Crónicas de New Orleans

Os roteiros de New Orleans são unânimes: o Tremé, bairro adjacente ao histórico e relativamente seguro Bairro Francês, é uma zona proibida. Nos hotéis avisam-nos que acima da Rampart, onde começa o Tremé, estamos por nossa conta e risco. É um medo que se auto-alimenta.

A Rampart é apenas uma das paliçadas imaginárias que cercam as zonas transitáveis de New Orleans. Do outro lado é o inferno na Terra. Ou pelo menos é nisso que acreditam e é nisso que querem fazer-nos acreditar; como todos os avisos sobre todos os recantos mais sórdidos das grandes cidades, há muito exagero e histeria na descrição de uma New Orleans atormentada pela violência e pelos conflitos raciais. Claro que há que usar o bom senso na abordagem a uma das cidades mais perigosas dos EUA (as estatísticas assim o dizem), e não há fumo sem fogo. Mas, para ficar no hotel ou na Bourbon, o melhor é ficar em casa. Assim, numa quarta-feira depois de jantar fomos para o 925 da North Robertson, no coração do Tremé.

Todas as semanas, às quartas, a Tremé Brass Band toca ao vivo no Candlelight Lounge, um barracão perdido no meio de um descampado e enquadrado por casas de madeira que variam entre o humilde e o arruinado. Lá chegámos, são e salvos; e lá ficámos, do princípio ao fim, com um calor insuportável atenuado a golpes de Abita e agravado pelo feijão vermelho e arroz, cortesia e tradição da casa. (The old haunts what I wants is red beans and rice, canta Tom Waits em I Wish I Was in New Orleans). Depois de uma longa espera (estamos no sul, o relógio serve apenas para orientar), a banda começou a tocar o dixie e montou-se ali uma festa genuína, com nativos, outros turistas mais atrevidos e um toque muito caribenho. Tudo atentamente vigiado pelo Uncle Lionel, membro da banda, patriarca do bairro e mestre de duas ou três gerações de músicos de New Orleans. Na rua, para onde o calor nos empurrava de dez em dez minutos, fazia-se comida num grelhador improvisado e a cerveja rodava livremente, sem os disfarces e as restrições de outros Estados norte-americanos. A festa saía do Candlelight e estendia-se por aquele troço da Robertson. Era o Tremé inteiro que celebrava a sua reunião semanal em torno da música, a marca mais forte de New Orleans. Uma reunião de bairro que aos poucos vai rompendo as barreiras erguidas pelo “outro lado” da cidade.

No final, quando Tish, a nossa “fornecedora” de Abitas e recolectora de gorjetas, esgotada, já se preparava para ir para a cama com um disco de blues no ar e uma garrafa de Jack ao lado, apanhámos um táxi de volta para o centro (à uma da manhã, com ou sem exageros, não convém brincar num dos bairros mais violentos da cidade). E não só sobrevivemos ao Tremé, como a viagem a New Orleans passou a ter um sentido e a girar em torno daquela noite tórrida e húmida no coração das trevas.

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