As manifs. e a mudança

Ouvindo alguns dos que se manifestaram ontem, ficámos a saber que a sua maior preocupação é a falta de emprego. A falta das mesmas condições que tiveram os pais e avós: acesso a um mercado de trabalho seguro e certo. Sem sobressaltos. Por isso, pediram mudança.

Há um erro de base nas reivindicações de ontem, exigindo-se algo que não é possível dar. Assume-se como direito de uns, algo que implica o dever de outros. O que não existe. E mesmo existindo, já não é possível.

Atente-se no seguinte: exige-se mudança, mas nenhuma das pessoas que desceu a Avenida da Liberdade parece querer mudar. Exige-se mudança de políticas, mas ninguém parece pretender alterar o seu conceito de vida. Repensar o que pretende da vida, o que se predispõe a fazer. Exige-se uma mudança colectiva, não determinada, nem determinável, desde que não implique uma mudança individual, de cada um dos que esteve nas variadíssimas manifs. de Sábado. Os outros que mudem, eu não. Eu tenho direitos. Alguém (um ser abstracto qualquer) que fique com o dever de me servir. E já agora, de mudar.

Exige-se que alguém se responsabilize pelo estado do país, mas há pouca vontade para assumir a responsabilidade por si mesmo. Pela sua vida e o seu futuro. Exigem emprego, com contrato de trabalho, em vez dos recibos verdes, mas ainda não perceberam que o sentido é o inverso: menos contratos de trabalho e mais recibos verdes, o que não é mau se isso significar trabalho e dinheiro. Exige-se mudança, mas poucos parecem perceber que as coisas mudaram e o emprego seguro e para toda a vida, como tiveram os nossos pais, já não existe. O mundo mudou e muitos, não querendo mudar com ele, querem que este volte ao que era. Não vão ter sorte nenhuma.

Bem sei que a diversidade de pessoas que esteve nas manifestações não permite um discurso claro e linear. Há de tudo. Mas as manifestações de Sábado não deixaram também de ser uma demonstração de nostalgia, que não se reduziu à músicas de intervenção. Saudades de um mundo que acabou. A mudança que se precisa é individual e só com o despertar de cada um, é que o país, no seu todo, muda. E as exigências deste Sábado se concretizam.

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