Parem as máquinas!

O Tiago Azevedo Fernandes resolveu o problema do crescimento nos comentários deste post:

“Eu defendo um aumento forte do salário mínimo até para provocar mais rapidamente o fecho de empresas completamente inviáveis mas que, enquanto não morrem e ao praticarem preços demasiado baixos, impedem outras (com gestão mais saudável) de conquistar mercado.”

“Não defendo o fecho de empresas por via administrativa. Digo apenas que deve ser imposto um salário mínimo mais alto. Que se modernizem e paguem melhor, ou que morram. A morte das más empresas (as que só vivem porque pagam maus salários) beneficia o mercado e também, por essa via, a situação do desemprego.”

Esqueçam a teoria económica dos últimos séculos, das última décadas. Afinal o segredo do crescimento é simples:  basta impor custos às empresas. É certo que, enquanto o milagre da multiplicação da competitividade não se dá, somos capazes de mandar para o desemprego mais uns milhares de portuguesas pouco qualificadas e de jovens, mas também não há grande problema porque é uma malta que já está habituada a não ter dinheiro. Já há muito tempo que conhecem a realidade de taxas de desemprego entre 20% e 115% acima da média nacional. É só uma questão de lhes pedir para se aguentarem mais uns tempos em nome de um futuro melhor. Afinal de contas é para isso que temos um Estado Social: para garantir que não precisamos de trabalhar para viver.

O meu problema com esta solução não é o facto desta não resolver absolutamente nada e só piorar a situação actual. Nem sequer é o facto de ter o Tiago Azevedo Fernandes a explicar ao Schumpeter como é que se faz destruição criativa pela via legislativa, ou  o Fernando Moreira de Sá e outros a fazerem declarações bombásticas para se sentirem bem consigo próprios, ou o Carlos Botelho a enveredar pelo moralismo da escola de pensamento “nunca geraste uma vida ou, pelo menos, uma vida tão santa como as que eu gerei, por isso não tens o direito de falar”.

O meu problema com esta solução é a falta de ambição. Já que estamos a criar crescimento e solidariedade por decreto porque não ir mais longe? Porque não resolver logo a coisa de uma vez por todas e passar uma lei que diga simplesmente: “a partir da entrada em vigor deste diploma todos os portugueses serão ricos, bonitos, cultos, civilizados e muito, mas mesmo muito, bonzinhos”?

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual este país não vai a lado nenhum. Se calhar estamos a precisar de uma lei que nos arranje novas elites.

65 pensamentos sobre “Parem as máquinas!

  1. Miguel

    Quer dizer que as empresas que pagam bem são “saudáveis”?
    O Taguspark é extremamente saudável. A Parque Expo também.

  2. Miguel

    Mas é um corolário lógico.
    O Tiago diz que consegue distinguir as empresas saudáveis das restantes pelo nível de salários. Ou será que uma empresa saudável não é necessariamente a que paga salários mais elevados? O critério começa a ficar nebuloso…

  3. “O Tiago diz que consegue distinguir as empresas saudáveis das restantes pelo nível de salários.”

    Não, não digo. O que digo é que uma empresa que viva apenas à custa de pagar salários de 500 euros não é saudável. É bastante diferente.

  4. Carlos Duarte

    Caro TAF,

    Desculpe, mas está enganado. O valor que um dado funcionário tem para uma empresa é função do valor que este acrescenta à mesma. Dou-lhe um exemplo (que conheço melhor), o Vale do Ave.

    Por esquesito que pareça, o mercado de trabalho no Vale do Ave é bastante fluído. Apesar de a base empregue ser grande, existe uma grande troca de informação entre as pessoas e portanto “sabe-se” quem são os bons funcionários nesta e naquela empresa. Até há pouco tempo – quando existiu uma redução de custos impostos externamente por quebra de vendas – era COMUM um bom tintureiro ganhar MAIS que o patrão. Aliás, muitas das tinturarias foram criadas por tintureiros que pouparam e criaram novas empresas. A maior parte do “patronato” actual no Vale do Ave, nas médias empresas, subiu a pulso tendo começado por ser um trabalhador indiferenciado.

    O problema das empresas inviáveis não está no custo de trabalho, mas na capacidade de trabalharem constantemente em prejuízo. Uma vez que existem empresas que conseguem anos e décadas a fio trabalharem sem pagar a fornecedores “menores” (i.e. todos menos os bancos, grandes empresas como a EDP e grandes fornecedores de matéria prima – nomeadamente os monopolistas), por via de incumprimento de contratos e troca de constante de fornecedores (que acabam por falir pois não conseguem recuperar os créditos por via judicial), estas acabam por degradar o mercado ao não incorporarem os custos no produto final.

