Mais um em contramão na auto-estrada

Nada como começar a semana com mau hálito, daquele político. Desta vez o bafo veio do Daniel Oliveira, com a sua defesa “racional, justa e coerente” do fim da ADSE.

O Daniel começa por dizer que a ADSE é irracional porque “entregamos a gestão de recursos a quem não os paga. Quem fornece o serviço não só não tem de promover a racionalidade de custos como tende a ganhar tanto mais quanto mais irracional for. Junta-se a isto o facto de, como acontece com as seguradoras, os beneficiários da ADSE poderem usar os hospitais públicos em atos médicos mais complexos ou dispendiosos.

Presumo que o Daniel esteja a falar da velha questão da “carne do lombo” em que os privados ficam com o que dá dinheiro e o público fica com os tratamentos que não interessam, e em que os privados ganham à peça, logo, têm todos os incentivos para impingir aos seus utentes despesas inúteis.

A parte que o Daniel esquece no meio de tudo isto é que, no caso da ADSE, entre o Estado e os privados, há a parte que assegura a racionalidade da coisa: a carteira dos beneficiários. Como na ADSE uma parte significativa do pagamento sai sempre directamente do bolso do utente, este tem todo o interesse em não ser enganado. Isto de presumir que as pessoas podem pensar pela sua própria cabeça pode parecer completamente lírico para um defensor do Estado Social mas há tipos que juram a pés juntos que é isto que acontece quando se dá liberdade de escolha à maralha.

A seguir o Daniel diz-nos que a ADSE é injusta porque “não há forma de defender que enquanto os trabalhadores do privado estão obrigados, caso não tenham rendimentos para mais, a usar um serviço do Estado, os trabalhadores do Estado nas mesmas circunstâncias possam optar por serviços privados financiados pelo Estado. A mensagem que o Estado passa é a de que o que é bom para os funcionários dos outros não chega para os seus.

Não percebo o que é que isto tem a ver com justiça ou falta dela. Das duas, uma, ou o serviço público tem qualidade e não há necessidade de recorrer ao privado, ou o serviço público é uma trampa e é bom que haja alguém que possa escolher serviços melhores. Especialmente quando essa possibilidade de escolha, além de não me impedir a mim de ter acesso à saúde, até me permite pagar menos impostos.

Por fim, o Daniel diz-nos que “é incoerente criticar as parcerias público-privado que dilapidam os cofres públicos ou o cheque-ensino e defender a ADSE. Quem defende que o SNS deve ser para todos e não apenas para os mais pobres não pode depois aceitar que haja um sistema de exceção para os funcionários do Estado.

Isto já é um problema que o Daniel e o resto da esquerda vão ter de resolver com os seus respectivos psicólogos. Eu bem sei que a ideia de ter o Estado fora do circuito de vida da população é uma coisa que lhes dá suores frios mas, cá fora, no mundo real, nós estamos mais preocupados em saber se os nossos políticos estão a fazer alguma coisa para assegurar que temos acesso a melhores cuidados de saúde. Só para que fique claro, “melhor” significa a mesma saúde por menos dinheiro, mais saúde pelo mesmo dinheiro ou até, cruzes credo, mais saúde por menos dinheiro.

Se o Daniel me conseguir explicar como é que a extinção da ADSE vai permitir que isto aconteça, pode contar comigo para descer a Avenida da Liberdade. Enquanto isso não acontece, preferia vê-lo a defender o alargamento de um sistema que tem inúmeras vantagens face aos serviços de saúde públicos do que a perpetuar a ideia de que temos uma qualquer obrigação de sustentar esses mesmos serviços de saúde, apenas porque são públicos.

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23 pensamentos sobre “Mais um em contramão na auto-estrada

  1. Luís Lavoura

    “Não percebo o que é que isto tem a ver com justiça […] que haja alguém que possa escolher serviços melhores.”

    Tem a ver com justiça que algumas pessoas possam escolher serviços melhores mas as outras pessoas não possam.

  2. Luís Lavoura

    Não vejo como é que a existência de ADSE permite ao Tomás pagar menos impostos.

    Como é sabido, a ADSE é deficitária, isto é, constitui uma despesa extra do Estado, e portanto força a generalidade dos cidadãos a pagar mais – e não menos – impostos.

