É a democracia a nascer no Médio Oriente

«Um general egípcio admitiu que foram feitos “testes de virgindade” a mulheres detidas durante as manifestações de Março – e defendeu mesmo a prática dizendo que se destinava a evitar que as manifestantes dissessem, mais tarde, que tinham sido violadas pelos militares. (…)

A Amnistia Internacional tinha alertado para os maus tratos a que tinham sido submetidas as mulheres que se tinham manifestado às mãos dos militares: choques eléctricos, espancamentos, revistas sem roupa, ameaçadas com acusações de prostituição e forçadas a submeterem-se a um teste de virgindade.

“Estas raparigas não eram como a sua filha ou a minha”, disse, citado pela CNN. “Estas eram raparigas que estavam acampadas com rapazes na praça Tahrir, em tendas com cocktails Molotov e drogas”, afirmou. “Não queríamos que dissessem que as tínhamos atacado sexualmente ou violado, por isso queríamos provar que já não eram virgens”, argumentou. “Nenhuma era.” (…)
Uma das vítimas nomeadas no relatório da Amnistia Internacional contou à estação norte-americana CNN o que aconteceu depois de soldados fardados a terem levado para o museu na praça Tahrir. Amarraram-na, obrigaram-na a ficar no chão, bateram-lhe, deram-lhe choques, chamara-lhe prostituta.»

Eu não percebo se o dito general referido na notícia acredita na impossibilidade de uma mulher que não é virgem ser violada ou se considera que violar uma mulher que já não é virgem não tem mal nenhum. De qualquer modo, é elucidativo.

Mercado livre na Plaza de Cataluña

Un bloguero liberal seguidor de la Escuela Austriaca, Joan Tubau, ha puesto a prueba las convicciones del movimiento de los indignados. Si sus peticiones, una vez se salen del marco de la reforma electoral, son consistentemente socialistas en mayor o menor grado, sus prácticas en la vida real parecen ajustarse más al aprovechamiento de las ventajas del libre mercado.

Tubau decidió renunciar a una noche de diversión y se pasó por un supermercado, compró 600 latas de cerveza y las vendió la noche del viernes –con gran asistencia a la acampada de la Plaza de Cataluña en Barcelona– en unas tres horas, según relata en su blog. Mientras tanto, una vegetariana que vendía pasteles de zanahoria no lograba colocar su mercancía entre los concienciados manifestantes. Los beneficios, 250 euros, planea invertirlos en la compra de un Ipad. (…)

Aqui.

hora h

O braço de ferro entre a Europa e a Grécia está, na minha opinião, esgotado. Nenhuma das partes convence a outra. Pessoalmente, tenho muito pouca simpatia por aquilo que vou lendo dos responsáveis gregos. E parece-me que, com excepção da Alemanha, que nos corredores do poder continua a insistir numa reestruturação da dívida grega como contrapartida para novos empréstimos, não existe dos restantes líderes europeus a percepção de que, ao ajudar a Grécia, apesar de esta não merecer grande ajuda, se concretizará mais um passo rumo à integração política da Europa.

Agora, também é certo que essa integração tem de ser voluntária. Acima de tudo, tem de ser negociada, com vantagens percepcionadas por ambas as partes. Pelo contrário, não pode ser apresentada como uma versão moderna do Tratado de Versailles, que, convenhamos, é a ideia que resulta do título dos memorandos que a troika tem imposto aos países periféricos (no caso português, o título do memorando, em inglês, é “Memorandum of Understanding on Specific Economic Policy Conditionality“). Assim, para que se chegue a bom porto, isto é, a uma negociação que, por um lado, alivie o fardo creditício da Grécia e, por outro lado, conceda a Bruxelas o controlo efectivo da política orçamental grega, é necessário que, pelo menos, uma das partes veja o abismo diante de si, para que, rapidamente, possa regressar à mesa das conversações com incentivo redobrado. Ora, neste momento, só me parece existir uma via para atingir esse fim: deixar cair a Grécia no final de Junho. Deixai-a estatelar-se. E avalie-se, então, o impacto, associado ao default grego, produzido nos balanços dos bancos europeus. Estou convencido de que: a) este impacto não será catastrófico (mas verdade seja dita ninguém sabe, nem mesmo o BCE, qual é o impacto) e; b) será a única forma de demonstrar aos gregos que têm mais a ganhar mudando de vida e com mais Europa, do que mantendo os mesmo vícios e afastando-se dessa mesma Europa.

