O Futuro é Hoje II

João,

Acho que esperava um bocadinho melhor de ti. É que lendo a tua resposta fico com a dúvida que, das duas, uma: Ou estás a omitir parte da minha posição, o que havemos de convir é pouco rigoroso, mesmo que não deliberado, ou estás a descobrir intenções no meu subconsciente que me têm iludido como se tivessem uma vontade própria, o que não é muito provável. Além disso limitas-te a salientar as diferenças que nos separam, sem explicar porque razões o teu ponto de vista será presumivelmente mais válido que o meu. (Se calhar não achas que seja, daí a omissão.)

Como sabes, ou devias saber, tanto eu como vários dos meus colegas insurgentes alinhamos por uma explicação “austríaca” da crise. Assim sendo, a deflação não é o problema em si. É a consequência do problema original: Uma expansão de crédito insustentável, acompanhada de investimentos improdutivos e consumos excessivos potenciados por taxas de juro artificialmente baixas, que por via do seu colapso leva à redução de toda a massa monetária criada pelos bancos. A deflação é apenas a consequência da implosão da massa monetária. Por definição. A única forma de evitar esta deflação seria através de uma brutal injecção de fundos (dado o efeito multiplicador dos bancos). Mas esta injecção é inverosímil pois por mais cooperação que houvesse entre credores e devedores, não creio que quem já esteja a arder muitos milhões esteja na disponibilidade de dar mais a quem geriu tão miseravelmente os primeiros. Mesmo que estivessem, não seria mais do que adiar o problema, além de provavelmente levar à hiperinflação, o que creio até tu estarás de acordo. O próprio Keynes era veemente na sua oposição à inflação. Por isso não me parece que os argumentos que usou há 70 anos, numa altura em que o endividamento não tinha a dimensão agora vulgar, possam justificar no presente uma maciça injecção monetária que resultaria inevitavelmente na diluição da moeda que tanto censurava.

Por outro lado, não gosto desta conversa de “problemas nacionais”. Quem tem problemas são os vários agentes; em particular, o maior deles todos, o estado. O nosso problema só se torna “nacional” porque o estado é tão grande, pesado e irreformável perante a mentalidade indígena. E, ao contrário do que julgas, acho lindamente que os credores também vejam os seus “cabelos cortados”. Defaults e reestruturações de dívidas são processos normais e desejáveis, pois responsabilizam tanto os devedores perdulários como os credores irresponsáveis. Muitos dos problemas actuais advém justamente dos bailouts mal-pensados que, diga-se de passagem, o partido que representas aplaudiu e cujo líder se regojizou publicamente. O problema em Portugal é muito mais do que uma questão de equilíbrio entre credores e devedores. É também o desequilíbrio entre estado e economia produtiva. O primeiro encroaching na segunda. Se Portugal não cresceu nos últimos dez anos isso deve-se ao peso (tipicamente inútil ou ineficiente) do estado e à sua ingerência constante nos processos normais de concorrência e decisões de investimento. Há uma necessidade de austeridade, mas não a que foi aprovada. Precisávamos era de austeridade no estado, por via de redução da despesa; não de austeridade imposta aos cidadãos e empresas através de maiores impostos.

Por fim, acho curioso que refiras a possível conversão do problema de dívida num problema de equity. É que isso tem implicações que são complicadas: Cedência de activos ou perda de soberania. Quanto à primeira nada a opôr. As coisas são assim mesmo e o estado português tem muita coisa para vender para pagar a credores. Já isto da perda de soberania tem que se lhe diga. Irrita-me um bocado pensar que a irresponsabilidade de sucessivos governos leve a que o país se torne uma espécie de protectorado da União.

5 pensamentos sobre “O Futuro é Hoje II

  1. CN

    uma alternativa era

    1. transformar todos os depósitos à ordem em 100% de reservas (ou seja, o banco central injectava as reservas necessárias e passava-se a regime de 100% de reservas), isso faria com que o efeito de corrida aos bancos por causa das perdas fosse menor, dado que as pessoas sabiam não poder perder os DO.

    diga-se, que na implicitamente já é assim, os bancos centrais perante problemas, acabam a injectar moeda, mas isso ainda assim, cria incerteza institucional.

  2. “E, ao contrário do que julgas, acho lindamente que os credores também vejam os seus “cabelos cortados”.”

    Curiosamente, escrevi um textinho em inglês sobre a situação portuguesa que aborda a importância dos haircuts e que deve estar a aparecer por aí em breve… 🙂

  3. joao

    clap, clap, clap.

    Pena que o putativo deputado (estes deputados tambem ajudam a perceber o estado do nosso pais..) não perceba muito do que foi escrito…

  4. A deflação é, certamente, consequência da contração da massa monetária, mas dizer que ela “não é o problema em si” é errado. A deflação é má para quase toda a gente – só é boa para quem tem muito dinheiro poupado no banco. A deflação aumenta o valor das dívidas e diminui o valor dos rendimentos. É como tal um grave problema para a enorme maior parte dos agentes económicos.

  5. lucklucky

    Curioso. TV’s, carros, electrodomésticos, informática e uma infinidade enorme de coisas como carros, máquinas – excepto aquelas ligadas ao Estados como Educação, Saúde, Justiça, Administração – estão em deflação há muito tempo.

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