Falta-lhe vergonha

O presidente da Reserva Federal dos EUA esteve esta semana no famoso 60 minutes. Houve uma altura em que este programa era reconhecido pela sua qualidade jornalística, mas essa altura não é agora.

Algumas perguntas e respostas:

Q: Many people believe that could be highly inflationary. That it’s a dangerous thing to try

A: Well, this fear of inflation, I think is way overstated. we’ve looked at it very, very carefully. We’ve analyzed it every which way. One myth that’s out there is that what we’re doing is printing money.We’re not printing money. The amount of currency in circulation is not changing. The money supply is not changing in any significant way. What we’re doing is lowering interest rates by buying treasury securities. And by lowering interest rates, we hope to stimulate the economy to grow faster. So, the trick is to find the appropriate moment when to begin to unwind this policy. And that’s what we’re going to do.

Pergunta inocente que deveria ter sido feita pelo jornalista: E estão a comprar dívida pública com o quê? Ar quente? Ou será que estão a criar dinheiro para o fazer?

O que o presidente da FED aqui faz é esconder-se atrás de meias verdades (sim, as massas monetárias não estão com o crescimento exponencial de 2008 apesar da FED e não por causa da FED. A destruição de crédito continua a contrabalançar a impressora o que não quer dizer que não haja estragos, significa apenas que o mecanismo de preços está FUBAR.

Q: Can you act quickly enough to prevent inflation from getting out of control?

A: We could raise interest rates in 15 minutes if we have to. So, there really is no problem with raising rates, tightening monetary policy, slowing the economy, reducing inflation, at the appropriate time. Now, that time is not now.

Q: You have what degree of confidence in your ability to control this?

A: One hundred percent.

A “tragédia” de 2008 não lhe ensinou nada. Continua a achar que a economia se comporta conforme os butões que ele decide pressionar. Eu por mim não tenho dúvidas que ele consegue subir as taxas para 10 ou 15 por cento se lhe apetecer… a minha questão é simplesmente se nessa altura vai ser suficiente para conter os estragos feitos.

Convém no entanto não entrarmos em alarme porque a confiança em si próprio é elevada, pelo menos para quem achava em 2007 que não havia ameaça nenhuma à economia e para quem, em 2008, achava que o problema imobiliário estava “contido” mas enfim.

Q: Do you anticipate a scenario in which you would commit to more than 600 billion?

A: Oh, it’s certainly possible. And again, it depends on the efficacy of the program. It depends, on inflation. And finally it depends on how the economy looks.

Q: How would you rate the likelihood of dipping into recession again?

A: It doesn’t seem likely that we’ll have a double dip recession. And that’s because, among other things, some of the most cyclical parts of the economy, like housing, for example, are already very weak. And they can’t get much weaker. And so another decline is relatively unlikely. Now, that being said, I think a very high unemployment rate for a protracted period of time, which makes consumers, households less confident, more worried about the future, I think that’s the primary source of risk that we might have another slowdown in the economy.

Este conjunto de perguntas é bastante interessante. É um argumento interessante este de que pode imprimir mais notas porque o problema é a deflação mas quando lhe perguntam se poderá haver um “double dip” ele diz que não porque… “já desceu muito”.

É ridículo, primeiro porque se comporta meramente como um maléfico especulador (não faz mais do que emitir opinião pessoal sobre o preço actual das casas, parece que estou a ouvir um novato na bolsa a comprar PT Multimédia a 15€ porque “já desceu muito”). Mas mais importante contradiz-se a si mesmo… se as coisas “já desceram demasiado” então para quê imprimir mais notas? Não basta a FED estar quieta?

Ben Bernanke ou é idiota ou é mentiroso. Especulo eu que é aldrabão.

Q: The gap between rich and poor in this country has never been greater. In fact, we have the biggest income disparity gap of any industrialized country in the world. And I wonder where you think that’s taking America.

A: Well, it’s a very bad development. It’s creating two societies. And it’s based very much, I think, on– on educational differences The unemployment rate we’ve been talking about. If you’re a college graduate, unemployment is five percent. If you’re a high school graduate, it’s ten percent or more. It’s a very big difference. It leads to an unequal society and a society– which doesn’t have the cohesion that– that we’d like to see.

Perguntaram-lhe sobre a desigualdade salarial e ele falou sobre taxas de desemprego (aldrabadas). A pergunta que o jornalista devia ter feito era muito simples: A sua política monetária está a beneficiar certas pessoas (aka instituições financeiras) à custa de outras (aka quem trabalha) ?

Mas isto a escola de jornalismo não dá para mais…

4 pensamentos sobre “Falta-lhe vergonha

  1. Vejo que o autor do post tem uma grande confiança na capacidade da Fed para aumentar a inflação, mas nenhuma confiança na sua capacidade para a diminuir. Porquê?

    Eu compreendo que o autor do post não tenha confiança na capacidade da Fed diminuir a inflação, dado que, como ele próprio concede, esta pode ter origem noutras fontes, nomeadamente na criação de crédito pelos bancos privados. Mas não compreendo porque tem tanta confiança na capacidade da Fed criar inflação, num momento em que esta de facto não existe, pelos próprios motivos que o autor do post concede – porque o crédito privado está neste momento a ser destruído.

  2. A confiança na capacidade da FED criar inflação está à vista. Como o próprio Ben Bernanke admite na entrevista “se a FED não tivesse feito nada as coisas estariam piores” o que no contexto significa “se não tivessemos feito nada os preços estariam mais baixos”.

    Isto é inflação.

  3. ricardo saramago

    Como o Sr. Bernanke reconhece, a compra de títulos não tem qualquer efeito num mercado já saturado de liquidez, pelo que esses fundos vão provavelmente juntar-se aos gigantescos excessos de liquidez depositados no FED pelo sistema bancário.
    Trata-se sobretudo de uma manobra política de intimidação dos países asíaticos que têm as suas moedas (e reservas) indexadas ao dólar e temem a sua desvalorização.
    O preço desta política será pago pelos aforradores e pelas economias de todo o mundo via aumentos de energia e matérias primas.

  4. Pingback: FUBAR « O Insurgente

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