O cantinho do telespectador (XI)

Depois de um período de auto-deslumbramento que me pareceu um bocado excessivo – e que tive oportunidade de o manifestar – o CDS-PP está a passar um daqueles momentos normais de non-sense e disparate na tentativa de não ver as suas aspirações naturais diminuídas. Só que a falta de jeito vem à tona, e o tal mito do CDS-PP ultra-competente começa a dissipar-se. Depois de Paulo Portas, não fosse haver dúvidas, ter insistido na ideia peregrina de que o CDS-PP está à esquerda do PSD em matérias sociaisacho que desta vez nem a criatividade do Adolfo os salva do disparate – agora é Pedro Mota Soares que quer aplicar a Lei da Rolha a Marcelo Rebelo de Sousa, esquecendo pormaiores, como os que, e muito bem, o Manuel Pinheiro refere, no Cachimbo.

Destaco ainda um pensamento profundo do líder do CDS-PP, que peço que seja transcrito em acta – que provavelmente me vão dizer uma vez mais, lá para os lados do Rua Direita, ter sido novamente “uma má frase a revelar uma boa política – em que Portas afirma, de cravo na lapela, e cito, que “o CDS tem compromisso social e o PSD é mais liberal”. Concordo com Paulo Portas, pena que contrarie a convicção enraizada, wishful thinking, de alguns, que acreditam que o CDS-PP pode ser o melhor refúgio para os liberais em Portugal.

A vida está difícil.

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22 pensamentos sobre “O cantinho do telespectador (XI)

  1. O melhor refúgio para os liberais em Portugal é a sua casa, casa onde vou ficar confortável e aconchegado e, principalmente, livre destes concursos de qual é o sapinho menos repugnante.

  2. Meu caro JLP,

    🙂

    Gosto disso.

    O ponto é que mesmo que fiques em casa, há sempre um sapinho que te está destinado. O mal deste sistema é que ou escolhes um sapo para engolir, e votas no menos mau, ou então alguém te entra em casa e te enfia um sapão enorme pela goela abaixo 🙂

    Vai preparando os sais de fruto, que há sapos para todos 🙂

  3. 🙂

    O ficar em casa é para isso mesmo. É o melhor local para me preparar e conformar com essa inevitabilidade de me enfiarem o sapo pela goela abaixo.

    De resto, não preciso de escolher: afinal a diferença entre o sapinho e o sapão não é muito significativa. Não estamos sequer em grande parte a falar de grandes diferenças de tamanho, mas sim de diferenças cosméticas, do género de escolher se preferimos engolir o sapão de sabor a menta ou de sabor a morango.

    É também um bocado como escolher ser violado com um extintor ou com um poste. Não há vaselina que aguente e a escolha é mais ou menos irrelevante.

  4. Ricardo G. Francisco

    João,

    A mensagem dos medíocres sempre foi que “Somos todos iguais”.

    Eles não são todos iguais. Pelo menos ainda não o demonstraram.

    O que aconteceu a Portugal nestes anos foi um acelerar de uma decadência moral e ética assustadora. Os governantes não se demitem nem quando são apanhados com a boca na botija. Antes a queixa é que não iam presos. Hoje a queixa é de que nem saiem do poleiro. Sabes porquê?

    Porque conseguiram convencer gente suficiente que eles são todos iguais.

  5. É como te digo, uns são de sabor a menta e outros de sabor a morango. Não são iguais.

    Mas, mesmo sendo diferentes, a sua actuação converge para o mesmo fim. Podem trilhar caminhos ligeiramente diferentes, tirar nuns sítios e meter noutros, serem facínoras ou calamitosos bem intencionados. O ponto onde chegámos é o que se conhece, e não vejo nem nos candidatos nem na generalidade dos eleitores vontade de mudar esse curso substancialmente.

    A escolha que vejo ser oferecida é a de se é melhor caminhar para o abismo “assim” ou “assim”, ir a correr ou ir a passo. Não vejo muito mais do que isso.

    Sendo assim remeto-me a votar no “partido” dos factos e da realidade que – como se sabe – conseguem ser bastante teimosos.

  6. rui a.

    “1.O melhor refúgio para os liberais em Portugal é a sua casa”
    O problema é que um destes dias nem casa temos…

  7. “O problema é que um destes dias nem casa temos…”

    É bem possível. 🙂

    Mas uma coisa eu posso garantir: quem vai contribuir para esse facto são exactamente estes sapões que lá se vão metendo.