    Resumindo, não é subindo o salário mínimo que resolve o problem, é antes expeditando a cobrança de dívidas!

  5. “O valor que um dado funcionário tem para uma empresa é função do valor que este acrescenta à mesma.”

    Certo. Se a empresa não consegue criar as condições para que um trabalhador gere um valor superior a 500 euros, das duas uma: ou a empresa é má, ou o trabalhador não tem as qualificações mínimas indispensáveis para desempenhar o seu trabalho e não deveria ter sido contratado.

  6. Miguel

    Não é saudável para quem?
    E já pensou que os salários de 500 euros podem ser o que a empresa pode pagar dada a estrutura de custos e o preço a que consegue vender aos seus clientes? Ou que dadas as caracteristicas de certas zonas os custos da mão de obra são o seu única vantagem comparativa?
    Imagino que segundo essa teoria o desemprego seja mais saudável.

  7. Miguel

    “ou o trabalhador não tem as qualificações mínimas indispensáveis para desempenhar o seu trabalho e não deveria ter sido contratado”
    Logo, quem não consegue que lhe paguem mais que 500 euros deve ser condenado ao desemprego eterno.

  8. Tomás Belchior

    De nada. 🙂

    “Registo que o meu argumento não foi rebatido: o efeito “sabotador” das empresas inviáveis que pagam mal sobre as empresas saudáveis.”

    Onde o Tiago vê um efeito sabotador, eu vejo concorrência. A Wikipedia também veio sabotar a vida da Enciclopédia Britannica e, pela sua lógica, devíamos impedir que a Wikipedia existisse apenas porque os seus colaboradores trabalham de borla.

    Se quer facilitar a tal destruição criativa, o que temos de fazer é remover barreiras à concorrência. É isso que limpa o mercado de empresas “pouco saudáveis”. A mim o que me parece é que o Tiago e os seus colegas querem fazer caridade com o dinheiro das empresas e dos empresários que não vêem o mundo como vocês vêem ou, em alternativa, acabar com eles com a ajuda do Estado.

    Isto é que não me parece saudável.

  9. Tomás (#11): “Meus colegas”? “Caridade com o dinheiro das empresas”? Acho que me confundiu com outra pessoa. 😉

    Sobre o assunto: eu não sou contra toda e qualquer regulação dos mercados. O salário mínimo é um tipo de regulação. Como qualquer outro tipo, pode ser bem ou mal usado.

  10. Tomás Belchior

    “O salário mínimo é um tipo de regulação. Como qualquer outro tipo, pode ser bem ou mal usado.”

    Precisamente. Se o objectivo for aumentar o crescimento e o emprego é mal usado. Se o objectivo for aumentar o desemprego e transferir dinheiro de empresários, outros trabalhadores e contribuintes em geral para os bolsos de pessoas que não precisam de trabalhar e ser produtivas para viver, então é bem usado.

    Nas palavras do Richard Epstein: “Deregulation costs nothing to administer, increases jobs and adds to the tax base. It is only an added benefit that sound economics reduces presidential power”.

  11. Miguel

    “Sobre o assunto: eu não sou contra toda e qualquer regulação dos mercados. O salário mínimo é um tipo de regulação. Como qualquer outro tipo, pode ser bem ou mal usado.”
    Só vejo duas formas de usar o SMN. Ou está abaixo dos salários mínimos praticados e, como tal, é uma restrição não activa (e mesmo assim é necessário ver industria a industria) ou está acima e causa desemprego. Se não pretende tirar ilações daqui é consigo.

  12. ricardo saramago

    Como em todos os outros bens ou serviços, sempre que o preço (salário) do trabalho sobe, a procura (emprego) diminui.
    A realidade do mercado no segmento do salário mínimo é normalmente a de trabalhadores com baixíssima produtividade e elevada facilidade de substituição.
    As empresas não pagam mais que o salário mínimo, não por maldade ou ganância, como alguns querem fazer crer, mas por racionalidade.
    O facto é que estes trabalhadores, se estão empregados, têm que produzir por mês de trabalho, mais do que 755 euro ((475*14*1,25)/11) e passariam a ter que produzir, para manter o emprego, mais do que 795 euro
    Para muitos deles o dilema não é aumentar ou não aumentar, mas sim manter o trabalhador ou despedi-lo.
    A menos que se viva no sector não transaccionável , à sombra do Estado, e se possa repercutir qualquer aumento nos clientes.

  13. Carlos Duarte

    Caro Ricardo Saramago,

    Exactamente.