Uma última nota: na hora do colapso grego, que está iminente, será crucial que a Europa se una num esforço de magnanimidade, não se aproveitando da sua força negocial. Se isso acontecer, honrar-se-á a memória dos primórdios do Projecto Europeu, que sonhava com a ideia de uma verdadeira União Europeia. Pelo contrário, se tal não acontecer, então, será a melhor forma de enterrar o assunto de uma vez por todas

The Biggest Loser

“Uma campanha eleitoral assemelha-se, num aspecto, à fotografia: aumentando o campo, perdem-se muitos pormenores. A indigente agitação eleitoral em que vivemos quis fazer um enquadramento tão geral que não se falou dos pormenores essenciais: os acordos com a troika (…) O que é espantoso é que estamos a poucas semanas de se ter de tomar medidas cruéis e os partidos que aspiram ao cargo de primeiro-ministro, PS e PSD, parecem estar em vésperas de um piquenicão. Se a troika é Speedy Gonzalez, PS e PSD são os vagarosos piratas da perna-de-pau. Sócrates ou Passos Coelho não terão um segundo para decretar tudo o que foi assinado com a troika e que os portugueses desconhecem.”, Fernando Sobral, hoje no Jornal de Negócios.

Ora, se desconhecem, aqui vão as medidas previstas no segundo documento (de 17/05/2011).

Do Orçamento de Estado para 2012, que terá de ser apresentado em Bruxelas muito em breve, do lado da despesa, deverá constar o seguinte (slides 2, 3 e 4):

  • Redução de 500 milhões de euros nas despesas de funcionamento da Administração Pública Central;
  • Redução de 100 milhões nas despesas de funcionamento dos Serviços e Fundos Autónomos;
  • Redução de 175 milhões nas transferências correntes para a Administração Pública Local e Regional;
  • Redução de 500 milhões no Investimento Público;
  • Redução de 515 milhões nas despesas de funcionamento do Sector Empresarial Público;
  • Redução de 445 milhões na atribuição de Pensões;
  • Redução de 150 milhões na atribuição de Subsídios de Desemprego;
  • Redução de 550 milhões no Sistema Nacional de Saúde;
  • Redução de 100 milhões na ADSE e afins;
  • Redução de 195 milhões na Educação Pública.

Quanto ao Orçamento de Estado para 2013, mesmo depois de todos os cortes realizados ao longo de 2012, descritos anteriormente, do lado da despesa deverá ainda constar o seguinte (slides 5 e 6):

  • Redução de 500 milhões de euros nas despesas de funcionamento da Administração Pública Central;
  • Redução de 175 milhões nos Serviços e Fundos Autónomos e Sector Empresarial do Estado;
  • Redução de 175 milhões nas transferências correntes para a Administração Pública Local e Regional;
  • Redução de 350 milhões no Investimento Público;
  • Redução de 350 milhões na atribuição de Benefícios Sociais;
  • Redução de 375 milhões no Sistema Nacional de Saúde;
  • Redução de 100 milhões na ADSE e afins;
  • Redução de 150 milhões na Educação Pública.

Et voilá, eis o cardápio que nos será servido. Ao todo, entre 2012 e 2013, estamos a falar de uma cura de emagrecimento superior a 5.000 milhões de euros e que, grosso modo, corresponde, em montante, ao défice primário anualizado, registado até Abril, publicado no último relatório da Direcção Geral do Orçamento. Uma última nota: faltou, em relação ao Programa de Governo da troika, enunciar os aumentos previstos nos impostos…

Do Egipto, uma opinião primaveril

De Amr Yossef, In defense of reason, not Israel.

