PEC insurgente: insolvência

O ministro das Finanças não tem razão quando afirma que o “Presidente é a única entidade que se pode comprometer o país”. Um pedido de ajuda externa implica promessas que apenas um órgão executivo pode cumprir. Mas acertou numa coisa: um Governo demissionário não pode assumir compromissos futuros (claro que nenhum Governo tem qualquer legitimidade para o fazer além do seu mandato…).

Mas se, até às eleições, faltarem fundos para refinanciar a dívida no termo da maturidade, qual a solução? Simples: Insolvência! Que implicará a reestruturação da Dívida. Nestas circunstâncias o melhor que o Governo português pode fazer é pagar Dívida Pública com Dívida Pública. Por outras palavras, “obrigar” os credores a aceitarem títulos do Tesouro como pagamento.

Quanto ao financiamento do Orçamento de Estado, passando a ser quase impossível aceder ao mercado da dívida, as despesas terão de descer rapidamente ao nível das receitas cobradas. Ou seja, défice zero. Este ano, não em… 2050!!!

Antes e em vez da Insolvência e da Falencia

Nos Estados de direito modernos, em que o Estado (também) tem como função a garantia dos contratos celebrados entre individuos e organizações, a Falencia acontece depois da Insolvencia.

Quando se constata a insolvencia, e não havendo possibilidade de esta ser resolvida sem quebra de contratos, com um empréstimo de um familiar ou o aumento de capital de um acionista, por exemplo, pode ser declarada a Falencia. Em um estado de direito é importante esta ordem. Porquê? Porque muitas vezes o que acontece é que o indivíduo ou organização não tem capacidade para cumprir com todas as suas obrigações, mas pode conseguir cumprir com algumas. Quando é decretada a Falencia, a ordem de cumprimento é ordenada pela lei. É assim, no caso de uma empresa, que os últimos a verem os seus direitos contratuais postos em causa são os colaboradores e os primeiros são os acionistas. Entre os que estão em piores condições são os credores financeiros que não tenham garantias reais.

O Estado Português, no momento em que decidiu que não podia cumprir com os contratos com os cidadãos, assumiu a sua Falência. Lembro-me de ter primeiro alterado as regras do calculo das reformas. Desde aí muitos contratos foram quebrados. Este ano chegaram aos cortes dos salários. Para o comum dos cidadãos ou para uma empresa a opção de alterar unilateralmente contratos não existe. O Estado, alem de ter o monopólio da força pode criar e alterar as leis!

Em vez de termos declarado a Falencia do modelo de Estado social, o que permitiria uma Falencia ordenada e explicada aos cidadãos, com uma avaliação do que é que seria realmente viável e que medidas teriam de ser tomadas para termos um Estado solvente e sustentável os principais partidos Portugueses decidiram ir pelo caminho que decidiram ironicamente chamar de “Defesa do Estado Social”. Em vez de decidirem que funções do Estado eram necessárias e viáveis e de re-estruturarem o Balanço vendendo os Activos desnecessários, diminuindo a dívida e consequentemente os custos financeiros, decidiram matar devagarinho o Estado Social. Como? Mantendo um Estado inviável vivo à custa da quebra lenta e sem critério dos contratos que tinha com os cidadãos.

Os tais “direitos adquiridos” deviam ser TODOS postos em causa, porque foi o Estado como um todo que se achou inviável. Nunca foram discutidos critérios para manter uns contratos/direitos e eliminar outros. Na melhor das hipóteses, e na pior das tradições de uma democracia popular foram critérios populares e demagógicos.

Os reformados e trabalhadores da função pública têm razão em reclamar com os cortes. Porque é que o Estado quebra os contratos com os “mais fracos” sem quebrar primeiro com os “mais fortes”? Quem governa tem de falar a verdade e explicar. Se não, dá espaço a quem não entende porque não se lhé explicado de que a alternativa pode ser pior.

Porque o Estado pode garantir a sua viabilidade, não indo a falencia, com a quebra dos contratos. Como o Estado tem essa prerrogativa (e aqui vem o paradoxo) é preferível para o médio e longo prazo quebrar os contratos com os seus cidadãos do que com estrangeiros, nomeadamente os Estrangeiros que o financiam. Porquê? Porque amanhã o Estado vai precisar de pedir dinheiro emprestado. E se hoje não cumpre com as obrigações de contratos de financiamento feitos no passado, amanhã não vai conseguir mais empréstimos. É a tal lógica dos “mercados financeiros”. Continuam a não gostar de ser roubados.

Os cidadãos, a começar pelos “mais fracos”, devem exigir ao próximo governo que explique como é que vão transformar este Estado insustentável, que rouba cada vez mais, de forma cada vez mais acelerada, num Estado funcional, solvente e sustentado. Porque se não, o Estado antes de ficar Insolvente, ou de declarar a Falencia continuará a castigar os mais fracos. E com a Falência quem mais sofrerá serão mais uma vez os mais fracos, que dependem hoje do Estado para viver.

Transportadoras do Estado: uma Comédia

No dia em que as Agências de Rating ameaçam deixar de avaliar Portugal e outros países do sul da Europa.

No dia em que o Estado vê o seu défice “revisto” para 10% em 2009 e 8.6% em 2010.

No dia em que o Estado decidiu pedir 1 500 000 000 Euros… para amanhã!

No dia em que a CP, a REFER e a Metro de Lisboa baixam de BB para B+!!!

O que é que fazem os maquinistas da CP? Declaram greve…

É só a mim que isto parece uma tragi-comédia?!?

Sócrates: back to basics

Retrato de António Barreto.

Estamos a pedir em más condições, depois de um golpe de Sócrates que provocou eleições para tentar continuar no deslize e no agravamento em que estávamos.

(O momento actual do país)  corresponde à ideia do primeiro-ministro, de provocar uma crise na qual ele possa, eventualmente, passar por vítima.

Campanha Suja

Ontem à noite, através do programa Negócios da Semana da SICN, fiquei a saber que as receitas tarifárias do TGV, na linha Lisboa-Madrid, representam 3%, sim 3%, dos benefícios que o governo anda a vender aos portugueses. E o que são os outros 97% perguntam vocês? Nas palavras do Professor Avelino de Jesus, o senhor que se demitiu da comissão da reavaliação das PPPs porque não o deixavam trabalhar, “benefícios do tipo ambientais, externalidades, poupanças de tempo e coisas do género”. Ou seja, as tretas que forem necessárias para justificar uma cobrança de impostos.

As PPPs são o instrumento perfeito para aliar a eficiência operacional dos privados à incompetência pública na gestão de dinheiro dos contribuintes e chegarmos ao pior dos dois mundos. São o exemplo acabado de uma solução de “consenso alargado“.

Acho que se justifica recuperar algo que escrevi há uns tempos noutras paragens:

Um dos chavões do reformismo é a necessidade de fazer reformas com, e não contra, o que precisa de ser reformado. Parece uma fórmula sentata mas fazer “reformas com” significa que a cada passo é preciso pagar a alguém para se poder avançar. Fazer “reformas com” transforma as reformas em distribuições de dividendos. É uma ideia peregrina que resulta no facto de 90% da despesa corrente do Estado ser intocável. O que vale é que parece que está finalmente a chegar o tempo de fazer “reformas contra”.