    Eu não sou contra o salário mínimo, mas contra o aumento do mesmo sem avaliar qual a consequência do mesmo sobre o tecido empresarial. Acho que estamos todos (?) de acordo que o sector industrial em Portugal deveria avançar em valor acrescentado, mas a maneira para o fazer não é despedir “en masse” trabalhadores “indiferenciados” (que não implica não qualificados) com mais de 50 anos, ao mesmo tempo impedindo a entrada no mercado de trabalho de novos trabalhadores.

    Se o Estado quiser aumentar o salário mínimo, que diminua a carga fiscal sobre as empresas em igual montante (p.ex.) ou reduza os custos externos à produção.

  14. E curioso que sobre as mesmas minhas afirmações, uns dizem que quero causar desemprego, outros que quero fazer caridade à custa das empresas… 😉

    Já agora, eu sei bem, por experiência própria (http://taf.net/) quanto custa um trabalhador ao patrão (http://www.taf.net/opiniao/2005/01/os-custos-com-pessoal.htm). A carga fiscal em sede de IRC não me preocupa quase nada, porque essa só tem impacto quando já existem lucros. O que me preocupa são todos os outros impostos à vista ou escondidos. Mas insisto no meu argumento principal: as empresas saudáveis são sabotadas, na prática, por dumping social de empresas inviáveis que acabam mais tarde ou mais cedo por fechar mas que, entretanto, vão fazendo estragos.

  15. Carlos Duarte

    Caro TAF,

    O “dumping” de que fala não se faz a nível salarial, mas sim a nível de tesouraria. A não ser nos casos em que haja excesso de mão-de-obra para um determinado posto de trabalho (e mesmo assim…), um trabalhador, sendo o resto idêntico, sairá de uma empresa que lhe pague menos para uma que lhe pague mais. Já a nível de tesouraria, ou ninguém paga a ninguém ou as empresas que não pagam (ou pagam com muito atraso) estão a ser incentivadas a fazer isso mesmo uma vez que é quase impossível uma acção judicial para recuperar créditos.

    Mas nem precisa de subir o salário mínimo! Vc. é do Porto, dê uma volta à Vila das Aves, ou a Penafiel, e vá pelos cafés ver os anúncios a pedir costureiras… Não aparece UMA para a vaga. Porquê? Porque preferem ganhar um pouco abaixo do SM e viver do RSI. Vc. poderá contra-argumentar que quem pôs o anúncio que pague mais. O problema é que o rendimento acrescido do funcionário em termos de produção não compensa a subida do salário. Mais, como não existe “escola”, mesmo funcionários especializados (como encarregados) não existem porque não foram formados. E não é um tipo de 18 anos com o 12o (ou o 9o…) que vai para encarregado de uma linha de produção!

  16. Miguel

    “E curioso que sobre as mesmas minhas afirmações, uns dizem que quero causar desemprego, outros que quero fazer caridade à custa das empresas…”
    Os dois efeitos são complementares. Pode-me explicar porque é que acha que são mutuamente exclusivos?

    “Mas insisto no meu argumento principal: as empresas saudáveis são sabotadas, na prática, por dumping social de empresas inviáveis que acabam mais tarde ou mais cedo por fechar mas que, entretanto, vão fazendo estragos.”
    Um argumento frequentemente usado por quem quer livrar-se do concorrentes por via administrativa

  17. Carlos Duarte

    Caro TAF,

    Releia o meu post. A não ser que haja excesso de mão-de-obra a um certo nível que qualificação (o que implica que não há vagas), existe mobilidade laboral e aumento de benefícios para ambas as partes (vencimentos/contrapartidas para o trabalhador e productividade para quem contrata).

    O problema do salário mínimo não é fixar o seu montante num valor que, por exemplo, leve a um aumento de 0.1% no desemprego, uma vez que a esse nível podem existir benefícios em termos de procura interna, mas sim em que um aumento leve a aumentos de 2% ou 3% ou mais. Ou seja, salário mínimo sim, mas com moderação e tendo em conta o impacto na economia.

  18. Às vezes chego a pensar que a evidência da mais atroz ignorância sobre as leis da procura e da oferta devia implicar a prestação de serviço comunitário compulsivo.
    Mas como me tenho por liberal atrevo-me apenas a propor a leitura de um post no meu blog intitulado Salário mínimo e a Samoa americana. Ah! E envolve a assinatura, de concordância (em suspender a actualização do salário mínimo), de Barack Obama!!!

  19. Cfe

    “O que digo é que uma empresa que viva apenas à custa de pagar salários de 500 euros não é saudável”

    O paraíso na Terra ?

