Promoção das exportações

Os kalkitos são um produto de sucesso no mercado português e espanhol. Num determinando instante do tempo, Portugal consome toda a sua produção interna de kalkitos, que é de 100 000 unidades, sendo que o mesmo acontece em Espanha, que consome 400 000 unidades. Cada unidade custa no mercado 10€, sendo que estamos portanto perante um mercado que vale no total 5M€.

A produção de kalkitos em Portugal e em Espanha custa exactamente o mesmo, e nas circunstâncias presentes ambos os mercados são auto-suficientes. Os custos de transporte são de 1€ por unidade entre os dois países. Os consumidores de kalkitos são bastante sensíveis ao preço, e portanto a existência de custos de transporte significativos retira a possibilidade de a produção portuguesa penetrar no mercados espanhol (e vice-versa).

Portugal decide promover as exportações. O estado decide oferecer os custos de transportes às empresas portuguesas, e apoiar em 1€ a venda de cada kalkito. De modo a poderem beneficiar desse incentivo, que lhes permite possivelmente entrar num mercado quatro vezes superior ao seu tradicional, os empresários portugueses optam por colocar a sua produção de 100 000 unidades no mercado espanhol ao preço de €9 por unidade, sendo que a factura que cabe ao estado e ao contribuinte fica a ser de €200 000. O mercado espanhol responde efusivamente, consumindo toda a exportação portuguesa, que passa a ter uma quota no mercado espanhol de 25%.

O governo exulta e desdobra-se em inúmeras acções de campanha apresentação de resultados no terreno junto da fileira do kalkito, apresentando os números de 100% de internacionalização da produção portuguesa.

Partindo do princípio que até se consegue, por via da importação, suprimir a necessidade de consumo nacional de kalkitos ao mesmo preço unitário, qual é a conclusão óbvia? Que os contribuintes portugueses acabaram de subsidiar os consumidores espanhóis de kalkitos em €100 000. E as transportadoras até podem ser espanholas.

14 pensamentos sobre “Promoção das exportações

  1. Luís I.

    E já agora, os consumidores portugueses de kalkitos não acabariam por ter de consumir kalkitos vindos de Espanha a 11€?

  2. Pingback: Continua a bebedeira « BLASFÉMIAS

  3. filipe silva

    Também há a hipótese de a empresa que exporta conseguir entrar no mercado espanhol por ter o preço mais baixo. Uma vez que tem o preço mais baixo, vende o produto para grandes retalhistas espanhóis. Cria volume, investe na sua capacidade produtiva, e gera economias de escala que lhe permitem não só dar melhores preços aos seus clientes portugueses, como começar a produzir para outros países que não só Espanha.

    No domínio do imaginário, tudo é possível. Até dar a um produto o nome kalkitos.

  4. “Também há a hipótese de a empresa que exporta conseguir entrar no mercado espanhol por ter o preço mais baixo.”

    Caro filipe silva,

    Leia bem os termos do que enunciei.

    E, de qualquer modo, se fosse como refere (ou seja, se a empresa conseguisse colocar o produto a preço mais baixo de sua iniciativa) para que é que seriam necessários apoios à exportação?

  5. Luís Lavoura

    “Leia bem os termos do que enunciei.”

    O problema é que esses termos são demasiado restritivos.

    Em matéria de comercialização (no estrangeiro ou no país) de produtos, não conta apenas o preço (que ele mesmo não é estático, pois que varia em função de economias de escala), mas também o tamanho do mercado e a capacidade da empresa de fornecer esse tamanho, especificações tecnológicas (que constituem grandes entraves ao comércio, mesmo no seio da UE), entraves burocráticos, etc.

  6. “não conta apenas o preço (que ele mesmo não é estático, pois que varia em função de economias de escala)”

    Certo, mas essas economias de escala derivam de investimento, que só faz sentido se houver capacidade financeira e se se prever que essa economia de escala marginal é superior ao custo marginal para a obter, bem como da previsibilidade de que se vai conseguir escoar esse aumento de produção.

    No caso descrito, além disso, enquanto houver apoio do estado e os produtores de kalkitos portugueses não conquistarem a totalidade do mercado espanhol, não vai haver benefício português dessa economia de escala, uma vez que a produção vai ser sempre redireccionada para Espanha. Ou seja, irá ainda aumentar cada vez mais a factura a apresentar aos contribuintes.

    Não havendo apoios à exportação, só compensaria investir para ganhar economias de escala a partir do momento em que conseguissem ultrapassar o custo de transporte para Espanha (já que o mercado português era auto suficiente, como faz parte do enunciado). Ora isso nem sempre é possível, e do cenário que descrevi depreende-se que tal não foi possível ou que ninguém se sentiu motivado a investir e arriscar mais para que isso acontecesse.

    Não acho que seja assim tão irrealista.

    “especificações tecnológicas (que constituem grandes entraves ao comércio, mesmo no seio da UE), entraves burocráticos”

    Se eu incluir isso nos “custos de transporte” fica satisfeito? 🙂

  7. JS

    E quanto tempo (dias) vai durar a moda, a mania dos kalkitos?
    Ajudar, ESTATALMENTE, a “indústria”!, a produção nacional(?) dos Kalkitos???. Visão provinciana.

    A formação mental, socialista, deste governo leva-o sempre a pensar na “benignidade” da intervenção estatal.
    Acha que vai resolver a situção económica do País atirando com dinheiro, de impostos, aqui e acolá, pontualmente, para cima de uma, dois ou três pseudo-situações, geralmente apenas de núcleos mais influentes.
    Obviamente só consegue introduzir ruído no sistema e desiquilibrar, ainda mais, o todo.
    Grandiloquentes gestos estatais nunca resolveram, nem resolverão, um processo cuja dinâmica ultrapassa ritmos borucrata (e exibicionista) de uma administração ridiculamente “socialística”.
    São e serão uns incapazes.

  8. Luís Lavoura

    JLP,

    não fico satisfeito, porque, enquanto que os custos de transporte são pagos kalkito a kalkito (isto é, se eu transportar 1000 kalkitos preciso de 1000 vezes mais subsídio do Estado de que se transportar apenas 1 kalkito), as especificações tecnológicas requerem apenas um subsídio à cabeça. Ou seja, a ultrapassagem de dificuldades tecnológicas ou burocráticas corresponde a um investimento. O pagamento de custos de transporte corresponde a um consumo. Faz sentido que o Estado apoie um empresário a investir, não faz sentido que o Estado pague ao empresário um consumo.

  9. ricardo saramago

    Apesar do prejuizo para a economia nacional, ainda falta somar o custo da injustiça, de cada contribuinte português (goste ou não de Kalkitos)estar a subsidiar,à força, os que consomem kalkitos.

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