Caro professor, há quem precise de ouvir a mesma explicação várias vezes para a entender

Tenho aqui feito alguns posts sobre a utilização que a campanha de Manuel Alegre – a reboque da estratégia e da linguagem do BE, como verificou quem assistiu à ignóbil intervenção de Louçã ontem à tarde na AR – tem feito das acções da SLN que Cavaco Silva comprou e vendeu porque a tenho considerado repugnante. Não porque pense que os candidatos a cargos políticos não devam ser julgados pelo carácter – devem, sim senhor – mas porque estão a usar um caso perfeitamente inocente, legítimo e legal dando-lhe uma roupagem de ilicitude e ilegalidade contando com a ignorância dos eleitores sobre as sociedades anónimas devido à valorização de 1,4€ das acções em dois anos, algo que não espanta ninguém (valorização que esteve disponível, segundo o Expresso, para os outros accionistas) e contando com a pobreza e miserabilismo do país, tentando condenar Cavaco Silva pelo facto de ter ganho 140.000€ – e, já se sabe, ganhar 140.000€ só pode ser por trafulhice.

Isto dito, parece-me que Cavaco Silva – que sempre teve a arte de saber falar directamente aos portugueses e de lhes explicar umas tantas coisas – só tinha a ganhar em convocar uma conferência de imprensa e dizer ‘Investi na SLN quando era um cidadão sem qualquer cargo público, desconhecendo as ilegalidades que se iriam descobrir cinco anos depois sobre o BPN. Confiei nas entidades, como o Banco de Portugal, que não levantavam à época dúvidas sobre o BPN. Não fui objecto de favorecimento nem pedi favores quanto ao preço das acções no momento que as comprei e as vendi. Não tive qualquer responsabilidade de gestão na SLN nem do BPN, até porque o número de acções que detive não me dava qualquer poder de decisão. Não houve qualquer contrato para a venda das acções porque neste género de transacções existem sobretudo ordens de compra e ordens de venda. Dei uma ordem de venda ao presidente do conselho de administração da SLN, que tratou de encontrar comprador e determinar o preço das acções sem que eu tivesse qualquer favorecimento face aos outros accionistas. Paguei os impostos relativos aos ganhos desta transacção. Tudo foi feito de forma legal e transparente. Faço este esclarecimento porque não admito que coloquem em causa a minha honestidade como outros candidatos às eleições presidenciais, devido à falta de assunto, têm feito.’ Esvaziava a questão, dava as explicações aos eleitores – e os eleitores merecem explicações mesmo de casos idiotas – e dava-se a oportunidade a Manuel Alegre de vir levantar questões de carácter por alguma outra actuação absolutamente legal e legítima que Cavaco Silva tenha tido.

6 pensamentos sobre “Caro professor, há quem precise de ouvir a mesma explicação várias vezes para a entender

  1. Eu não sei se a Maria João Marques reparou, mas nem toda a gente que tem vindo a comentar este caso “chafurda” na possível existência de ilegalidades. Alguns, como eu próprio, gostavam apenas que Cavaco, que tem apostado na imagem de homem directo e honesto durante a campanha, viesse na sua pessoa e não através de terceiros, explicar clara e pausadamente o que se passou. Apenas isso. É assim tão complicado explicar isto a quem dirige a campanha de Cavaco?

  2. Totalmente de acordo. O problema é que ninguém – Cavaco, os restantes políticos portugueses e, na realidade, os portugueses – aceita ter de explicar o que quer que seja. Na política, nas empresas, no trânsito, até em família, somos rápidos a pedir explicações mas recusamos obstinadamente dá-las. Nunca sentimos ter de justificar o que quer que seja. Evidentemente, isso gera o efeito contraproducente de permitir que questões menores (como esta) aumentem e sejam utilizadas contra nós. Mas nada a fazer; insistimos em não aprender.

  3. Luis

    “valorização de 1,4€ das acções em dois anos, algo que não espanta ninguém (valorização que esteve disponível, segundo o Expresso, para os outros accionistas)”

    “Não fui objecto de favorecimento nem pedi favores quanto ao preço das acções no momento que as comprei e as vendi.”

    O facto de outros accionistas terem beneficiado de valorização semelhante não exclui eventuais favores (repare que não estou a dizer que houve efectivamente tais favores..). É até consistente com a ideia de que o BPN servia para pagar favores a pessoas próximas…

  4. A. R

    A política de verdade está finalmente a provar que pode dar frutos. Cavaco vendeu a um preço menor que outras vendas na altura, seguiu os procedimentos legais todos, pagou os impostos devidos e declarou na sua lista de bens que entregou no TC (ao contrário de outros políticos que não o fizeram). Dia após dia a insinuação vai definhando e nem as destemperadas e ressabiadas acusações do “imunizado parlamentar” Louça consegue disfarçar a vergonha e o lodo em que se enterraram.

    Cavaco fez o que devia. Se viesse falar iam perguntar se compra arroz português ou estrangeiro. Se fosse português aqui-del-rei que come arroz português para fins eleitoralistas se come estrangeiro não protege a produção nacional.

    Alegre nem sequer se lembrava do que fez há cinco anos o que mostra o rigor e a inconsequência das acções do deputado a menos que sofre de doença. Há trinta anos na política não saber que incorria numa ilegalidade só mostra afinal que nada aprendeu e teria que nascer de novo. Seria grave ele chegar a presidente.

    A esquerda vive da propaganda: só assim pode passar produtos fora de prazo vai para 100 anos e de má qualidade.

  5. António Ferreira

    O problema não está em Cavaco ter ganho 147 mil euros, nem no facto de os ter ganho em acções da SLN. Está sim no facto de achar que não deve dar explicações aos portugueses, como se tudo já estivesse bem explicadinho. Gostava e tenho o direito de saber como é que ele conseguiu uma valorização de 140% nas acções (se eu fosse investidor na SLN teria recebido o mesmo dinheiro que ele por acção?) e de saber porque o documento de venda das acções está assinado por um amigo seu de longa data, ex-secretário de estado de um governo seu e director de campanha de uma das suas eleições para primeiro-ministro? Quem não deve, não teme, logo não percebo a renitência de dar explicações ao povo sobre um facto que não tem nada de mal, a não ser que tenha algo a esconder. Alegre ontem explicou a publicidade feita ao BPP, embora só tenha conseguido passar por pateta, quando diz que não controla as suas contas e que mandou devolver os 1500 euros e que não é ele que trata dos seus assuntos financeiros e profissionais, mas ao menos tentou explicar.

  6. Luís Serpa

    O grande problema é que cavaco teve de investir para ter algum lucro, o que demonstra quão irresponsável é. Rui Redro Soares – para dar um exemplo, só um – investiu muito menos e ganhou muito mais. É disso que o PS gosta – pouco risco, muitos lucros. Correr riscos é neoliberal fascista; arranjar uns tachos graças aos amigos é social.

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