    O mercado aprende por tentativas e tem vários níveis de desempenho. As empresas que pagam bem aos funcionários habitualmente não exploram os nichos que tem menor valor acrescentado e servem habitualmente seus clientes que são aqueles que tem menores rendimentos.

    A notícia que agora surge da proibição da categoria de “pensões” e análogos vai, por exemplo, nesse sentido. De certeza que os novos funcionários dos hotéis ganharão mais, terão cursos profissionalizantes etc, só que serão em muito menor número do que os ocupados nas categorias extintas devido a diminuição do mercado pelo encarecimento das tarifas. Entretanto os despedidos, com menores rendimentos do que na época em que trabalhavam em empresas “não saudáveis” engrossam o fundo desemprego até o dia que essas migalhas terminem.

    Há que se ter em conta que uma parte considerável das que pagam bem, quando não a totalidade, começaram justamente em “vão de escada” e, nessa altura, não pagavam bem a ninguem.

    Essa linha de pensamento de só considerar “saudável” aquelas empresas que paguem bem é absurda própria de quem vive a sombra do estado ou alguma bananeira pois não considera os diferentes níveis de desempenho que tem os diferentes agentes económicos.

    Certeza absoluta não tenho mas apostaria em como o defensor de tal teoria tb dirá que as empresas que demitem para cortar custos tb não serão “saudáveis”.

    Só para finalizar digo que para mim empresa saudável é aquela que paga tudo em dia: impostos, funcionários e fornecedores. Sinal de que gera lucro suficiente para manter as portas abertas sem dever satisfações a ninguem.

  20. Cfe (#23): Não percebeu nada do que escrevi e, pelos vistos, não se deu ao cuidado de ver o meu CV para ver se vivo ou não à custa do Estado. Pode ver em http://taf.net/. Verá que não, nem directa nem indirectamente. Dá trabalho uma pessoa ler com atenção e informar-se, não é? 😉

  21. Cfe

    “vive a sombra do estado ou alguma bananeira”

    Meu caro Tiago,

    Esqueceu de contestar o resto de meu texto: não só fiz menção ao estado como considerei tb a hipótese de estar envolvido numa área que vivesse num mundo a parte dos comuns mortais. A julgar pela falta de compreensão dos problemas que afligem a maior percentagem das empresas calculei que não tivesse conhecimento efetivo destas por muito competente que possa ser: ao ver seu curriculum vitae confirmo minha suspeita.

    Não desmereço-lhe o mérito, até porque desconheço seu percurso profissional, mas tome atenção que atua numa profissão que está em constante expansão e não pode utilizar automáticamente os parametros de sua atuação na demais áreas, até porque eles não são coincidentes com os do resto do país.

    Tomando como verídica a afirmação que lhe é conferida, não faça como a Maria Antonieta que mandou comer brioches…

    Respeitosamente,

    Cfe

  22. Caro Cfe: tem a certeza que viu bem o meu CV? Isso de “viver num mundo à parte” e de falta de compreensão das empresas… Eu falo com experiência de me ter feito à vida sem estar empregado.
    Quanto ao resto do texto, desconhece pelos vistos a legislação sobre turismo. É agora mais simples, é tudo “alojamento local” em vez de pensões, etc., etc. E olhe que eu sou PSD e estou a defender uma legislação PS. 😉
    O resto nem sei bem como comentar.

  23. Cfe

    Vai uma aposta em como, a curto ou médio prazo, o “alojamento local” terá uma lista de exigências semelhante a dos hotéis ?

    Da mesma maneira que obrigaram a cafés e restaurantes diminutos a fazerem obras exageradas…

    PS: Pf, pare que falar “CV” porque onde moro isso significa Comando Vermelho.

  24. Cfe

    Eu não desmereci em nada seu percurso mas chamei a atenção para um aspecto que custa-lhe aceitar. Sua área de atuação tem uma expansão completamente diferente doutras carreiras. Por muito competente que seja – e frisei desconhecer isso – tem de aceitar que uma carreira escolhida numa área em expansão terá obviamente mais sucesso do que outra em que os cifrões não abundam. Se, por exemplo, estivesse na gerência dum banco, de certeza que não partilharia da opinião que sustenta.

    Basicamente, se para quem trabalha na área de TI salários de 500 euros podem parecer um acinte, para quem lida com pequenos cafés, confecções, etc isso faz parte da vida que temos, da sociedade que vivemos.

  25. Cfe

    Meu Caro Tiago,

    Não julgue que não sei do que falo porque tenho um sociedade: justamente numa cidade do Norte de Portugal.