1. Israel works to weaken Egypt
Common among conspiracy theorists in Egypt is the notion that Israel wants an Egypt that is weakened, divided, and torn by sectarian violence. (…)
In fact, a stable Egypt is in Israel’s interest. A divided Egypt might turn into another Iran, where organized Islamists took over a shattered state after a democracy-seeking uprising. Alternatively, it might turn into another Lebanon, where state weakness allows actors like Hezbollah to attack Israel at will. Would Israel be interested in creating a similar situation in which Jihadists join Hamas and operate from Egypt? Of course not.
At best, a chaotic Egypt might turn into a Mexico (or a Pakistan?) where another weak state fails to stop cross-border illegal immigration, drug and weapons trafficking. Thousands of African illegal immigrants enter Israeli territory from Sinai each year, despite measures taken by Egyptian authorities. Skyrocketing numbers of African infiltrators, drugs, let alone explosives, would reach Israel in case the Egyptian government loses control, or is domestically too busy to control borders.
None of these scenarios are good for Israel, and therefore it would certainly be interested not in undermining Egypt, but rather in an in-control, stable government in Cairo to keep the peace, and maintain order on the southern border.

2. Israel wants to occupy Egypt
The conventional view that Israel plans to occupy Egypt or re-occupy Sinai is part of a broader myth that Israel’s long-term strategic objective, out of Jewish religious beliefs, is to rule from the Nile to the Euphrates. Alleged “evidence” maintains that over the Knesset’s entrance hangs a map asserting that “the Land of Israel from the Nile to the Euphrates,” and that the Israeli flag’s two horizontal blue lines represent the Nile and the Euphrates rivers. Yet the truth is that there is no such a map in the Knesset, and the lines in Israel’s flag are derived from the design of the traditional Jewish prayer shawl.
The “Greater Israel” claim is as true as the contention that Muslims plan to establish a world-ruling Islamic caliphate. Some ultra-extremists might want to, but the vast majority does not even think of it. First, it would take a fairly insane Israeli leadership to bear the massive military and economic burden of invading a country of Egypt’s scale. Note that occupational experiences have exhausted Israel in areas as small as the Gaza Strip, southern Lebanon, and even the West Bank. Second, paradoxically, this claim contradicts another generally accepted view by the Egyptian public asserting that Israel is militarily superior and enjoys full, unconditional US support. Why, if this really is the case, has Israel not attempted an invasion? The answer is simple: Israel is satisfied with the current status-quo — in which, it perceives, Israel is the one deterring its neighbors and not vice versa — and is not interested in a territorial expansion that would go far beyond its capabilities.

3. Israel is all-powerful
Most Egyptians apparently believe that the premises of The Protocols of the Elders of Zion, displayed in an Egyptian TV series titled “A Horseman without a Horse” in 2002, are true. Within this framework, obviously inflated notions — such as that Israel exploited agricultural cooperation with Egypt to either cultivate cancer-causing products in Egyptian soil or export these products to Egypt, and that the Mossad stood behind the December 2010 fatal shark attacks to hit tourism in Egypt’s Red Sea resorts — are easily accepted. Notwithstanding that such allegations have no factual or logical grounds, no one stops to ask why should an Israel facing serious security challenges (Iran, Hamas, Hezbollah, etc.) busy itself with that kind of stuff.
On a larger scale, Israel, or the Jewish people (as people hardly distinguish between Jews and Israelis), is viewed as a mighty force that rules the world through Jewish communities. It follows that any Israeli (or Jewish) economic or cultural activity in Egypt is seen as part of a “grand plan” to penetrate the society and gradually pervade all walks of life. While the Israel lobby in the US and elsewhere is truly powerful, the claim that the Jewish state controls the world provides, unfortunately, a tool to cover up one’s own failures than a realistic proof.
That these misconceptions are shared by a large part of the Egyptian public, which in a representative democracy will significantly influence the foreign policy agenda, is disappointing. That is because the revolution against the old regime has not yet removed old myths which deny the public opinion credible and informed judgments, regardless of whether a democratic Egypt would see in Israel a friend or a foe.