  8. Totalmente de acordo com o João. No actual contexto, o melhor é descredibilizar a legitimidade dos vencedores para mandarem nos nossos recursos através da abstenção em massa. Muito do que se fez em democracia desde 74 foi feito porque qualquer dirigente alegava que estava munido de “legitimidade democrática”, essa entidade mágica que tudo permite e tudo faz consentir.

  9. rui a.

    “quem vai contribuir para esse facto são exactamente estes sapões que lá se vão metendo”

    Também concordo. O problema é que essa é a natureza da política (a sapologia) e os liberais têm de o enfrentar. Por outras palavras: ou fazemos partidos liberais e, uma vez feitos, deixam de o ser, ou percebemos de vez que o liberalismo serve essencialmente para limitar a soberania e o governo, obrigando esses sapões a respeitarem o que não lhes pertence. É um trabalho árduo, sobretudo em Portugal onde a maralha ainda está convencida que vai viver à custa do governo dos sapões, mas não vejo outro que nos reste.

    Quanto à “legitimidade democrática”, ela não se deixa abalar com o aumento da abstenção, como, de resto, se tem visto ao longo dos anos e particularmente nas eleições municipais e presidenciais. Fazem-se uns debates na televisão, umas reflexões nos jornais, encomenda-se um estudo ao tretólogo Boaventura Sousa Anjos, e segue-se para bingo, isto é, para as eleições seguintes. De resto, a intromissão do governo não tem parado de aumentar, não obstante o crescimento da abstenção e o descrédito da política.

    Abçs.,

  10. Se o liberalismo serve essencialmente para limitar a soberania e o governo então temos de admitir que, pelo menos em Portugal, o liberalismo tem feito um péssimo trabalho, pois não está representado em lado algum que seja minimamente visível ao olhos do grande público. Nem sequer se pede um partido liberal (que depois deixa de o ser), mas simplesmente indivíduos que nos circuitos políticos main-stream consigam valer o ponto de vista liberal. O que é frustrante não é tanto a sedução evidente que o discurso estatizante e social democrata tem sobre a população, mas sim o consenso político que se gera à volta dele sem qualquer voz discordante. Ademais, parece-me que o que limita o poder não é tanto o liberalismo mas sim a “gota de água” que transborda no caos político. O liberalismo é onde se cai quando tal acontece, pelo menos temporariamente.

    Em relação à legitimidade democrática, concordo parcialmente com o que o Rui disse, discordando nos seus efeitos temporais. Lá porque até hoje se verificou que as democracias vão continuando perante a crescente abstenção e descrédito político não advém daí directamente que tal irá continuar a acontecer. Tal como Hume escreveu, lá porque algo é não significa que deve ser. E governos sem apoio popular são governos fracos pois o líder (ou os líderes) têm pouco mais em que se apoiar do que na sua capacidade para persuadir os outros (o povo, exército, etc).

    O discurso do pragmatismo é apelativo e percebo-o. Mas, no contexto nacional, dadas as opções, escolher o “menos mau” é escolher a tal limitação de poder do liberalismo? Os que não votam, como eu, acham claramente que não.

  11. Se já tenho muitas dúvidas em relação à argumentação de que a consumação de um partido liberal caminha inevitavelmente para que este deixe de o ser (mesmo aceitando a dificuldade do caminho para que tal não aconteça), tenho dúvidas ainda maiores quanto ao interesse desse espírito de missão de limitação da soberania e do governo, partindo do sistema político corrupto, blindado e auto-sustentado por clientelas que temos.

    Achar que alguma vez, a partir do estado actual das coisas, algum dos partidos se vai erguer e defender de sua vontade a diminuição da sua quota do estado, a saída dos seus boys dos lugares que partem e repartem há décadas, e abdicar da clientela domesticada, barata, e paga pelo dinheiro dos desgraçados contribuintes, e continuar a acreditar e a alimentar as estratégias de “mal menor” que nos têm levado de forma persistente, paulatina e monótona à situação em que estamos, isso sim parece-me wishful thinking de quem só pode ainda acreditar que vai ser governado alguma vez por anjos ou por homens providenciais.

    Lamento, mas quem vai mudar a percepção da maralha não vai ser o sapão do momento. Vai ser a crueza e a incontornabilidade dos factos. Ai, talvez se possa falar em limitações de soberania e de governo. Até lá, sobra aos liberais preservarem a sua pele e propriedade (e a dos seus) contra esses factos e conceber estratégias de saída e de reconstrução. E esperar que a panela arrume com os sapos.