    Quanto pensa ser um salário base dum funcionário que trabalha num supermercado ou num shopping center?
    Ou das milhares de funcionárias despedidas das confecções fechadas de alguns anos até agora ?

    Uma coisa é achar desejável que as pessoas ganhem bem, outra bem diferente é desrespeitar os tradicionais processo de criação de riqueza através de criação de leis que desrespeitam o normal desenvolvimento da economia.

  26. Cfe

    Uma muito boa noite. Já é hora de ir para caminha aí.

    E se julga que vou ficar lendo o currículum tin-tin por tin-tin dum narciso está muito enganado. Se ainda fosse uma mulher bonita…

    Mas olhe que meu raciocínio corretíssimo. Vc não lida com o país real, julga Portugal por sua bitola.

  27. Caro Cfe: eu conheço o país em que vivo. Sei q o salário nesses exemplos que deu é provavelmente o salário mínimo, isto quando não é ilegalmente disfarçado como recibo verde por valores ainda mais baixos e com horas extras gratuitas. É por isso que as empresas que querem pagar decentemente não conseguem sobreviver, porque com desemprego há sempre quem aceite trabalhar nas outras, o que lhes permite fazer preços mais baixos aos clientes e matar a concorrência (tipicamente subcapitalizada e incapaz de resistir muito tempo a dumping). Essas empresas que pagam mal vão em grande parte dar-se mal também mais tarde, por vezes pela concorrência estrangeira e por terem recursos humanos descontentes e pouco qualificados.

  28. Mais uma coisa, Cfe: o seu texto tem piada. 🙂
    Por um lado, em vez de argumentar, diz que as minhas propostas têm origem no meu desconhecimento da realidade. Por outro, confessa a preguiça de se informar devidamente sobre aquilo que está a comentar.
    É o sono, é o sono. 😉

  29. CN

    Tiago

    O que eu gostava de saber é como você se sente em proibir uma pessoa desempregada e necessitada, provavelmente do interior, que estaria mais do que contente em aceitar um emprego por 450 Euros mês.

    Ela quer e você não deixa. O seu argumento: “afecta o mercado”.

  30. CN (#37):

    1) Pergunta por 450 euros. Podia perguntar por 400. Ou 300. Ou 200. Ou trabalhar a troco apenas de comida e dormida, se não tivesse outras ofertas. Qual o seu limite? Ou não tem limite?

    2) Já agora veja também pelo lado do empregador: devo poder beneficiar do trabalho a tempo inteiro de uma pessoa por 450 euro? Ou por 400?… Eu acho que não deve ser permitido por estes valores.

    3) A sua pergunta pressupõe que o mesmo empregador que pagaria 450 não pagaria 500 sendo o salário mínimo 500. Em muitos casos o seu pressuposto está errado. Ou contrataria na mesma por 500, ou a tempo parcial por 450, por exemplo. Como se sentiria você por impedir a pessoa desempregada de receber 500 euros ao estabelecer um salário mínimo de 450 euros, se o empregador poderia pagar 500 ou mais e só não o faz porque se aproveita da situação de escassez de empregos?

    4) Mas vamos admitir que o empregador só conseguia pagar 450. E que não queria o trabalhador a tempo parcial por 450, só se fosse a tempo inteiro. Nesse caso a pessoa teria de a) encontrar emprego noutro lado; ou b) receber o subsídio de desemprego ou outro tipo de apoio social do Estado, se não encontrasse emprego e se o Estado também não lhe conseguisse arranjar colocação. Sim, eu sei que b) aumenta as despesas do Estado. Sim, eu sei que b) nos sai do bolso. Mas teremos todos de ser solidários, porque se não tomarmos estas medidas agora a situação daqui a pouco tempo vai ser ainda pior. É que nem por 450 a pessoa encontraria emprego…

  31. CN

    “Pergunta por 450 euros. Podia perguntar por 400. Ou 300. Ou 200. Ou trabalhar a troco apenas de comida e dormida, se não tivesse outras ofertas. Qual o seu limite? Ou não tem limite?”

    O limite é o do trabalhador querer voluntariamente aceitar um salário ou até nenhum por achar que recebe formação e permite-lhe criar CV para um futuro trabalho pago acima do smo.

    Quem são as outras pessoas para o decidir proibir de tomar uma decisão livre e dizer que é melhor para ele mesmo ficar sem fazer nada desempregado em casa?

    “se o empregador poderia pagar 500 ou mais e só não o faz porque se aproveita da situação de escassez de empregos?”

