O Futuro é Hoje

O nosso estimável deputado João Galamba tem um problema na capacidade de medir as distâncias temporais. Em resposta a este post de António Nogueira Leite, escreveu um post chamado «No longo prazo estamos todos mortos». Felizmente, este problema é reconhecido pelo próprio, o que demonstra uma capacidade de autocrítica louvável. Foi em Junho de 2009 que ele o admitiu, num post chamado «No futuro estamos todos mortos». Na altura, em resposta a este meu post, ele perguntava quando seria, exactamente, o futuro.

Já tendo passado cerca de ano e meio sobre a pergunta, posso adiantar que a resposta que lhe dei na altura («dentro de um ou dois anos») não falhou por muito. O futuro é hoje; e com algum alívio meu, apesar de tudo, nenhum de nós está morto.

Para lá do quip keynesiano do João, não posso deixar de aproveitar para relembrar o que escrevi na altura. Do que conheço dele, não tenho dúvida que a resposta há de passar pela conversa da “narrativa” que se transforma em self-fulfilling prophecy; a que se segue a minha pergunta: Porque será que a “narrativa” dele não tem as mesmas “propriedades”? Não será por a minha se aproximar mais da realidade? Eis o que escrevi, então:

«O futuro é dentro de um ou dois anos. Quando confrontado com um défice galopante do orçamento de estado, o governo terá dois caminhos: reduzir despesas (improvável, perante a cultura indígena) ou aumentar impostos. Qualquer início de recuperação será sobrecarregado por uma mais limitada capacidade de consumo e investimento e voltaremos às taxas de crescimento anémicas e à divergência com o resto da União.

Como referes, «Endividar não é mais do que acreditar que o crescimento futuro não só é possível como irá permitir pagar as dívidas». De facto é assim. Mas o contexto não é irrelevante. A capacidade de endividamento não é ilimitada; depende da situação de partida. Quem já está muito endividado tem menos crédito do que quem o está menos. À medida que a dívida acumulada aumenta, quem empresta irá exigir mais retorno, para cobrir o risco, ou então garantias reais. No caso da dívida pública esta garantia advém da possibilidade do governo aumentar impostos para liquidá-la. Mas também aqui há limites: O aumento da carga fiscal acaba por reduzir o crescimento do produto, pelo que a receita acaba por diminuir; e com ela diminui também a capacidade de endividamento.

Para haver esse “crescimento futuro” não podemos continuar com défices da balança comercial de 10% do PIB, agravados com défices do orçamento de estado. Não há crescimento que permita gerar rendimento capaz de pagar os juros de uma dívida acumulada destas, quanto mais repagar a dívida em si. Há, por isso, uma fase que tem de ser necessariamente anterior a esse crescimento: Poupar; acumular capital para investir.

Ao problema do consumo excessivo, acresce outro. Com taxas de juro artificialmente baixas, a percepção da efectiva rentabilidade dos investimentos é errada. Se este problema já é mau no sector privado, então no público é catastrófico. As taxas de desconto usadas na avaliação de projectos no estado são ridiculamente irrealistas (baixas), ignorando completamente a noção de custo de oportunidade do capital. Por exemplo, o custo de uma terceira autoestrada Lisboa-Porto será provavelmente mais alto do que as duas primeiras e o seu retorno necessariamente inferior. Neste cenário, o risco de que o crescimento eventual resultante dos projectos seja insuficiente para pagar aos credores é enorme. E nem estamos a entrar aqui com o facto de que parte dos investimentos, por exemplo para o TGV ou para o novo aeroporto, vão direitinhos para importações de bens não transaccionáveis.

Às tantas afirmas que «Dívida para consumir é irresponsável e insustentável». Certíssimo. Adicionalmente, há que considerar que dívida para investir em projectos com retorno insuficiente também é irresponsável e insustentável.»

3 pensamentos sobre “O Futuro é Hoje

  1. E lá vem a história da terceira autoestrada Lisboa-Porto

    Para já, nunca seria a terceira, seria pelo menos a quarta pois já existe uma terceira, Lisboa, Badajoz, Madrid, Vigo, Porto… ou mesmo a quinta se incluirmos Lisboa, Faro, Huelva, Sevilha, Madrid, Vigo, Porto…

    Aquilo a que o PSD chamou a terceira autoestrada Lisboa-Porto não passava de alguns lanços de auto-estrada para ligar cidades actualmente não servidas por esta infraestrutura de transportes e que, eventualmente e fazendo mais uns cem quilómetros, permitiria ir de lisboa até ao Porto.

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