Precoce

A esquerda ibérica não respira sem a memória do salazarismo e do franquismo. Agora, em Espanha, até já se fabulam infâncias anti-fascistas: Carmen Chacón, a ministra da Defesa do governo de Zapatero, tinha, aos nove anos, um CV invejável na luta contra a longa noite franquista. Quando os políticos socialistas nascidos após a revolução de Abril e a Transição Espanhola chegarem a cargos relevantes do Estado, o que vão inventar? O brilho nos olhos do carteiro anti-fascista?

9 pensamentos sobre “Precoce

  1. Lusitânea

    Por cá é o que mais existe.De defensores do Salazar e Caetano, com umas dicas à PIDE para demonstrar consistência e depois adoradores do Cunhal, Marocas e outras merdas que se lhe seguiram até acabaram no mentiroso Sócrates.Com tanta curvatura de espinha os africanos saltaram-lhes em cima.

  2. 1 – Eu lembro-me de algumas coisas de quando tinha quatro anos; é verdade que o que me lembro é sobretudo de brincar com miniaturas plásticas dos Aristogatos, mas se tivesse ocorrido algum acontecimento nacional marcante que os meus pais tivessem comentado em casa, provavelmente lembraria-me (aliás, eu lembro-me de falarem num grande desastre de aviação e durante dias as necrologias dos jornais estarem cheias – provavelmente seria este).

    2 – Eu não tinha qualquer militância politica aos nove anos (embora tivesse co-organizado uma manifestação na nossa escola exigindo irmos passear às Fontes de Estombar no dia da criança); no entanto, já conhecia (vagamente, mas conhecia) a história do Estado Novo e da oposição a ele – se nessa altura tivesse havido um golpe “fascista” imagino que teria noção do que se estava a passar.

  3. Euro2cent

    Daqui por mais uns anos, ainda vão descobrir que Salazar e Franco foram – por qualquer critério objectivo que se possa elaborar, e omitindo as retóricas do “se não foste tu, foi o teu pai” – os melhores governantes que Portugal e Espanha tiveram nos últimos três ou quatro séculos (antes e depois deles).

    Imagine-se os uivos e ranger de dentes da corja jacobina quando informada disso …

  4. 4 – se fosse o caso, seria uma trágica ironia para governantes que tanto gostavam de evocar a História e os valores tradicionais (queria dizer que afinal os seus regimes não seriam a recuperação das tradições pátrias, mas uma mudança qualitativa face aos 300/400 anos anteriores (ou seja, uma ruptura com a historia e a tradição)

  5. PedroS

    Miguel Madeira, o seu último raciocínio parece-me errado:
    o maior membro de uma série não é necessariamente uma ruptura com ela. Por exemplo, se uma série de monarcas tiver a seguinte “classificação”: 13,14,13,12,13,14,15, é óbvio que o último é o melhor, mas não se afasta muito da média. É bastante diferente de uma série de 10,12,12,12,13,12,10,13,19

    PS: Não me pronuncio quanto ao valor de qq um dos políticos mencionados (ou não) nos comentários

  6. Pingback: O anti-fascismo é natural (à mulher e) ao homem; nasce com a pessoa (no sentido do humanismo anti-liberal) « O Insurgente

  7. agfernandes

    Carlos

    Interessante exercício de “psicanálise política e social”. Muito certeiro e perspicaz.
    Enquanto as nossas elites culturais se deixarem enlevar com (ou promoverem, o que é bem pior, por intencional) floreados sobre estas questões, não iremos a lado nenhum. “Liberdade” em palavras é vazia. É no dia-a-dia que se exerce, em gestos consequentes.
    Ambas as culturas (fascismo e socialismo) se justificam mutuamente. E ambas são avessas à prática da liberdade. Simplesmente não convivem bem com cidadãos autónomos, provavelmente porque não existiriam numa cultura verdadeiramente livre. Numa sociedade livre a sua existência seria irrelevante.
    Ana

  8. Afinal, lá me dei ao trabalho de tentar achar a entrevista (afinal, era só por “empaquetar libros y documentos que intuí comprometedores” num motor de busca capitalista).

    http://www.pueblos-espana.org/castilla+y+leon/zamora/san+miguel+de+la+ribera/foro/

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    El día en que mamá se puso al mando

    Por CARME CHACÓN. Ministra de Defensa

    Aún no había cumplido 10 años, pero conservo nítidos algunos recuerdos. Llegué del colegio con mi hermana pequeña y encontré a mi madre pegada a la radio, temerosa. Mi padre trabajaba en Almería y emprendió rápido trayecto hacia Barcelona para reunirse con nosotras; llamó más tarde diciendo que no podía cruzar Valencia. Ahí supe de los tanques en la calle. Y que lo que tuviera que ser, sería sin mi padre. Mi madre se puso al mando y nos organizó a mi hermana y a mí para empaquetar libros y documentos que intuí comprometedores, peligrosos para los tiempos que se avecinaban. La llegada de mi avi [abuelo] aclaró las cosas: sucediera lo que sucediera, no nos moveríamos de Barcelona. No pensaba volver a refugiarse en Francia; él se haría cargo de nosotras. También nos aseguró que no ocurriría nada grave. Nos infundió una seguridad que entonces me convenció a medias y que ahora recuerdo forzada, fingida. La aparición del Rey en televisión es el último recuerdo y está asociado a una explosión de alegría.

    Hoy, 30 años después, nuestras Fuerzas Armadas son la institución más valorada por los españoles. Es en ese magnífico recorrido democrático donde yo las he conocido: primero en Bosnia, en 1996, y después en mis once años como parlamentaria. Hoy tengo el privilegio de dirigir el Ministerio de Defensa.

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    Lendo o excerto, a montanha erigida por José Garcia Dominguez desaba e transforma-se num dos dois hamsters que eu tinha aos nove anos (diga-se que eu lembro-me perfeitamente da morte trágica do Mickey e da Minnie num dia de muito calor – ou seja, é normalíssimo alguém recordar-se de acontecimentos de quando tinha nove anos).

    A mãe dela tinha documentos políticos em casa e no dia do golpe pôs as filhas a ajudar a destruir a papelada; e ela percebeu que aqueles documentos eram perigosos/para manter secretos (coisa que qualquer criança de nove anos percebe, mesmo que não perceba porque é que são perigosos).

    O que é que o José Garcia Dominguez vê de tão precoce nisso? Será que as filhas dele são tão atadas que não seriam capazes de destruir documentos se ele lhes pedisse? Ou tão tapadinhas que não percebessem que, se é preciso destruir de repente uma carrada de documentos, é porque aconteceu algo que torna esse documentos perigosos? Acho que são tudo coisas ao alcance de uma criança de nove anos.

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