    Se o empregador tiver lucros não normais por causa disso, isso vai atrair muitos empregadores fazendo subir o salário, simples. O empregador “não se aproveita” da situação, isso é puritanismo de quem se achar superior, o empregador produz produtos e serviços que os clientes só querem comprar a um dado preço.

    Como disse, se o lucro for não normal, isso atrai muitos outros, fazendo subir salários.

    Os salários, só sobem por esta razão e mais nenhuma outra. Seguramente, não sobem por política social alguma.

    “Mas teremos todos de ser solidários, porque se não tomarmos estas medidas agora a situação daqui a pouco tempo vai ser ainda pior.”

    Isto é completamente falso. A única forma dos salários subirem é por acumulação de capital com actividade económica, e isso supõe partir se necessário de muito pouco valor acrescentado e a aos poucos acumulando lucros para mais investimento.

    Se o proibicionismo impede o ponto de partida, não há chegada.

    Este assunto do smo penaliza enormemente a actividade económica no interior, fazendo deslocar população para os sítios urbanos, e votando o interior à desertificação.

    Se acha bem smo para Lisboa, no interior devia ser metade.

  32. CN, por esse raciocínio você excluiria toda a qualquer regulação dos mercados. É uma possibilidade, mas não concordo com ela. É bom saber também que defende um país a duas velocidades, contribuindo activamente para isso ao permitir salários mínimos piores para as regiões mais desfavorecidas. Já agora, o salário mínimo não obriga a salários iguais em todo o lado, só obriga a salários _mínimos_ iguais em todo o lado.

  33. Carlos Duarte

    Caro TAF,

    Vamos tentar de outra forma. Porquê um salário mínimo de 500 euros e não de 5000? Os pressupostos que aplica a 500 aplica-se a 5000.

    Aguardo a sua resposta.

  34. Caro CD (#58): Não, não aplicam. Nem que seja porque seria superior aos salários mínimos dos outros países europeus. Defendo uma convergência progressiva do mínimo nacional com a média do mínimo dos outros países europeus. Uma subida demasiado brusca do salário mínimo seria contraproducente. Uma subida moderada (na minha opinião para 600 euros daqui a um ou 2 anos), não.

  35. CN

    “CN, por esse raciocínio você excluiria toda a qualquer regulação dos mercados. ”

    Não respondeu ao s meus argumentos.

    “Já agora, o salário mínimo não obriga a salários iguais em todo o lado, só obriga a salários _mínimos_ iguais em todo o lado.”

    Qual é a definição de “lado”? Se no interior se ganha metade que em Lisboa em média, não devia o smo ser metade no interior? Não vê o quanto isso prejudica a capacidade de nascerem futuras boas empresas?

    O que seria de África se o smo fosse igual ao de Portugal?

    Admite mundo de “seres humanos” com iguais direitos a N velocidades? temos de acabar com isso.

  36. CN

    “CN (#43): Também podemos estabelecer um salário mínimo para Lisboa e outro para a Amadora, um para Campanhã e outro para a Foz, um para a sua casa e outro para a minha”

    Tiago, não é piada, certamente que sim.

    Esta possibilidade expõe o mal e ridículo do conceito do smo. Prejudica sempre as pessoas ou grupo/comunidade de pessoas trabalhadores e empresários (mesmo que seja de mercearias) cuja produtividade está abaixo do smo.

    Chama-se a isso praticar o mal pensando que se pratica o bem.

  37. Miguel

    O Tiago deve possuir o dom da omnisciência para conseguir saber é esse nível óptimo. Se é que ele existe.

  38. Carlos Duarte

    Caro TAF,

    Mas como é que uma empresa benefícia com o aumento do salário que paga a um trabalhador indiferenciado (ou não-qualificado, se preferir)? Ou lei garante um aumento correspondente de valor acrescentado?

    E quem lhe diz que uma empresa boa é uma que consegue pagar bons salários (nesta discussão há imensos exemplos de empresas más, que pagam bons salários)? E já agora, nunca percebi qual era o problema de termos empresas assentes em trabalho intensivo de baixo valor acrescentado! Não é por essas empresas desaparecerem que, de repente, os trabalhadores das mesmas se vão qualificar…

    O problema que temos é um baixo capital humano (que está muito ligado à má qualidade do sistema de ensino e à falta de apoios EFECTIVOS à boa educação/aprendizagem). Sabe como funciona o sistema de aprendizagem (aprendizagem como aprendiz, não como ensino) na Alemanha? Sabe quanto GANHA em média um aprendiz? Menos que o salário mínimo cá…

  39. CN

    “Porque o embate seria tão grande que destruiria as empresas todas”

    Como se isto não fosse uma falsidade de todo o tamanho.

