A Tragédia do Euro – O Livro de Philipp Bagus (Parte 2)

Com a introdução do Euro, as taxas de juro que cada Estado tinha de pagar para se endividar baixaram consideravelmente pois não havia já o perigo de desvalorização unilateral da moeda e igualmente porque os investidores acreditaram desde o início que qualquer problema de liquidez estatal seria resolvido através de “ajudas” da União Europeia. Isto foi especialmente verdade para os países que estavam tradicionalmente endividados e que recorriam a desvalorizações de moeda constantes (o sul da Europa). Agora sim, era possível a estes Estados endividarem-se “ad aeternum” a baixo custo e foi isso que fizeram desde então. Alguns políticos alemães, ao anteverem este processo, pediram sanções automáticas e imediatas para países que excedessem o limite do défice anual (3% do PIB). Tal nunca foi aprovado pois nenhum Estado se queria auto-limitar na sua capacidade para contrair dívida.

Desde a introdução do euro que os governos de cada país têm a capacidade para indirectamente “imprimir” dinheiro. Isto é feito através da emissão de dívida pública, vendendo-a a bancos que aceitam comprar essa dívida. Estes últimos querem comprar dívida pública essencialmente porque o banco central europeu aceita emprestar-lhes dinheiro (imprimido) se estes tiverem títulos de dívida pública em seu poder (usando-os como colateral). Assim sendo, vender dívida pública significa em boa parte receber empréstimos da impressora monetária que é o Banco Central Europeu.

Chega-se assim à ideia central do livro de Philipp Bagus: o Euro é uma “tragédia dos comuns”.  Sabendo-se que os primeiros a receberem o dinheiro impresso pelo BCE podem gastá-lo com proveito antes da inflação os atingir, todos os Estados têm incentivos para se endividarem o mais depressa que puderem, pois se não o fizerem serão apenas os receptores da inflação causada pelos que têm acesso ao dinheiro primeiro. Naturalmente que os países com economias mais débeis (Portugal, Grécia…) foram os que mais correram para o BCE nos últimos 11 anos, sob pressão eleitoral e com a impopularidade de subir impostos, emitir dívida pública foi a única solução que os políticos destes países encontraram para vencerem eleições.

Desta forma, os políticos locais injectaram crédito no seu país e passaram a inflação para os outros. Como o último a chegar ao crédito torna-se exclusivamente num receptor de inflação, vão todos correr para obtenção desse crédito o mais depressa possível. Da mesma forma, os bancos não têm medo de emprestar a Estados falidos porque contam com a protecção dos Estados e dos bailouts da UE na defesa do Euro. Todos estes agentes políticos e económicos podem assim ser irresponsáveis à discrição e em última instância, se algo correr mal, pedem mais impressão de dinheiro ao BCE. Consequentemente, esta expansão de crédito leva a bolhas imobiliárias (Espanha, Irlanda) ou a improdutividade/destruição da estrutura produtiva (como Portugal e Grécia). O único travão para esta tragédia dos comuns é a perspectiva de hiperinflação ao nível europeu; este é um cenário que esteve já mais longe, visto que o BCE, na tentativa de salvar o euro, está já a partir de 2010 a comprar dívida pública dos Estados insolventes, numa clara demonstração que não é independente e que está ao serviço dos interesses políticos.

Outro problema central do Euro é a sua falta de adequação à produtividade dos PIIGS, como é o caso de Portugal ou da Grécia. Estes países entraram no Euro vindos de moedas consideravelmente mais fracas, o que os tornou desde então pouco competitivos. Para resolver este problema os governos usaram o “bónus” do crédito fácil do Euro para se endividarem e subsidiarem o desemprego, seja através do subsídio directo, seja através de reformas antecipadas ou através de criação de empregos no sector público. No entanto, Bagus salienta que o Euro não é um desastre porque os países têm diferentes estruturas produtivas, mas sim porque permite a redistribuição de crédito a favor dos países que se endividarem mais depressa, ou seja, estes últimos deixam de ter incentivos para adoptarem políticas de livre mercado internamente. Ademais, o autor lembra igualmente que problema não é tanto a moeda única (o ouro também já serviu esse propósito), mas sim o aproveitamento político e a captura do BCE pelas autoridades políticas europeias.

A título exemplificativo, Bagus ilustra as 3 fases distintas de redistribuição da União Europeia até chegar ao ponto actual: A primeira fase foi a redistribuição dos fundos estruturais e da PAC, a segunda fase foi a redistribuição de crédito via BCE e bancos comerciais e a terceira fase é a redistribuição directa através dos bailouts e da compra directa de dívida pública pelo BCE. Estas fases podem ser entendidas como um premeditado processo de integração europeia que irá centralizar toda a política económica em Bruxelas, com inúmeras consequências nocivas para as autonomias locais.