  12. De acordo João. Em relação à questão do partido liberal, tenho pouca fé que este não deixe de o ser a médio longo prazo, mas tal não me impediria de apoiar uma iniciativa do género. Se não pelas mudanças directas, pela introdução de um discurso diferente. Interessa-me menos por onde esse discurso entre no main-stream político desde que entre. Isso sim, seria pragmático. Agora, na actual situação, votar no menos mau, quando o voto (estatisticamente falando) vale praticamente zero e é apenas moral, é que é a antítese do pragmatismo.

  13. rui a.

    Meus Senhores,

    Comecemos, em boa ordem, pelo princípio.

    Diz o Filipe Faria: “pelo menos em Portugal, o liberalismo tem feito um péssimo trabalho, pois não está representado em lado algum que seja minimamente visível ao olhos do grande público”. Talvez. Mas experimente falar com uma pessoa com mais de 70 anos, que tenha ainda os pirulitos no lugar, e pergunte-lhe o que pensa do liberalismo. Se for católica e conservadora, começará aos berros, a benzer-se e a pedir o auxílio de Deus contra a heresia maçónica e anti-clerical. Se for de esquerda, imediatamente lhe falará no Afonso Costa e no seu grande discípulo Raúl Rego, e nas virtudes da educação pública da I República. Porquê? Porque somos um país de fortíssima influência francesa, em que o liberalismo, o de 180, 22, 34 e de 1910 (e aquele de que, mais tarde, Salazar falava, fazendo coro com a Action Française e o Maurras), foi o dito “liberalismo” francês saído da Revolução, republicano, jacobino, anti-clerical, estatista, isto é, verdadeiramente socialista. Em contrapartida, posso garantir-lhe, presumindo ter (infelizmente) mais alguns anos que vc., que há 25 anos, mais ou menos quando comecei a leu o Hayek e a ouvir falar na Escola Austríaca, ninguém imagiava o que isso fosse e o único liberal que apareceu por essa altura ficou com fama de “tolinho” por causa do que dizia e escrevia. Era o Pedro Arroja.

    Quanto à natureza do liberalismo clássico, lamento, mas ele nunca consistiu numa filosofia do estado e do governo. Se prestar atenção aos clássicos, verá que a sua preocupação era a de limitar o poder soberano do estado e não vejo por que razão hoje deva ser diferente. Na verdade, qualquer partido político com ambições de poder quer, pela natureza das coisas, tomar o poder, isto é, conquistar o estado. E a velha história de “tomar a fortaleza por dentro”, meu caro, nunca me convenceu. Quem quer ir para o governo e tomar o estado é porque tem necessidade de satisfazer esse instinto mais velho do que a humanidade que é a vontade de poder (o “precioso” do Senhor dos Anéis que chegou silenciosamente a tentar o próprio Frodo, um inequívoco liberal clássico…). Contra a qual os liberais clássicos manifestam as maiores reservas e cautelas.

    Isto responde, em parte, ao que escreveu o João Luís Pinto, pois se ele não acredita, e bem, que “algum dos partidos se vai erguer e defender de sua vontade a diminuição da sua quota do estado”, não cometerá certamente a ingenuidade de acreditar que um qualquer “caudilho” liberal que ganhasse eleições democráticas à frente de um partido tão “liberal” como ele, prescindisse do exercício do poder que o estado lhe confere em benefício dos seus e da trupe com quem liberalmente se instalara à mesa do orçamento. Isso, sim, é que é wishful thinking e não exemplo na história que o possa sustentar.

    Por último, volto a insistir na ideia de que a contenção do governo e do estado não se faz a partir da política, menos ainda do próprio estado, mas de uma sociedade razoavelmente robusta e que tenha compreendido que tem menos vantagens em deixar-se simplesmente governar, a razoavelmente governar-se a si mesma. Para divulgar estas ideias não contem com a política, nem com os políticos, reclamem-se eles do que quiserem. Contem, sim, com quem, como nós, por aqui anda há muitos anos a dizer estas coisas, que hoje, em 2011, são bem mais ouvidas e estimadas do que o eram há 20 anos. É um caminho lento, difícil, se calhar sujeito a inúmeras desilusões, mas permanece o único válido. Com excepção, claro está, da verdadeira Revolução Liberal, para a qual já comecei a comprar algumas armas de curto, médio e longo alcance. Mas sobre isso convém usarmos meis mais discretos do que os blogues, não vá o SIS andar por aqui…