    Por esse raciocínio todo o Ocidente seria destruído com os salários de África.

    Crackpot economics – onde a lógica deixa de interessar.

  40. Caro CN, você já nem lê direito o que eu escrevo… Referia-me ao embate de um salário mínimo de 5000 euros (cinco mil), que tinha sido sugerido como caricatura pelo Carlos Duarte, perguntando-me por que razão eu não o sugeria em vez dos 500. É favor estar mais atento e mais calmo. 😉

  41. CN

    ok, mas o raciocínio mantém-se, é verdade na mesma para 475 de smo relativamente a micro-empresas que só podem pagar 300.

    Você diz que deixar essas empresas “livres” fazem mal ao “mercado” e acaba com as empresas “boas”.

    O fundo de questão é o mesmo.

    Se isso fosse verdade, os países sub-desenvolvidos com salários muito abaixo dos smo no Ocidente, dariam cabo das “boas” empresas no Ocidente.

    Certo?

  42. Certo. Por isso é que tem de haver alguma regulação, num equilíbrio delicado para nem impedir o desenvolvimento dos países mais desfavorecidos, nem nivelar pelos baixos standards deles as condições de trabalho no Ocidente.

  43. lucklucky

    Não se preocupe. Já muitos países “desfavorecidos” começam a ser mais ricos que Portugal. A região de Xangai já lá vai.

  44. CN

    Tiago. Você sabe o que está a dizer? Primeiro isso contraria toda a evidência empírica sobre o crescimento económico derivado pelo comércio livre entre empresas, entre zonas ricas e pobres depois a lógica é absurda.

    Você agora quer proibir as zonas pobres do mundo de exportar para as ricas?

    Não se apercebe do mal nefasto sobre os mais pobres que espalha com isso?

    A única forma das nações pobres poderem acumular capital para poderem subir salários (só a acumulação de capital permite a subida de produtividade) é poderem começar com uma actividade económica com mão de obra intensiva e salários proporcionais à sua baixa produtividade.

    O Ocidente não fica pior com a enorme subida de salários na China porque estes exportam produtos mais baixos. Todos ganham, a soma é positiva. Quanto preços baixam, sobre recursos para produzir outras coisas. Isto é o crescimento económico.

    Lá porque uns economistas fantasiam com modelos errados, não lhes dá o direito de serem proibicionistas, porque nesta questão, não é regulação, é proibir. Ainda por cima com efeitos trágicos.

  45. CN

    errata: Quando uns preços baixam, sobram recursos para produzir outras coisas, e isso permite uma maior número de trocas adicionais que antes não se davam.

    Isto é o crescimento económico. Ao mesmo tempo, a acumulação de capital vai permitindo aos mais pobres aumentar a produtividade em direcção a salário maiores. É o que se passa na China.

    E todo o mundo beneficia. Os pobres da China, os pobres do Ocidente (com acesso a produtos mais baratos), e a actividade no Ocidente passa para outros produtos com os recursos agora poupados (deixa de produzir X produtos, passam a estar disponíveis para outros).

  46. Carlos Duarte

    Caro CN,

    Só não concordo com o “todos beneficiam” na China. O regime é nefasto e, sinceramente, prefereria a solução proposta para a Alemanha no fim da 1a Guerra Mundial. Já no caso da Índia (com todos os defeitos) ou do Brasil, concordo plenamente.

  47. CN

    “Certo. Por isso é que tem de haver alguma regulação, num equilíbrio delicado para nem impedir o desenvolvimento dos países mais desfavorecidos, nem nivelar pelos baixos standards deles as condições de trabalho no Ocidente.”

    o que você diz depois é que não quer dizer que disse as consequências lógicas do que diz.

    E essas consequências é que sem smo, os salários vão nivelar-se por baixo. Ora isso é falso.

    Se assim fosse, nunca existiria crescimento de salários porque estavam constantemente a serem “empurrados” para os mais baixos.

    Os de 700 seriam empurrados para 600, os de 600 para 475 e os de 475 para 300 e estes para zero.

    Ora não é assim de forma alguma.

    Já é questionável o direito moral a meter-se nas decisões livres dos outros quanto mais baseado em lógicas falsas.

  48. CN

    Carlos Duarte, o sistema político será nefasto, o económico funciona muito bem porque nunca se viu tamanho aumento de rendimento e salários em tão pouco tempo.

    Seja como for, é outra questão. O benefício do comércio coma China é dos chineses com salários mais altos(não parecem muito preocupados com o grande benefício para a felicidade humana de por um papel numa urna de vez em quando, parecem mais contentes com acesso a gadgets) e do resto do mundo com produtos mais baratos.

