O problema do país é também de mentalidade

Hoje em dia é muito interessante conversar com arquitectos. Não sobre casas e edifícios, tendências estilísticas e cores, mas sobre trabalho. Para quem não saiba o mercado dos arquitectos é, em Portugal, um dos mais exigentes e mortíferos. São muitos os que se esfalfam a trabalhar dias e noites infindas em ateliers que pouco lhes pagam. A alternativa tem sido a busca de clientes próprios e, tantas vezes, a diversificação: em vez de projectos, procurar levar a cabo obras, por pequenas que sejam, arranjos, restauros, o que quer que faça clientela e dê nome. Pôr mãos à obra é puxar pela cabeça. Alargar horizontes é muitas vezes sujar as mãos e fazer todo o tipo de trabalhos. Lembrei-me disto ao saber que Alexandre Soares dos Santos, presidente do grupo Jerónimo Martins, referiu que o problema do país não são os salários, mas a falta de mão de obra qualificada para determinadas profissões com grande oferta. Este assunto foi um dos escolhidos e analisado no ‘Descubra as Diferenças’ com Miguel Botelho Moniz e Ricardo Francisco. A estratégia centralista que o Estado escolheu para, cumprindo estatísticas, encaminhar milhares de jovens para cursos sem qualquer saída profissional, induzindo mais ainda o preconceito relativo a determinadas profissões, como se não fossem dignas, por serem manuais, tem tido efeitos desastrosos.

Nos últimos anos, não só se impediu que as necessidades da população fossem o motivo preponderante na escolha das profissões dos jovens, possibilitando-lhes um emprego com rendimento e boas perspectivas de vida, como também se estimulou a necessidade do emprego de ‘fato e gravata’ como imagem e garantia de sucesso. A busca do emprego na empresa ‘certa’, de nome conceituado, como se de marca de roupa se tratasse, o desprezo por trabalhos tradicionais e manuais, mesmo que melhor pagos, é uma mentalidade errada, não produtiva e que, sendo tantas vezes forçada, conduz à insatisfação pessoal de quem não se realiza no trabalho.

Foi Margaret Thatcher quem disse num discurso no Partido Conservador, em Outubro de 1980, que o que faltava no Reino Unido era um zest for achievement. Entusiasmo de quem tenta com esforço. There are many things to be done to set this nation on the road to recovery, and I do not mean economic recovery alone, but a new independence of spirit and zest for achievement.

Vencer a estagnação económica onde encalhámos há 15 anos passa também por aqui. Ultrapassar o estigma do que deve ser aceitável e bem visto. Centrarmo-nos mais no que é merecedor de respeito: o brio profissional, qualquer que seja o ofício. Focarmos o sucesso na facturação conseguida, na criação de mais emprego, permitindo que outros se juntem a nós. Não mais o ênfase na busca solitária do emprego certo, dado como garantido e como garante de estatuto.

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9 thoughts on “O problema do país é também de mentalidade

  1. Luís Lavoura

    Não vejo como é que foi o Estado quem estimulou que demasiados jovens tirassem um curso de arquitetura ou os desestimulou de tirarem um curso de, digamos, talhante.

    Tanto quanto me é dado ver, foram os jovens e os seus pais quem, autonomamente e sem ser por influência do Estado, decidiram tirar cursos superiores com pouca saída.

    O Estado, pelo contrário, até os tentou dissuadir disso, nomeadamente impondo numerus clausus bastante restritivos nalguns cursos. Mas as universidades privadas e, nalguns casos, as universidades estrangeiras, permitiram superar esse problema…

    Que eu saba, jamais o Estado português estimulou os jovens a tirarem cursos de arquitetura.

  2. ccz

    Esta oficina, pela fotografia, deve estar à beira do encerramento compulsivo pelas autoridades.
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    Onde está o uso de EPIs?
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    Os equipamentos cumprem a directiva Máquinas?
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    A madeira está certificada?
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    O inventário de madeira é compatível com a facturação dos últimos meses?
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    O software das facturas está certificado?
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    O pessoal tem a formação regular prevista na lei?
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  3. Tiago

    “democratizou-se” o ensino superior, a nível cultural e estatal. Conclusão:

    1- As pessoas não tiram um curso porque querem, mas porque “têm” que tirar algum curso. Grande parte dos alunos de arquitectura vão por causa do prestígio do curso e não por serem apaixonados por arquitectura. Muitos gostam de artes, e arquitectura dentro dessa área é vista como o curso mais “sério” e com mais saídas.

    2- A formação superior, tem cada vez menos de superior. Os 5 anos do curso têm um aproveitamento muito baixo e não estão adaptados às novas realidades . É normal muita gente afirmar que aprende mais no primeiro ano de trabalho do que nos 5 anos do curso. O curriculo dos cursos está completamente desactualizado e estagnado. Não existem ofertas disciplinares que respondam à diversidade do mercado de trabalho actualmente. Por exemplo se um arquitecto português quiser construir um arranha céus na Ásia, não tem qualquer tipo de conhecimento nessa área.

