Desta vez, Cavaco não

Nas últimas eleições, um almoço dominical e três minutos de conversa com o meu pai convenceram-me a votar Cavaco. A contragosto, fui induzido no raciocínio que mais valia votar em Cavaco do que termos na Presidência qualquer um dos seus opositores. Aceitei o argumento como válido, é lá pus a cruzinha no homem.

Passados cinco anos, não tenho capacidade de esquecer a forma egoísta como Cavaco interferiu na vida interna do PSD, nomeadamente, nas alternativas que impôs aquando da saída de Luis Filipe Menezes, obrigando, qual Majestade, uma série de notáveis do PSD a esperarem que regressasse da Madeira para dar as suas instruções. Tão pouco esqueço a polémica em que enredou o partido um mês antes das eleições legislativas, fazendo-se de virgem ofendida no caso Fernando Lima, para mais tarde deixar descalça Manuela Ferreira Leite. É impossível não ter em linha de conta tantos e tantos umbigocentrismos praticados por este Presidente, e que o dever de silêncio me impedem de relatar.

Não posso ainda ignorar no momento de escolha do meu voto a falta de explicações plausíveis sobre a compra das acções da SLN, e muito menos a forma como rasgou as vestes, em vez de respeitar o eleitorado, apresentando elementos que nos permitissem concluir que, afinal, estão errados os que ficaram, como eu, com algumas dúvidas sobre as circunstâncias do dito negócio.

Também estou farto deste tipo de políticos canonizados pela suposta Direita, só porque vencem eleições, mas cujo software está à esquerda do PS: Impostos extraordinários em vez de reduções de salários? Diminuição de salários no sector privado, que já anda a corrigir a massa salarial desde 2008, ao contrário do sector público, que nos atirou para a crise? E isto tudo, agora, porque “dá jeito”, depois de ter obrigado o PSD de Passos Coelho a viabilizar o Orçamento para 2011, numa chantagem incrível?

A única coisa boa desta eleição é que, mais cinco anos, e vemo-nos livres de vez do Cavaquismo. No dia em que isso acontecer, talvez finalmente a Direita em Portugal possa voltar a ser Direita, e o PSD se livre de uma série de antas – classificação meramente política, entenda-se – que há muito deviam ter ido jogar dominó, ou golfe, ou o que lhes apetecer, deixando o país para as gerações futuras.

11 pensamentos sobre “Desta vez, Cavaco não

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  2. Cfe

    Muito bem dito.

    Minhas dúvidas já vem de muito antes das eleições presidênciais: o homem simplesmente quer brincar de jogadas palacianas sem ter o menor jeito e estrutura para tal e a historieta do Fernando Lima é o exemplo mais bem acabado disso.

    Cavaco parece não perceber que não é um príncipe do século XIX. Estas eleições parecem uma espécie de funeral político para muita da velha guarda que ou protagonizou o 25 de abril ou envolveram-se em escaramuças políticas com os mesmos a respeito dos ditos “valores de abril”: que venha depressa o século XXI a ver no que dá.

  3. Caríssimo,
    os salários na administração pública acima dos 1.000,00 estiveram congelados (sem aumentos e sem actualizações acompanhando a inflação) desde os tempos de Manuela Ferreira Leite.

  4. Caro Nuno Santos Silva,

    Desde que entramos para o Euro, em 2000, os salários da Administração Pública aumentaram, em média, 1,2%, enquanto a produtividade aumentou apenas 0,7%. Significa isso que nos últimos dez anos os salários da Administração Pública aumentaram 5% acima da produtividade. Só em 2008, aumentaram 2,9%, quando o crescimento foi negativo.

    Em 2008, em plena crise, muitas empresas aplicaram medidas de choque salarial. Na instituição onde eu trabalhava, onde os prémios podiam representar até 50% do salário, houve cortes de 70% nas remunerações variáveis: no meu caso, o corte representou uma perda real de 20% da minha remuneração anual. Não me queixo, é a vida, um mês depois despedi-me, mas dizer que os salários do sector privado não responderam à crise é total ignorância, ou demagogia.

    Há instituições públicas que continuam a viver como se não houvesse amanhã, esquecendo que estamos em plena crise: é o caso dos hospitais, que estão a ignorar olímpicamente as determinações do Ministério das Finanças: aliás, o tête-a-tête em 2011 entre as Finanças e a Saúde vai ser interessante de seguir, pois grande parte do sucesso da política de contenção passa pela capacidade de disciplinar o SNS. Veremos…

  5. Ricardo Campelo de Magalhães

    Cavaco tem muitos defeitos. Mas até me provarem que Alegre ou Nobre têm menos, voto Cavaco.
    Se Cavaco pode por vezes ser mau, imaginem um Presidente Alegre…

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