  49. CN: compreenderá certamente que eu não sou obrigado o concordar com o seu raciocínio nem com as extrapolações extremas, e ilegítimas, que faz daquilo que eu escrevo. A minha opinião é clara e está escrita acima. É livre de discordar dela. Até é livre de inventar palpites sobre qual será a minha “verdadeira opinião”. Perceberá também que eu tenho coisas mais interessantes, produtivas e urgentes para fazer do que estar a discutir com quem na realidade não me quer ouvir. 😉

  50. CN

    Tiago

    – os salários não são empurrados para baixo

    – o que chama de empresas boas costumam ser umas que historicamente começaram por ser as que classifica como más (porque começam do nada com salários baixos) há muitos anos/décadas atrás

    – o seu smo uniforme a nível nacional que diz ser necessário para não ter o país a duas velocidades, é precisamente o que cria N velocidades, dado o smo ser grande barreira ao interior poder ter empresas locais (e que um dia por passar a “boas.

    – se o smo tem de ser igual entre Lisboa e interior com metade rendimento de lisboa, também o de portugal pode ser igual ao de uma país com o dobro do rendimento nacional de portugal

    Os argumentos têm de fazer sentido para se poder dizer que é uma “questão de opinião”.

    O que chamo a atenção é para a sua responsabilidade e de quem defende o smo:

    – não é apenas “uma opinião”, é um acto de probicionismo contra decisões voluntárias com o argumento que é melhor para elas próprias que não possam actuar conforme decidem pela sua cabeça, por causa da sua análise errada.

    Diga-me, também defende a proibição de consumo de substâncias (como o alcool, fast food, etc e drogas claro), que fazem mal às pessoas com o argumento que é para bem delas próprias?

  51. Cfe

    Caro Tiago

    Minha argumentação está toda no # 23: lá eu falo em lucro e capacidade de pagamento. Se tem asco do processo decisório que coloca os interesses da empresa à frente dos dos outros não posso fazer nada. É cruel a forma como se cria riqueza mas daí a querer obrigar outros a fazer caridade vai uma grande distância.

    Suas idéias podem ter tanta ou mais validade dos que as minhas, mas tem de ser viáveis na prática . Seu problema é que imagina existir um nível ótimo de remuneração salarial e ainda por cima que este fosse de acordo com as necessidades e satisfação do trabalhador.

    Seu comentário #35 é fatal em toda sua argumentação pois condena as empresas que controlam os custos e apresentam preços baixos ganhando clientes a custa das boas empresas que pagam “decentemente” aos funcionários… mas que por isso tem de cobrar mais dos clientes, que deixam de comprar os seus produtos por encontrarem similares mais baratos.

    Só isso já serve que não nada percebe de concorrência, feitura de preços e poder de compra: de que serviria auferir a altos salários nominalmente se os mesmos conseguissem comprar os bons produtos feitos nas empresas saudáveis ?

    Outra coisa: leria integralmente seu curiculum se daí adviesse alguma informação para a discussão, o que não é o caso. Vc insiste na questão completamente marginal para tentar me enquadrar pois não tem como negar que vive numa bolha pois trabalha numa área que tem uma performance completamente distinta do resto do tecido económico portugues. Vc sabe que me refiro a isso e fica a assobiar ao lado.

  52. ricardo saramago

    Já Karl Marx vaticinou no sec.XIX que a concorrência no mercado de trabalho faria descer os salários até ao nível mínimo de “reprodução da mão Obra”.
    Esta teoria foi desmentida pela realidade e pelo crescimento dos salários que se verificou nas economias ocidentais durante o século seguinte.
    No entanto ainda hoje há quem queira desenterrar o argumento para defender o salário mínimo.
    Nas economias como a nossa, o salário mínimo tem um duplo efeito, por um lado nas actividades protegidas da concorrência internacional, provoca uma subida de preços, por outro, nas actividades sujeitas a concorrência internacional gera desemprego nacional e transferência da produção para países com salários mais baixos.
    Em qualquer caso o custo é sempre suportado pelas camadas mais fracas da sociedade.
    Não é possível resolver o problema, do desemprego e dos salários, administrativamente.
    A única solução é promover o crescimento do Investimento e da produtividade.
    Mas como as “cabeças de esquerda” são contra o Capital e o lucro e desconfiam da produtividade, não conseguem deixar de matar o investimento, confiscar o lucro e prejudicar o crescimento das salários.
    Preferem decretar aumentos de salário e subsidiar desemprego e empresas inviáveis…

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