  3. JoaoMiranda

    ««Como é sabido, a ADSE é deficitária, isto é, constitui uma despesa extra do Estado, e portanto força a generalidade dos cidadãos a pagar mais – e não menos – impostos.»»
    .
    Portanto, se a ADSE acabasse não haveria transferência de doentes para o SNS …

  4. Tomás Belchior

    Luís,

    “Tem a ver com justiça que algumas pessoas possam escolher serviços melhores mas as outras pessoas não possam.”

    Se temos todos acesso a um serviço idêntico e alguns de nós acesso a serviços melhores sem prejudicar ninguém, como um todo, ficamos melhor do que se não permitir a essas pessoas que tenham acesso a serviços melhores. Impedir alguém ser mais saudável (ou rico, ou forte, etc.) apenas porque os outros não o podem ser, isso sim é injusto e imoral.

    “Como é sabido, a ADSE é deficitária, isto é, constitui uma despesa extra do Estado, e portanto força a generalidade dos cidadãos a pagar mais – e não menos – impostos.”

    Como o Joao Miranda diz o que interessa aqui são os custos relativos do SNS e da ADSE. Se existem dez milhões de utentes e a ADSE oferece cuidados melhores e mais baratos do que o SNS, transferir os dez milhões de utentes para a ADSE poupa dinheiro, logo impostos. Passa-se precisamente o inverso se acabar com a ADSE e obrigar os 15% da população que recorre a esse sistema a usar o SNS.

  5. Luís Lavoura

    Tomás Belchior,

    a ADSE oferece cuidados melhores do que o SNS, mas não mais baratos. Como é evidente.

    Por exemplo, uma pessoa que tem ADSE vai ao dentista e a ADSE paga. No SNS não há (ou quase não há) dentistas.

    Mesma coisa com um oftalmologista, etc.

  6. Luís Lavoura

    João Miranda,

    se a ADSE acabasse os seus doentes transferir-se-iam para o SNS, onde pura e simplesmente não encontrariam muitos dos serviços. Portanto, os custos para o Estado seriam menores, dado que a quantidade total de serviços fornecidos seria menor.

    Isto para não falar de que as pessoas com ADSE já hoje gastam dinheiro no SNS – e não é pouco. As pessoas que têm ADSE, tal como as pessoas que têm seguro de saúde privado, podem na mesma recorrer – e de facto recorrem – ao SNS.

  7. Luís Lavoura

    Essa ideia de que a ADSE é mais barata do que o SNS, que eu já vi defendida num livro, o qual livro, certamente que não por acaso, era da autoria do gestor de um hospital privado, é disparatada.

    É preciso ver que o SNS abarca todos os cidadãos portugueses, incluindo muitos que têm ADSE e/ou que têm seguro de saúde privado, os quais têm na mesma o direito de recorrer – e de facto recorrem – ao SNS.

    Para qualquer coisa do tipo uma cirurgia ou coisa assim complicada – e cara – uma pessoa que tenha ADSE recorre ao SNS tal como qualquer outro cidadão.

  8. PT

    Então, se bem entendi, a ideia do Luís Lavoura é nivelar por baixo(como é usual neste país)e meter toda a gente no SNS, para sermos todos iguais. Ou então impedir os utentes da ADSE de usarem os serviços do SNS.
    Afinal, não é justo que uns tenham a possibilidade de ir a um dentista quande lhes dói um dente e outros não! Justo, justo é toda a gente aguentar-se à bronca quando tem de ser..
    Já agora, pelos vistos o Armando Vara não deve ser utente da ADSE…

  9. andre

    o armando vara já nao é f.publico… não é qq atestado médico q lhe serve.
    e esta discussão merecia sem duvida um destaque maior e posterior desenvolvimento em outros posts. fica a sugestão.
    p.s.:uma coisa é discutir q modelo d assistencia d saude ter. outra é discutir
    a racionalidade económica da adse q temos.

  10. Tomás Belchior

    andre,

    “uma coisa é discutir q modelo d assistencia d saude ter. outra é discutir a racionalidade económica da adse q temos.”