    3- Um bom técnico em qualquer das áreas da construção civil, começa a ganhar mais cedo, trabalha menos, não tem falta de trabalho, tem pouca concorrência, tem um futuro mais seguro. Não há electricistas a emigrar. E olhem para a quantidade de arquitectos que emigram…

  4. JS

    “Foi Margaret Thatcher…”. M. Tatcher era conservadora.
    Os portugueses bizaram “socialismo”. Tiveram e têm o Estado e a sua estagnandora borucracia metida em tudo, e com todos. Empresários e trabalhadors adaptam-se a este sistema quasi-comunista. Uns só aliados ao “estado”. Outros com um canudo “qualquer” na mão, de preferência com o cartão do partido no bolso, atentos venerandos e obrigados, dilondicamente suspirando por o seu lugarzinho na gamela. “Zest” nacional versão PS/PSD. Duvidam?

  5. Aquilo a que o AAAmaral chama de “mentalidade” também poderia ser chamado de “preferencias dos agentes económicos” (neste caso, a preferencia por exercer a profissão A em detrimento da profissão B).

    Imagine-se que não estavamos a falar da preferencia por desempenhar a profissão A em vez da B, mas sim da preferencia por consumir o produto C em vez do D, e alguém dizia “esse hábito de preferir o produto C só porque dá mais status e por pressão da cultura dominante, quando o produto D até é mais barato é uma mentalidade errada que conduz à insatisfação pessoal de quem acaba a consumir produtos que não são os que mais necessita”; não me admirava nada que alguém neste blogue ou em áreas próximas respondesse algo como “não me venham com essas conversas marxizantes de «alienação» ou de «hegemonia da cultura dominante»; as preferencias são subjectivas e se as pessoas compram o produto C em vez do D, quer dizer que preferem o produto C ao D”.

    Aliás, o AAAmaral escreve ” A busca do emprego na empresa ‘certa’, de nome conceituado, como se de marca de roupa se tratasse…”; mas, se é normal ligar ao “nome conceituado” para escolher uma roupa, porque não há também de ser na escolha de um emprego? Afinal, o principio é mais ou menos o mesmo…

  6. António Ferreira

    O problema é que para fazer qualquer tipo de trabalho hoje em dia exige-se um curso mesmo quando o trabalho pode ser feito por qualquer pessoa com 2 dedos de testa.

  7. Fernando S

    Miguel Madeira : “não me admirava nada que alguém neste blogue ou em áreas próximas respondesse algo como “não me venham com essas conversas marxizantes de «alienação» ou de «hegemonia da cultura dominante»; as preferencias são subjectivas e se as pessoas compram o produto C em vez do D, quer dizer que preferem o produto C ao D”.”

    Com efeito. As preferencias das pessoas são racionais.

    Mas acontece que os “mercados” são entravados pela acção de um agente pretensamente “economico” mas que é de longe maior do que qualquer outro e que tem posições largamente dominantes.

    No mercado de trabalho, a procura é directamente e indirectamente fortemente condicionada pela acção do Estado “função publica” e o Estado “cliente”.

    No mercado de educação/formação, a oferta é fortemente condicionada pela acção do Estado “escola publica”.

    Este agente não é economicamente racional, na medida em que não tem como objectivo maximizar nem uma hipotética satisfação “publica” (não existe ; quem decide no Estado tende a perpetuar poderes e privilégios pessoais) nem a utilização mais eficiente de recursos proprios que são capital e como tal teem um custo (os recursos são alheios, dos contribuintes, e, como tal, gratuitos para o Estado).

    Neste contexto, os “mercados” enviam forçosamente sinais errados aos agentes.
    Mesmo agindo racionalmente os agentes economicos não estão em condições de ajustar de modo eficiente os meios (recursos proprios) aos objectivos (preferencias individuais).

  8. lucklucky

    Estão a começar a descobrir a Aristocracia Social que nasce com os Sistemas de Ensino Publico.
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    “referiu que o problema do país não são os salários, mas a falta de mão de obra qualificada para determinadas profissões com grande oferta.”
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    Obviamente que são os salários. Num país de vaidosos sociais quem deverá ter o melhor salário é em quem limpa casas de banho.
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    Alexandre Soares dos Santos só precisa de obedecer ao que o Mercado lhe diz: Aumentar os ordenados dessas profissões.
    Se ele colocar os salários do talhante a 5000 euros mês de certeza que encontra talhantes.
    Os aristocratas que trabalham na sua empresa e julgam que sabem muito é que não deverão gostar dessa medida.
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    A imigração tem atrasado o acerto do preço de Mercado para as profissões desprezadas.

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