Não comparar o que não é comparável

Adolfo, estou inteiramente de acordo com a necessidade de explicações por parte de Cavaco Silva, candidato em que votarei mas que em nenhum momento julgo acima do escrutínio a que todos os que se propõem para cargos políticos se devem submeter. Isto mesmo tenho feito questão de dizer a quem me tem aparecido no caminho e está ligado à candidatura de Cavaco Silva, num ou noutro caso porventura tendo até corrido o risco de ser considerada impertinente (afinal, quem é esta miúda que está aqui a dar palpites?) por pessoas que me tinham sido apresentadas há cinco minutos ou me conheciam mal, tal a minha convicção que Cavaco não pode e não deve mostrar que se considera acima de se explicar ao eleitorado – tanto pelos resultados deste comportamento como, e sobretudo, pelo princípio. (Parece-me que, ao dia de hoje, está tudo explicado e só quem suspeita porque sim de qualquer negócio privado continua com dúvidas, ainda que as explicações tenham provindo mais das notícias do que da candidatura de Cavaco Silva.)

Outra questão é a de equiparar este caso das acções da SLN de Cavaco Silva aos casos que rodeiam Sócrates. Neste campo verdadeiramente minado, todos os cuidados são poucos. Parece-me que a mais perniciosa das heranças de Sócrates não será a bancarrota que inexoravelmente nos aguarda, mas sim a diluição de toda e qualquer ética na actividade política. O que se aceita num político depois de Sócrates era impensável antes de Sócrates. Não tenho dúvidas – porque, de resto, sempre o fez – que a esquerda – que aceita e branqueia tudo, com honrosas e escassas excepções, mas mesmo tudo (e mesmo quando não gosta de aceitar e branquear) o que de desonesto haja sido feito por um dos seus – se prepare para voltar aos ataques de carácter por ‘dá cá aquela palha’ quando o PSD regressar ao governo. E que, procurando defender os seus e desviar as atenções dos casos suspeitos, se indigne ruidosamente com questiúnculas infinitamente menores apenas porque provenientes da direita, na esperança que os eleitores valorizem do mesmo modo todos os casos e decidam ‘os políticos são todos iguais’ – o que beneficiará sempre gente do calibre de Sócrates. Não são todos iguais os políticos, os casos que os envolvem não são todos iguais e qualquer pessoa de direita, na minha humilde opinião, tem a obrigação, neste país intoxicado pela opinião pública de esquerda, de não ir na maré, de não aceitar fasquias diferentes para políticos de direita e políticos de esquerda, de não igualizar o que é profundamente diferente. Por isto, o caso de Cavaco Silva não deixa de fazer baixas apenas devido ao povo, mas sim devido ao próprio caso, que é débil por mais que se noticie; o caso de Cavaco não é apenas diferente dos de Sócrates pela apreciação que se faz da honestidade de cada um, mas pela essência dos mesmos: um refere-se a actos dentro da legalidade e os outros não. Não se comparam. E devemos repetir isto tantas vezes quantas forem necessárias. Nem sequer para defender Cavaco Silva, mas para repudiar a ideia da pureza intrínseca da esquerda e da malevolência inata da direita.

3 pensamentos sobre “Não comparar o que não é comparável

  1. Adolfo Mesquita Nunes

    Maria João,

    O meu post inicial tinha como objectivo responder aos indignados, na altura, com a falta de comoção do país (e da opinião publicada) com o “caso” SLN (nota que eu usei sempre as aspas).

    E essa falta de comoção deve-se, dizia eu, ao facto de os portugueses se estarem nas tintas para o assunto, por três motivos: seja porque o consideram acima de qualquer suspeita, seja porque o assunto lhes é indiferente (por lhes ser politicamente indiferente), seja porque, como aliás têm demonstrado ao longo de toda a governação Sócrates, se estão positivamente a borrifar para estas coisas de (i)legalidades.

