A Adolescência Eterna

Também publicado aqui.

Winslow Homer, Girl on a Garden Seat, 1878.

Há anos que ouvimos falar do crescente número de mulheres nas universidades que concluem com sucesso os respectivos cursos. São elas quem tiram as melhores notas e mostram vontade de chegar mais longe, ainda arranjando tempo e força para ter filhos, educá-los e sacrificar com isso o seu trabalho. Este artigo já há várias semanas publicado no WSJ, alerta para a discrepância cada vez mais visível entre homens e mulheres. Se tivermos atenção ao que se passa à nossa volta, veremos rapazes, homens, que parecem não querer assumir compromissos, mas viver para sempre os seus vinte anos. Miúdos eternos com as suas namoradas, algumas vezes mulheres demasiado prontas, e à espera. Conversas permanentes sobre jogos, filmes que víamos quando tínhamos 10 anos e pior que tudo isso, uma recusa inata em se conhecerem e melhorarem. Pré-adultos, homens que se portam como miúdos, deixando sozinhas mulheres que se iludem, fazendo tudo por eles.

Muitos trabalham, mas fazem-no de uma forma individualista e não gregária. O artigo refere a extrema diversidade de profissões existente actualmente, permitindo sonhar com uma carreira que conduza a existência humana à sua plenitude. A realização no trabalho já não é trazer dinheiro para casa para alimentar a família e dar-lhe conforto, bem estar e protecção. Nem sequer é lutar pelo prazer de se fazer o que se gosta, independentemente do que os outros pensem. É uma realização pessoal baseada no reconhecimento dos demais que não permite outra solução que não seja o sucesso, sendo este a ostentação máxima, sem risco, nem mácula. Prestígio sem sofrimento, nem desilusão.

A ideia do pai forte e presente, apesar de tantas vezes fora a trabalhar, perdeu-se. Bem vistas as coisas, da imagem do deus da mitologia nórdica, pronto a sofrer, a perder e a morrer com dignidade, à do jovem de agora, que quer viver satisfeito e eternamente realizado, vai uma grande distância marcada por mudanças profundas. Foi Scott Peck quem iniciou o seu livro “The Road Less Traveled” com a afirmação Life is difficult.  A vida é difícil. This is the great truth, one of the greatest truths—it is a great truth because once we see this truth, we transcend it. Quem quer transcender esta verdade quando a ilusão sabe tão bem? Quem está disposto a passar pelas provações e chegar ao lado de lá, quando o divertimento está à mão de semear? Quem quer fazer o dito caminho menos percorrido?

Outro aspecto importante do artigo refere a incapacidade dos rapazes de hoje cumprirem o seu papel de homens. De protectores, corajosos, estóicos e até fiéis, valores hoje tido por ridículos. Ultrapassados. Não deixa de ser interessante como isto se relaciona com o que foi dito sobre a geração parva (ou à rasca) que se rodeia daqueles que nela se revêem, para que nunca a contrariem. Queixa-se, mas pouco mais faz que isso, numa atitude lamentosa na qual parece apreciar o que lhe basta. Os seus membros estão numa fase da vida que não querem ver acabada e, não podendo adiar o inadiável que é a velhice e a morte, fazem-no, ao menos, afastando a responsabilidade que é o assumir que tudo tem um fim.

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8 thoughts on “A Adolescência Eterna

  1. Mas, se analisarmos o assunto de uma forma fria e racional, será que há algum problema nisso?

    Já agora, seria interessante saber, dessas mulheres que se queixam que os homens vivem numa eterna adolescência, quantas são obcecadas por por roupas novas, mexericos com as amigas e afins. Ou seja, talvez a diferença é que as “parvoíces da adolescência” femininas (roupas, festas, etc.) são tradicionalmente mais aceites na idade adulta do que as masculinas (como jogos, tanto reais como virtuais), mas agora os homens estão-se a libertar da opressão.

  2. Lendo com atenção o artigo da senhora, dá-me a ideia que o que ela está a descrever é simplesmente a consequência natural de haver muitas pessoas solteiras a viver sozinhas. Possivelmente, o comportamento “adolescente” é simplesmente o default de qualquer ser humano mais ou menos autónomo mas sem grandes obrigações.

  3. Pingback: O Insurgente

  4. lucklucky

    A a culpa é das mulheres. Principalmente das Mães. 😉
    Gozo à parte isto é a consequência do prolongamento da adolescência por causa da Escola. Do discurso da Tolerância. Anti-trauma.
    Claro isto só é possível por causa da maior riqueza.
    Muitos adolescentes ficariam melhor se tivessem um, dois anos a trabalhar aos 13 anos (trabalho infantil buah – excepto se for nos Cinemasou séries de TV…) que na Escola.

  5. A. R

    Foi no que deu a escola mista: rapazes efeminados, por vezes fazendo papel de mulheres e, do outro lado a mesmíssima coisa. Eles de brinco nas orelhas e elas com o palavrão pronto!

    Uma canalha!

  6. Euro2cent

    “Tenho direito a ser feliz”, uivava um crápulazito “herói” numa telenovela brazuca há mais de vinte anos, abandonando mulher e filhos.

    Aliás, a mesma tolice espetou a tola da Diana numa parede.

    Mas não, isto de cevar os instintos foi promovido a causa nobre desde 1800, e quem se lhe oponha é que é parvo …

  7. “Foi no que deu a escola mista: rapazes efeminados, por vezes fazendo papel de mulheres…”

    Olhando para o artigo, o “problema” parece-me ser exactamente o oposto, não?

  8. Pingback: Adolescência Eterna (3) « O Insurgente

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