Uma direita de extrema-esquerda

Surpreende-me a verdade folclórica que é agora apregoada pela blogosfera de que o PSD está à direita do CDS. Assim de repente só me ocorre que, à direita do CDS, o PSD apenas tenha o programa de privatizações, e eu nunca discordo de uma privatizaçãozita. Mesmo havendo – e não há – outras evidências de direitismo do PSD, três singelas realidades mostram como o PSD é e pretende continuar a ser um partido de centro-esquerda.

A primeira: nenhum partido de direita poderia ter como candidato pela capital do país (e a presidente da AR) uma pessoa que mostra simpatias pelos terroristas do Hamas.

A segunda, e ainda mais importante: nenhum partido de direita propõe tornar mais rígida a legislação laboral terminando com os contratos a prazo – algo que nem o definitivamente esquerdista PS propõe e que é digno de constar no programa do BE. (Deixemos de lado o facto de esta proposta ir contra as coisas moderadamente inteligentes que PPC disse na primeira vez que se candidatou no PSD e até as coisas pouco inteligentes que propôs já líder, há uma eternidade – um ano). Perante a proposta de PPC, o código de Bagão Félix é um clímax de liberalismo. Ora a legislação laboral é, sem rival, a legislação mais estúpida deste país (que tem a sua dose de leis estúpidas), é imobilista, desincentiva o mérito e o esforço, faz perpetuar a pobreza nas gerações, é inimiga da produtividade, uma verdadeira calamidade para as PME, ajuda ao aumento do desemprego; que se pretenda tornar o cenário pior é para mim inimaginável em qualquer partido que pretende ser governo, quanto mais para um partido que pretende governar à direita.

A terceira: um partido de direita que pretenda baixar a TSU não o faz depois de ter viabilizado o novo código contributivo (que aumentou enormemente as contribuições para a segurança social e não apenas para os recibos verdes) nem o faz aumentando impostos sobre o consumo; um partido de direita baixa a TSU reduzindo a despesa noutro lado e alocando a folga que daí resulte para compensar a perda de receita na Segurança Social. O PS aumentou a despesa corrente como se não houvesse amanhã; não será, portanto, muito difícil cortar essa mesma despesa.

4 pensamentos sobre “Uma direita de extrema-esquerda

  1. Cara Maria João Marques,

    1. contra essa é difícil de argumentar. Fair point. Mas não julgue que a miss Caeiro é muito melhor que Fernando Nobre. É que não é mesmo.
    2. posso ter entendido mal o que Passos Coelho e o PSD pretendem, mas pareceu-me que o objectivo é flexibilizar a legislação laboral de tal forma que não se justifique a segmentação de mercado tal como ela existe actualmente. Mais: comparado com o código de trabalho do Bagão Félix até o código de trabalho que este governo socrático aprovou na legislatura anterior parece de direita (a seu favor, Bagão Félix poderá argumentar que a guerrilha que lhe foi movida pela esquerda sindicalista e pelo PS de Ferro Rodrigues impediu-o de ir mais além). Mas, contrariamente ao que a Maria João afirma, as propostas do PSD na matéria, em função do que nos tem sido servido, é que são um clímax de liberalismo. De resto, ainda que PSD, CDS ou PS tivessem outras ideias sobre o assunto, o memorando de entendimento com a troika obrigaria-os sempre a irem no caminho correcto.
    3. não percebo o ponto porque o CDS parece não ter posição sobre a matéria – ou tem a socrática: ‘está a estudar’ – e devia estar obrigado a tê-la em função do acordo com a «troika». E em matéria de redução da despesa não notei, posso estar novamente equivocado, que o CDS no seu programa eleitoral vá mais longe que o PSD. Aliás, ideias para aumentar a despesa é o que não tem faltado no discurso de Portas.

    Confesso que quando comecei a ler o texto esperava, a partir da sua premissa inicial, que me demonstrasse que o CDS está à direita do PSD. E no fundo a Maria João apenas tenta justificar que o PSD é um partido do centro-esquerda. Contudo, com base nos argumentos que apresenta, também o CDS pode ser agrupado em igual categoria. Mais, com a imaginação demonstrada por Portas para aumentar a despesa (coisa antiga, aliás, basta recordar a bandeira eleitoral da campanha de 2005), eu mantenho-me na minha que o CDS nesta campanha colocou-se deliberadamente à esquerda do PSD.
    Mais, e permita-me a provocação, tendo em conta aquilo que foi a liderança – essa sim verdadeiramente de centro-esquerda e social democrata – de Ferreira Leite, defendida pela Maria João Marques com unhas e dentes em 2009, este PSD de Passos Coelho é um clímax de liberalismo. Essa é que é essa.

  2. Maria João Marques

    Mr. Brown, o código de Bagão Félix permitia que se mantivesse alguém com contratos a prazo até 6 anos. O PS diminuiu o prazo para metade. Sendo que um dos principais problemas é que as empresas não querem arriscar colocando pessoal efectivo nos quadros (porque ficam lá para a vida toda), a solução Bagão era a melhor até agora implementada.

    O PSD não propõe qualquer liberalização ou flexibilização, pretende (sem o saber bem, o que torna tudo ainda mais grave, dada a evidência de impreparação) tornar mas rígida a legislação. Isto é evidente.

    Quanto a Manuela ferreira Leite, que eu apoiei e fiz muito bem, clamava contra duas realidades: o aumento do endividamento e as grandes obras públicas. PPC e amigos, na altura, defendiam as obras públicas; quanto ao endividamento, não diziam nada, que também não percebiam o problema.

    Nenhum partido que proponha aumentos de impostos é um partido liberal. MFL afirmava que não aumentava impostos (o que depoiis de eleita contradisse com o PEC1). É preferível um partido que baixe impostos e financie só a escola pública do que um artido que aumente impostos e por isso financie o cheque ensino.

    Respondi a tudo? 🙂

  3. «Quanto a Manuela ferreira Leite, que eu apoiei e fiz muito bem, clamava contra duas realidades: o aumento do endividamento e as grandes obras públicas. PPC e amigos, na altura, defendiam as obras públicas; quanto ao endividamento, não diziam nada, que também não percebiam o problema.»

    Também acho que fez muito bem. 🙂
    Concordo consigo que PPC na altura não teve o melhor comportamento, por muito que os seus apoiantes digam o contrário. As declarações sobre o TGV foram vergonhosas e tinham um único objectivo: fragilizar Ferreira Leite. Mas não concordo que ‘PPC e amigos’ não percebessem nada sobre o endividamento. Percebiam-no e alguns deles – outros nem por isso, também é verdade – foram tão ou mais críticos em relação ao caminho seguido pelo PS do que MFL.
    Em relação às respostas dadas, vou continuar na minha: com o PSD existirá maior flexibilização laboral, o próprio acordo com a «troika» assim o exige, e a forma como a descida da TSU será compensada pode não ser a óptima, mas será a possível.
    Mas o essencial resume-se a isto: com maior ou menor votação em PPC, com maior ou menor votação em Paulo Portas, já só faltam 2 dias para nos livrarmos de José Sócrates. 🙂

  4. Maria João Marques

    ‘Mas o essencial resume-se a isto: com maior ou menor votação em PPC, com maior ou menor votação em Paulo Portas, já só faltam 2 dias para nos livrarmos de José Sócrates’

    Hear, hear!

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