O fatalismo não existe

Em 1939, Ronald Syme publicou o livro “The Roman Revolution”. Para Syme, o fim da República Romana foi o desfecho de um longo processo de decadência política. As qualidades dos políticos, os vícios próprios de um sistema de mãos dadas com o populismo e ainda o crescimento desmesurado do império, não podiam ter outro resultado que não fosse a Ditadura que aguardava apenas pelo aparecimento de um homem como Augusto. Syme desenvolveu esta tese na década de 30, quando as democracias estavam desacreditadas e muitos preferiam a ordem à liberdade. Esta tinha corrompido o homem e o homem corrompido precisava de disciplina.

Mais tarde, já na década de 70, Erich S. Gruen expôs no seu livro “The Last Generation of the Roman Republic”, outra tese que acabou por ser uma resposta à de Syme. Naqueles anos de turbulência marcados pelos conflitos ideológicos, combate político, choques geracionais de natureza moral e a guerra do Vietname, em que (quase) tudo era questionável, Gruen acreditava que o que sucedeu em Roma, dois mil anos antes, podia ter sido diferente. Tanto o populismo, como os ataques truculentos entre políticos, as suspeições e as mentiras, a falta de confiança que minava a população, a soma de todos estes fenómenos, não conduziam, inevitavelmente, ao fim da democracia. Eles eram, antes de tudo o mais, a sua essência. E sem esses pequenos defeitos, falhas e pecados, a democracia não se regenera. Colocar em causa as instituições não significa querer o seu fim, mas a sua reforma. A ditadura não era inevitável e talvez bastasse que um pequeno acontecimento se desenrolasse de modo diferente da forma como se deu, e a República teria sobrevivido.

Na segunda década do século XXI assistimos a uma convulsão mundial e não sabemos como ficaremos quando terminar. Se mais, se menos livres. Se com mais ou menos Estado. Mais ou menos tolerantes. Uma coisa é certa: a resposta está no modo como encaramos os desafios e no valor que damos à liberdade e não tanto no que verdadeiramente acontece. Não existem fatalidades. Por algum motivo, ainda hoje ninguém nos diz, com toda a clareza, se a República em Roma tinha condições para continuar.

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