No entanto, Philipp Bagus fecha o livro apresentando igualmente 3 possibilidades para o futuro do Euro: Na 1ª hipótese o sistema colapsa devido a um ou mais países acharem mais vantajoso sair do euro e entrar em default ou porque a própria Alemanha sai do euro antes que a sua dívida pública passe a reflectir os encargos de toda a Europa. Na 2ª, os castigos da UE aos países com excessos no défice passariam a tornar-se efectivos e tal implicaria, mais tarde ou mais cedo, a expulsão de países incumpridores, o que levaria ao fim do Euro. Já na 3ª hipótese, os países ricos continuam a pagar pelos países mais pobres e eventualmente chegar-se-á à hiperinflação.

Parece assim claro que o Euro só terá futuro se se alienar a autonomia económica dos Estados nações para a entregar a Bruxelas, mas tal, a médio/longo prazo, teria custos enormes. O que se deve retirar do livro do Philipp Bagus é que apesar de ele ser idealmente a favor do ouro como mediador monetário e não de dinheiro produzido por bancos centrais (fiat money), as vantagens de limitação de poder político que as moedas nacionais em competição apresentam são incomparavelmente superiores ao que o Euro oferece. Consequentemente, conclui-se que este projecto monetário deve ser revertido e que os países devem reaver o controlo não só das suas moedas, mas acima de tudo reaver as suas autonomias.

Em suma, usando as tipologias do autor, esta será a única forma de evitar a concretização da visão socialista da Europa e permitir a concretização da visão liberal clássica.

9 pensamentos sobre “A Tragédia do Euro – O Livro de Philipp Bagus (Parte 2)

  1. Excelente revisão do livro, deixa água na boca a qualquer um… talvez nas férias.

    Acho no entanto que deveria ficar explícito mais um ponto: a única forma dos países do sul de manterem o euro era a redução dos salários e da qualidade de vida que reflectisse a produtividade destes. Era, porque agora a questão de manter o euro foi delegada para Bruxelas, restando-nos a opção nacional de o abandonar.

  2. Luís Lavoura

    “alienar a autonomia económica dos Estados nações para a entregar a Bruxelas […] teria custos enormes”

    Quais custos?

    Eu diria que a autonomia económica do Illinois ou do Nevada também foi entregue a Washington – sem custos enormes.

    A autonomia económica do Kerala ou do Assam também foi entregue a Nova Deli – sem custos enormes.

    Bagus demonstra exatamente qual a natureza desses “custos enormes”?

  3. JS

    Mais uma vez, estamos perante uma das mais claras “Big Picture” do que é, e do que não é, o €uro na “União Europeia”.
    Filipe Faria pode esclarecer se Philipp Bagus aborda somente a UE como uma (isolada) Fortalesa €uro ou se analisa, também, as -“€uro vantajosas para a Alemanha e €uro ruinosas para Portugal- relações “União Europeia” China ?

  4. João Branco

    Os “custos enormes” seriam:

    a) perda de autonomia afectaria a parte que a tem (ou seja quem realmente tem dinheiro e crédito) que não está disposta a isso.

    b) perda de apoio ao projecto por parte de muita gente (a maioria dos votantes dos países mais ricos e de muitos dos países mais pobres).

    c) A ideia de um ponto central a definir níveis de politicas sociais comuns sofre do problema de ou essas politicas são niveladas tão por baixo que não abrangem efectivamente “ninguém” dos países mais ricos – e são ressentidas por esses países porque não lhes servem para nada, ou são colocadas num nível mais perto do actual e tornam impossível o trabalho em países mais pobres…

  5. João Branco

    Note-se que eu não acredito que o destino seja a “hiperinflacção” (isso é simplesmente um trauma típico alemão), mas o destino mais provável seria de facto um aumento da redistribuição explícita.

  6. lucklucky

    A Inflação já existe. Em muitas coisas. É só mascarada pela deflação em muitas outras coisas. O Estado: Educação, Saúde, Justiça não pára de se tornar mais caro – para resultados paupérrimos – enquanto a economia competitiva não pára de se tornar mais barata. Mais tarde ou mais cedo terá de se dar o ajustamento.

  7. Continuo a defender que quem irá por um ponto final no euro irá ser a própria Alemanha. Não consigo imaginar a UE a expulsar países membros… poderá é haver países que lucrem com a saída voluntária do Euro, assim mantenho que no espaço de 3-4 anos a Alemanha abandonará voluntariamente o Euro, para isso bastará um aumento de inflação não controlada pelo BCE (e já estamos a ver isso) ou os Bonds da Alemanha passarem a Eurobonds mesmo sem isso ser oficial (baixa de rating e aumento do juro), por “incorporarem” divida de países periféricos que entrarão em default (acho inevitável para os PIG tenho dúvida em relação ao S e ao outro I)

  8. Pingback: Não Somos Todos Federalistas | Filipe Faria

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