    Isso é verdade mas, apesar de tudo, a ADSE é um exemplo prático de um modelo melhor do que o que temos actualmente, que dá algumas indicações sobre o caminho a percorrer. A discussão ainda está por fazer por isso é muito provável que voltemos ao tema.

  11. A. R

    Uma consulta de clínica geral no SNS custa em média 180 Euros. Pela ADSE num médico privado custa menos de metade.

  12. H.

    Como o Joao Miranda diz o que interessa aqui são os custos relativos do SNS e da ADSE. Se existem dez milhões de utentes e a ADSE oferece cuidados melhores e mais baratos do que o SNS, transferir os dez milhões de utentes para a ADSE poupa dinheiro, logo impostos. Passa-se precisamente o inverso se acabar com a ADSE e obrigar os 15% da população que recorre a esse sistema a usar o SNS.

    O João Miranda está a enganá-lo, maliciosamente ou não. Se transferisse os 10 milhões para a ADSE – tal como, actualmente, está estruturada em termos de benefícios e financiamento – o estado ia à bancarrota em dois dias e a ADSE com ele.

    Uma “ADSE” para todos é melhor que um SNS. Mas uma “ADSE” para todos teria de ser muito mais racionada que a actual. Caso contrário não haveria dinheiro para a pagar. If something seems too good to be true, it probably is.

    A sobrevivência da ADSE é uma verdadeira aberração, uma abominação. Uma caríssima remuneração adicional aos funcionários públicos com o bonus dos custos da estrutura e de distorcer o mercado de saúde para os outros (que, aliás, a pagam). Mais valia que lhes dessem o dinheiro como bónus remuneratório.

  13. Pingback: Pelo fim da ADSE « O Insurgente

  14. Tomás,
    Um beneficiário da ADSE pode, se quiser, deslocar-se ao Hospital John Hopkins e aí fazer uma intervenção: o Estado paga, e é o beneficiário que escolhe. Pode fazer depilações a laser, arranja um atestado, e quem paga é o Estado. A sua contribuição é de 2,5% do seu salário. Num salário de 50 mil euros/ano, são 250 euros. Para si e para os seus. Um seguro Médis, o melhor, com menor cobertura do que a ADSE, custa, por um único beneficiário, 786 euros. Fora as taxas moderadoras. Quem paga a diferença? O contribuinte.

  15. JoaoMiranda

    ««se a ADSE acabasse os seus doentes transferir-se-iam para o SNS, onde pura e simplesmente não encontrariam muitos dos serviços. Portanto, os custos para o Estado seriam menores, dado que a quantidade total de serviços fornecidos seria menor.»»

    Se acabasse com o SNS poupava ainda mais.

  16. Miguel C

    “Como na ADSE uma parte significativa do pagamento sai sempre directamente do bolso do utente…”

    Essa parte pode não ser assim tão significativa.

  17. Pingback: Acabar com a ADSE? Para quê? « O Insurgente

  18. ricardo saramago

    Os camaradas funcionários, podem escolher, e pelos vistos escolhem o privado, para si e para os seus, e deixam o maravilhoso SNS para os plebeus, ou para quando não existe alternativa privada que lhes convenha.

  19. Ana

    Correcção: a contribuição do beneficiário é de 1,5%. Desde 2011 a entidade patronal será resposável por mais 2,5%. obviamente que esta decisão implica aumento de despesa das entidades publicas…

  20. Ana

    Em relação ao comentário: 11.”Uma consulta de clínica geral no SNS custa em média 180 Euros. Pela ADSE num médico privado custa menos de metade”. Era interessante saber a fonte desta informação.
    De referir que a procura de consultas dos beneficários dos ADSE se centra maioritariamente em consultas de especialidade; por outro lado, não se pode esquecer que o custo no SNS é compreensivo (inclui exames, analises,…) enquanto que na ADSE é pago cada acto de uma forma isolada. Por isso quando se faz uma afirmação desta natureza é importante saber a fonte
    Senão vejamos: como é possivel uma consulta de neurocirurgia; cardiotorácica, … ser paga a 110€ (inclui meios complementares de diagnostico e terapeutica) em hospitais como Sta Maria, HUC e S. João e as consultas de clinica geral, não sei aonde, custarem 180€?

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