. “se tivesse considerado o total de 34,75% ”

    Eu acho que a análise deve mesmo ser refeita com esse total de 34.75% (considerando que acrescem à remuneração bruta), e adicionalmente ter em conta:

    – o subsídio de desemprego tem um tecto (o que aumenta o carácter progressivo da TSU, dado o pagamento ser proporcional mas o benefício não)

    PS: quanto à a pensão de reforma não sei bem em que medida existe um tecto, necessário confirmar.

  7. Atenção que se considerarmos 34,75, não fará sentido considerarmos a base como 100 (deverá ser 123,75). Ou seja, não seria

    “Salário mensal: 700€; IRS a reter: 28€; Contribuições: 243,25€”

    mas sim

    “Salário mensal: 866,25€; IRS a reter: 28€; Contribuições: 243,75€”

    Mas admito que isso não mude a essencia da coisa

  8. Carlos Duarte

    Caro Helder,

    O quanto alguém paga de imposto é opaco. Vc. nao sabe quanto uma pessoa que se cruza consigo na rua paga de imposto. Ou, neste caso, alguém que está à sua frente no centro de saúde ou no hospital paga de imposto. Mas se esse alguém andar de (e para usar estereótipos) de Ferrari, Vc. imagina quanto ele ganha / tem.

    O raciocínio será sempre “ele é rico – tem um casarao, anda de Ferrari, passa férias nas Maldivas – portanto pode pagar mais” – o facto de JÁ pagarem mais em impostos (como é um acto invísivel) é irrelevante para o “zé povinho”.

  9. Ricardo G. Francisco

    Os impostos indirectos diminuem substancialmente a progressividade. O IVA, ISP, IA e outros têm um contributo substancial para o orçamento. É irrelevante para o ponto. Pedirem progressividade no pagamento quando já existe este nível de progressividade nos impostos directos é um gozo…ou um nojo.

  10. Paulo Pereira

    Não entendo a polémica.

    a) A saude é paga pelos impostos e não pelas taxas da S..Social.

    b)Os impostos são progressivos, pode-se é discutir se suficientemente progressivos.

    c) Os mais ricos usam mais saude privada, aliviando o SNS.

    d) Então não faz sentido taxas moderadoras diferenciadas, que provocam uma reacção negativa aos impostos progressivos.

    e) A ADSE tem um custo por utente (cerca de 860 euros por ano) mais baixo que o SNS (cerca de 900 euros por ano) e fornece um melhor serviço.

    f) A ADSE deve ser alargada a todos os contribuntes progressivamente.

  11. Justinianeio

    Existem razões obvias para os custos do ADSE serem mais baixos que o do SNS, desde logo pela identificação dos sujeitos que beneficiam do primeiro.

    Não é de todo o apsso a dar..

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