    Por outro lado, eu nunca equiparei o “caso” SLN aos casos que rodeiam Sócrates. Eu equiparei politicamente as reacções de um e de outro (espero que tenha ficado claro que nem por um segundo me passa pela cabeça comprarar o “caso” de um com os CASOS de outro). E um e outro (infelizmente para Cavaco) reagiram da mesma forma partindo do mesmo pressuposto. Dir-me-ás, e eu acredito, que um é inocente e o outro não. O problema, e não é pequeno, é que isso não é argumento quando, na altura, e por Cavaco, quase ou nada se sabia. Esta equiparação é, infelizmente, verdadeira. E evitá-la não me parece que seja o melhor caminho, preciamente porque nos retira os trunfos.

    De facto, para mostrar as diferenças, Cavaco deveria ter feito o oposto de Sócrates.

  2. Francisco de Vasconcelos

    Atiraram contra Cavaco três falsos “casos”: (1) o BPN mostra que, não tendo nada de que o acusar, põem-se a acusar alguns dos seus correligionários; (2) nas “escutas” nem sequer se percebe qual foi a acusação, sobretudo depois de se ver, mês sim mês sim, os jornais a noticiarem os sinais de “harmonia” e “bom relacionamento” que Sócrates tem com o Presidente( Manuel Alegre que diga quem lhe encomendou este atirar de lama indigno de si, e o Diario de Noticias que diga quem lhe entregou os e-mails dos jornalistas do “Publico”); (3) e sobre as uniões de homossexuais, Cavaco, tal e qual como o bispo que o criticou, manifestou a sua oposição distanciando-se do diploma, mas não fez uma guerra por causa dele.

  3. Rodrigo Sousa Castro

    Exma Maria João Marques
    Quero felicitá-la pela declaração de interesses que pôe como cabeçalho no seu escrito. Oxalá todos os escribas da net, e não só ,tivessem a coragem e/ou incomodidade de o fazer sempre que opinam. Nestas presidenciais disse aos meus amigos que nenhum dos candidatos, para mim, vale os litros de gasóleo que teria de gastar para ir de Galamares a São João de Deus em Lisboa, onde estou recenseado, votar.
    Há cinco anos travei-me quase de razões com inúmeros amigos e camaradas, pois entendiam eles que Cavaco era um “fascistoide” disfarçado de cordeiro e outras tretas do género. Defendi a honorabilidade do senhor com denodo e até achei bem, apesar de não natural, que o meu distinto amigo General Ramalho Eanes o apoiasse. Hoje sinto-me defraudado e gozado por ter descoberto a falta de honorabilidade de Cavaco Silva. Conheço muita gente ligada à SNL/BPN, fui sistemáticamente sondado para pôr as minhas economias e as contas da minha empresa no BPN e tive provas concretas, reais ,de gente “amiga” que durante anos de passeou por Lisboa a fazer de rica e importante à sombra do grande polvo que foi e é a SNL/BPN.
    Ora minha cara senhora,é público e notório que Cavaco Silva pertenceu àquele grupo e de certa maneira lhe deu vida. Tudo o que fez é legal, mas é profundamente imoral ou pelo menos amoral. É por aqui que se aquilatam os carácteres e não por explicações malabares. Sócrates é um conivente pois vai fazer pagar aos portugueses que pior vivem os desvarios de uma clique, levando o seu arrojo ao ponto de nacionalizar um banco que sabia falido, deixando nas mãos de meia dúzia de crápulas alguns fugidos os activos válidos desse banco que por forma capciosa dele foram retirados. Será que não percebe esta evidência?
    É que se oa portugueses não perceberem evidências destas independentemente de “cores clubisticas” os nossos filhos e netos não nos perdoarão, e o país afundar-se-á inexorávelmente.
    Por ùltimo,gostaria de lhe dizer, quanto a Ramalho Eanes, que não acho natural,nem saudável,nem desejável, que um conselheiro de Estado, por direito próprio e não nomeado, como é o caso de todos os ex-PR, tomem partido seja por que candidato fôr, pois fragilizam,como bem compreenderá, a sua margem de expressão num orgão que oxalá não tenha que vir a ser muitas vezes convocado.

    Com os meus respeitosos cumprimentos e desejos de um Bom e Santo 2011 ,obrigado pela oportunidade que me suscitou para expôr estas minhas opiniões

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