Um rebanho de ovelhas negras

O que esperar da sociedade civil portuguesa no caso wikileaks (que ocorre numa conjuntura sem precedentes em que a comunicação horizontal entre cidadãos nunca atingiu tal grau de eficácia – redes sociais, blogosfera, etc), quando a maior parte dos seus agentes parece não conseguir assumir um ponto de vista meramente individual sobre a questão.

O Estado é retratado como um organismo, com vida e vontade própria, discutindo-se os mecanismos pelos quais deve tentar sobreviver. Os cidadãos supostamente activos da nossa praça desunham-se em estratégias diplomáticas, revelando uma capacidade acima da média em colocar-se na posição de uma mente colectiva. Hobbes ficaria orgulhoso.

Mesmo os nossos auto-intitulados anarquistas estão ridiculamente preocupados em guerrear opositores em questões de política internacional, alimentando fetiches pelos Estados diabolizados pelo main stream (sim, os nossos anarquistas mais parecem uma espécie de neo-cons gone mad), em vez de canalizar energias numa perspectiva individual do problema.

Um dia ainda se vai descobrir que os portugueses estão geneticamente destituídos da capacidade de individualismo moral.

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5 pensamentos sobre “Um rebanho de ovelhas negras

  1. AA

    Estou curioso para ver onde anda a ler os “nossos auto-intitulados anarquistas”. E sim, o Estado comporta-se como um organismo com vida própria, mesmo aos olhos de um liberal: um organismo que luta para se engordar a ele e a quem beneficia do corporativismo causado pela sua supremacia.
    O capital também não existe como ser individual e no entanto é possível retirar algumas leis relativas ao seu comportamento, certo? Aliás, toda a sociologia assenta no princípio de tratar um colectivo como um indivíduo com características próprias.

  2. elisabetejoaquim

    Em quê que uma perspectiva sociológica defende os interesses da perspectiva do indivíduo? É a diferença entre colocar-se na posição de observador ou na posição de agente.

    A oportunidade wikileaks será um fracasso se continuarmos a colocar-nos na posição de diplomatas/pessoas cujo interesse primeiro está nas relações internacionais, segredos de estado, etc.

  3. CN

    Se existe campo de acção do Estado que obedece a uma lógica própria, fechada em si mesmo é o das relações externas, em especial num que seja mais intervencionista do que um mais virado para a estrita defesa do seu território.

    O papel anti-war será sempre ingrato, em qualquer situação vai sempre defender o ponto de vista da outra parte e apresentar argumentos do tipo:

    – unitended consequences (O que aconteceu no Cambodja não se teria dado sem a guerra no Vietname)
    – de que o perigo não é tão perigo como o dizem (Iraque)
    – que existe propaganda para a parte que quer guerra
    – que se está a dar-se uma guerra entre duas partes, apresentar argumentos para que não se junte a terceira… e por aí adiante.

    Basicamente, será sempre uma presa fácil de qualquer inteligente que venha com o argumento dos factos da vida apresentados a uns ingénuos que não conhecem a maldade humana.

    Mas a verdade é que com o tempo consistentemente concluí pelos factos e análise, que a razão está bem do lado anti-war e foi de resto o que me levou a interessar por história.

    O intervencionismo externo é logo aquele onde se pratica a tal guerra por outros meios mas onde a guerra acaba a ter lugar, com a ausência de lei civil e penal, destruição e assassínio em massa. Verdadeira anarquia no significado pelo qual o termo é normalmente usado.

    Atrevo-me a dizer que alguns dos mais horrorizados com o termo anarquia, incluindo nas sensibilidades liberais, são muitas vezes os que mais perto ou mais frequentemente estão de explicitamente ou implicitamente advogar essa anarquia como solução para disputas territoriais ou de influência, para fazer o bem e levar a democracia e os direitos universais num canto qualquer do mundo.

    E virá também das mãos da tal máquina, dos diplomatas, políticos, da prole de analistas geo-estratégicos sempre abundantes que assim substituem o jogo do Risk. E a estrutura em causa é mesmo aquela que “como um organismo, com vida e vontade própria” tem mais segredos e mais isolada está da gestão do bem comum e em comum.

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