  14. Caro Rui,

    Ao ler a sua resposta fiquei claramente com a sensação que no fundo não discordamos nesta questão. Estou genericamente de acordo com a génese do liberalismo clássico e a sua função social. Estou igualmente de acordo que é mais importante ter uma acção forte na sociedade civil do que tentar tomar o poder por dentro. Da mesma forma concordo que um caudilho liberal é uma ideia a roçar o absurdo. Nunca argumentei em contrário, o que eu reivindico (para que a política me mobilize no sentido de apoiar alguém) é simplesmente vozes representativas do liberalismo dentro do poder político que funcionam como anti-corpos ou vírus. Se isso fosse um partido liberal que nunca fosse para o poder ou apenas elementos dispersos pelos diversos partidos com visibilidade já seria um grande passo. Os países anglo-saxónicos têm esses elementos e tal ajuda a ter referências que agreguem a acção da sociedade civil que o Rui mencionou, pelo menos enquanto vivermos neste paradigma democrático.

    André,

    Só para clarificar, quando disse que o discurso “pragmático” era apelativo não queria dizer que o acho pessoalmente apelativo, mas sim que percebo porque é que os outros o acham. A necessidade de acção política imediata ou de pertença a grupos sociais pode explicar muita dessa persuasão…

  15. rui a.

    Filipe,

    Um liberal clássico é uma pessoa que tem da política uma visão realista e que, por isso, não se deixa enganar por ela. Por essa razão, ando eu há muitos anos a dizer que a obra de Maquiavel nos é essencial, porque ela descreve, sem quaisquer pudores ou falsas modéstias, o que é a política e ao que andam os políticos. Por isso, sempre que oiço algum tipo a zunir-me às orelhas que «a política é a mais nobre das vocações» reajo sempre como o saudoso Joseph Goebbels, quando lhe falavam em cultura: puxo imediatamente do revólver, por estar seguramente na presença de, no mínimo, um perigoso carteirista. No limite, de um junkie toxicodependente, de um jogador de casino, de um desgraçado sem vontade própria e incapaz de dominar o vício. É evidente que, no meio disto, há sempre quem tenha princípios e valores, e convictamente os transfira para a acção política e partidária. Mas se ficar neste estado de pureza virginal por muito tempo, não ficará por muito tempo na política. Olhe para os nossos exemplos mais recentes, o Dr. Passos que começou, há três anos, por se apresentar ao país como um genuíno liberalão e que, hoje, não obstante manter algumas das coisas que disse nessa altura, já caíu no choradinho do estado social, em vez de o mandar às urtigas, como era seu dever e faria bem ao país. Já para não falar no nosso líder democrata-cristão, em tempos prefaciador do Novak e defensor das virtudes ilimitadas do mercado, e que é agora mais social-democrata do que os social-democratas. Não tenho, por isso, ilusões. Ser político profissional e liberal é, ao fim de algum tempo (muito pouco), uma insanável contradição.

    Abç. cordial,

  16. “Isto responde, em parte, ao que escreveu o João Luís Pinto, pois se ele não acredita, e bem, que “algum dos partidos se vai erguer e defender de sua vontade a diminuição da sua quota do estado”, não cometerá certamente a ingenuidade de acreditar que um qualquer “caudilho” liberal que ganhasse eleições democráticas à frente de um partido tão “liberal” como ele, prescindisse do exercício do poder que o estado lhe confere em benefício dos seus e da trupe com quem liberalmente se instalara à mesa do orçamento.”

    Não, não acredito. Mas não acho que se possa abordar isso de forma tão simples. Concebo perfeitamente, por exemplo, a ascensão de um partido liberal ao governo que se preocupasse em satisfazer o desejo egoísta dos seus membros de tirar o estado das suas carteiras e das dos seus próximos (não entrando ainda mais na carteira dos outros e na “mesa do orçamento”), e desse modo criasse externalidades positivas nos restantes contribuintes. Mas aceito que no actual cenário clientelar e massivo do estado é um cenário talvez mais que remoto.

    De resto, reforço o que tenho vindo a dizer: esse problema e esses receios vão-se resolver quando deixar de existir “mesa do orçamento”. Já faltou mais.

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