não se dão ao trabalho

“A SIC-Notícias revela que a troika está preocupada com o risco de Portugal falhar as metas do acordo. Em causa estão os prazos que têm de ser cumpridos e o facto de não estarem a ser feitos estudos técnicos para que o novo Governo tome decisões.”, na edição online do Jornal de Negócios.

Ora, hoje mesmo, de manhã, publiquei um post reflectindo estes mesmos receios, que resultam de uma única consideração sobre Portugal: os estrangeiros, quando aceitaram as revisões dos prazos (presente envenenado do PS?), que constam do segundo documento negociado com a UE/FMI (ao que se supõe à margem do entendimento obtido junto do PSD e do CDS), revelaram um profundo desconhecimento, aliás, uma inacreditável ingenuidade, acerca da política portuguesa e dos próprios portugueses. Primeiro, num País em que o Estado é o primeiro a não cumprir prazos e em que tudo demora uma eternidade, como é que se negoceiam prazos tão limitados de tempo sem sequer se conhecer o Governo desse mesmo Estado? Segundo, e mais importante ainda, num País em que são as decisões políticas que condicionam os estudos técnicos, ao contrário do que sucede no mundo germânico ou anglo-saxónico em que são os estudos técnicos que condicionam as políticas adoptadas, a que propósito pensaram os estrangeiros que Portugal iria agora mudar de vida?

Enfim, ainda neste segundo ponto, o exercício de uma cidadania activa, numa democracia evoluída, pressupõe a existência de pensamento reflectido e a articulação de ideias e propostas com base no estudo e na realidade dos factos. Assim sendo, a chamada Troika cometeu um enorme erro de julgamento: é que não há em Portugal uma opinião pública que incentive essa ética cívica, essa busca desinteressada pela verdade das coisas. Há, quanto muito, alguma opinião publicada, aqui e acolá independente, mas que na maioria serve apenas para suportar preconceitos políticos. Ou não fosse este o País dos ditos pareceres…Infelizmente, a Democracia entra em falência quando há pobreza de espírito, em particular quando se fomenta a descontinuidade e o fosso entre eleitos e elegidos. Ora, em Portugal, acontece um pouco dos dois. E o facto de isso se apresentar como irreformável, porventura, nem pela força das circunstâncias (financeiras), é que é assustador. Das duas uma: ou não sabemos viver em Democracia ou nunca estivemos, verdadeiramente, preparados para ela.

Ps: Alguns meses antes de se ter iniciado o debate acerca da redução nominal dos salários na Administração Pública, baseado nos prémios salariais injustificados, atribuídos no Público que não têm correspondência no Privado, fartei-me de escrever a este propósito citando, entre variados agregados estatísticos, um magnífico estudo de investigadores do Banco de Portugal (“Wages and Incentives in the Portuguese Public Sector”), publicado em Julho de 2009, onde eram descritos e publicados esses mesmos prémios injustificados (isto é, diferenças de salários entre público e privado para a mesma função e mesmo grau de qualificação). Apesar da minha insistência, nos blogues, nos jornais e na televisão, nunca vi, até hoje, outros comentadores a referirem-se em detalhe àquele estudo, não obstante a actualidade do assunto. Aliás, é curioso que aquele estudo nunca tenha sido publicado em português…como que a querer dizer “deixa lá publicar isto em inglês, pois, cá, não se vão dar ao trabalho de o ler!”

3 pensamentos sobre “não se dão ao trabalho

  1. Pingback: Dia de Portugal « O Insurgente

  2. João Branco

    Eu também acho que o estudo do Banco de Portugal é muito interessante. Mas mostra que o “prémio” do público não é uniforme, e deve-se principalmente às diferenças de características entre os trabalhadores públicos e privados (tabela 2). Para além disso, mostra que as tarefas menos qualificadas são muito pouco remuneradas no privado (ver que o “prémio” é muito maior para as menores qualificações e desaparece para as maiores qualificações em quase todas as áreas – exceptuam-se os gestores públicos e os “cientistas sociais”).

    Isso vem confirmar o que eu já assumia: o principal problema é que o valor acrescentado da maioria da população portuguesa (que tem baixas competências e baixas qualificações) provavelmente não lhe permitirá ter um ordenado capaz de garantir a sua subsistência (quando existe um “prémio” superior a 20% no decil mais baixo, ou seja, perto do salário mínimo, isto quer dizer o quê?). E infelizmente isto é um problema que não tem soluções de mercado.

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