As propostas de Sócrates para o país

Sócrates, o líder da Oposição, por David Levy.

não se dão ao trabalho

“A SIC-Notícias revela que a troika está preocupada com o risco de Portugal falhar as metas do acordo. Em causa estão os prazos que têm de ser cumpridos e o facto de não estarem a ser feitos estudos técnicos para que o novo Governo tome decisões.”, na edição online do Jornal de Negócios.

Ora, hoje mesmo, de manhã, publiquei um post reflectindo estes mesmos receios, que resultam de uma única consideração sobre Portugal: os estrangeiros, quando aceitaram as revisões dos prazos (presente envenenado do PS?), que constam do segundo documento negociado com a UE/FMI (ao que se supõe à margem do entendimento obtido junto do PSD e do CDS), revelaram um profundo desconhecimento, aliás, uma inacreditável ingenuidade, acerca da política portuguesa e dos próprios portugueses. Primeiro, num País em que o Estado é o primeiro a não cumprir prazos e em que tudo demora uma eternidade, como é que se negoceiam prazos tão limitados de tempo sem sequer se conhecer o Governo desse mesmo Estado? Segundo, e mais importante ainda, num País em que são as decisões políticas que condicionam os estudos técnicos, ao contrário do que sucede no mundo germânico ou anglo-saxónico em que são os estudos técnicos que condicionam as políticas adoptadas, a que propósito pensaram os estrangeiros que Portugal iria agora mudar de vida?

Enfim, ainda neste segundo ponto, o exercício de uma cidadania activa, numa democracia evoluída, pressupõe a existência de pensamento reflectido e a articulação de ideias e propostas com base no estudo e na realidade dos factos. Assim sendo, a chamada Troika cometeu um enorme erro de julgamento: é que não há em Portugal uma opinião pública que incentive essa ética cívica, essa busca desinteressada pela verdade das coisas. Há, quanto muito, alguma opinião publicada, aqui e acolá independente, mas que na maioria serve apenas para suportar preconceitos políticos. Ou não fosse este o País dos ditos pareceres…Infelizmente, a Democracia entra em falência quando há pobreza de espírito, em particular quando se fomenta a descontinuidade e o fosso entre eleitos e elegidos. Ora, em Portugal, acontece um pouco dos dois. E o facto de isso se apresentar como irreformável, porventura, nem pela força das circunstâncias (financeiras), é que é assustador. Das duas uma: ou não sabemos viver em Democracia ou nunca estivemos, verdadeiramente, preparados para ela.

Ps: Alguns meses antes de se ter iniciado o debate acerca da redução nominal dos salários na Administração Pública, baseado nos prémios salariais injustificados, atribuídos no Público que não têm correspondência no Privado, fartei-me de escrever a este propósito citando, entre variados agregados estatísticos, um magnífico estudo de investigadores do Banco de Portugal (“Wages and Incentives in the Portuguese Public Sector”), publicado em Julho de 2009, onde eram descritos e publicados esses mesmos prémios injustificados (isto é, diferenças de salários entre público e privado para a mesma função e mesmo grau de qualificação). Apesar da minha insistência, nos blogues, nos jornais e na televisão, nunca vi, até hoje, outros comentadores a referirem-se em detalhe àquele estudo, não obstante a actualidade do assunto. Aliás, é curioso que aquele estudo nunca tenha sido publicado em português…como que a querer dizer “deixa lá publicar isto em inglês, pois, cá, não se vão dar ao trabalho de o ler!”