Profissão: Servo

Entram-nos em casa com um papelinho e dizem-nos que, antes de o levar de volta para o Castelo, deve estar ali, preto no branco, a religião que professamos e o nome da pessoa com quem dormimos na noite de 20 para 21 de Março. A desobediência, avisam, será castigada com multas pesadas. O atrevimento tem a palavra inconstitucional estampada em letras garrafais, mas, mesmo que o débil texto fundamental não nos proteja da devassa, enfrentamos uma claríssima tentativa de invasão da privacidade. E o que faz a maioria dos cidadãos? Responde*. Sentam-se numa mesa, com uma caneta na mão, percorrem todos os itens com o empenho de um bom aluno com um trabalho de casa para fazer, e respondem, obedientes, alguns, amedrontados, outros, doutrinados, quase todos. E assim demonstramos que somos carne branda para qualquer molde totalitarista. E que não merecemos sequer a pouca liberdade que temos.

* A maioria dos cidadãos vai responder, sem dúvida, mas eu aconselho algum cepticismo no tratamento dos primeiros dados recolhidos em pleno reinado das redes sociais.

Reykjavík, 2006

6 pensamentos sobre “Profissão: Servo

  1. Pingback: A mim, que só entro em qualquer repartição pública quando tal não pode ser evitado, fazem-me confusão estes gostos. « Farmácia Central

  2. Dervich

    A preferência religiosa surge como opcional…

    E também parece abusivo concluir-se quem um agregado familiar dorme todo junto ou que passam a noite a jogar playstation ou outra coisa qualquer…

    Na realidade, não percebo para que querem o nome, o telefone e o e-mail (e não vou disponibilizar os dois últimos) mas censos sempre houve (aiás, há 2000 anos um filho dum carpinteiro terá nascido por alturas de um destes inquéritos) e esta fobia é algo incompreensível…a não ser por uma incomensurável ausência de civismo!…

  3. Carlos M. Fernandes

    “…incompreensível..”, “…a não ser por…”, ” O seu mundo parece muito bem definido, estável e inquestionável. Peço desculpa por perturbar-lhe as certezas. Nada que umas aulas de civismo não resolvam (Zapatero inventou a “educação para a cidadania”, deve ser para eliminar os indesejáveis com “ausência de civismo”). Ou um campo de reeducação.

  4. Não gostei. Não percebo, sendo a informação para fins estatísticos, da necessidade de identificar com nomes os indivíduos, e de o endereço tão completo.

    Não tenho confiança nenhuma em nenhum sistema informático, muito menos nos geridos por entidades estatais. Esta é uma informação demasiado boa para cair nas mãos erradas.

  5. Maria João Marques

    É preciso dar nome e endereço?! Mas os censos não são apenas para fins estatísticos, de agregados? O que interessa o nome e o endereço?

  6. JS

    #4 JF. Óbvio. O Nome num Censo??? Absurdo.

    WIKIpedia-” …recolha de várias informações, tais como o número de habitantes, o número de homens, mulheres, crianças e idosos, onde e como vivem as pessoas e o trabalho que realizam, entre outras coisas.”

    ESTE formulário (e a legislação punitiva) tem que ser submetido à aprovação do Tribunal Constitucional na sua totalidade, na sua forma actual.
    E os Deputados que aprovaram isto …

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