Rentabilidade para totós

Consta que um qualquer visionário do PS pretende que os supermercados sejam obrigados legalmente a dar um desconto de 5 cêntimos por cada 5 euros de compras a clientes que prescindam dos sacos de plástico disponíveis nas caixas para levar as compras. Trata-se, grosso modo, de um desconto directo que tenderá para 1%, sendo em média inferior por efeitos de arredondamento.

Qualquer pessoa que conheça minimamente o sector do retalho alimentar sabe que se trata de um negócio de volume, onde a rentabilidade advém de uma elevada rotação de stocks transaccionados a margens médias reduzidas e a um ciclo de caixa invertido que permite financiar os stocks com base no crédito de fornecedores. Dada a sua estrutura, o sector do retalho alimentar tem índices de “return on sales” (ROS – o rácio do resultado líquido sobre o volume de vendas) tipicamente baixos. Em mercados muito grandes, como o americano, o ROS médio dos maiores retalhistas é de cerca de 1,8%, variando entre perto de 3% para retalhistas de grande sucesso como o Walmart, e perto de 1% para outros mais agressivos em termos de preço. Outros mercados maduros, como o francês, têm rentabilidades médias semelhantes, com Carrefour, Casino, Auchan, etc, a apresentarem ROS que rondam em média os 2%. Em Portugal, a Sonae MC teve um volume de negócios de 3106 milhões de euros (55% do total do grupo). Tendo os seus lucros contribuido cerca de 35% para o total do grupo, o que indica um ROS de cerca de 2,1%. O ROS da Jerónimo Martins, do Jumbo e outros não deverá ser muito diferente.

Neste contexto, o desconto proposto pelo luminário socialista, que passaria praticamente directo ao “bottom line” dos retalhistas, equivaleria a uma redução de quase metade nos lucros líquidos. Que implicações teria tal redução na capacidade de investimento dos retalhistas? Que impacto teria esta redução no emprego? Na capacidade de escoar produtos? Ou, por outro lado, que impacto teria esta decisão administrativa nos preços praticados, por forma a assegurar a rentabilidade necessária à viabilidade do negócio de retalho alimentar? Será que estas perguntas sequer se apresentaram ao espírito do brilhante legislador?

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11 pensamentos sobre “Rentabilidade para totós

  1. Maria João Marques

    Miguel, e há outro aspecto a considerar: um saco de plástico custará a um super ou hipermercado, num máximo já puxadote, 1 cêntimo.

  2. Tmjhf

    Apesar dessas contas serem espectaculares, não percebi como
    e que chegou à conclusão que haveria reduções de 50% nos lucros!!!
    Já agora, se quisermos investigar essas margens de lucro, facilmente concluiriamos que se fossem dessa ordem não seriam suficientes para pagar os ordenados!

    Faltou ainda dizer que o projecto-lei ressalva que os supermercados que cobram pelos sacos plásticos não seriam abrangidos por esta medida…

  3. ricardo saramago

    Essa gente desconhece qualquer forma de raciocínio inteligente.
    São mentecaptos que se dedicaram à gritaria e fazem gala na exibição da sua estupidez.

  4. Carlos Afonso

    1% é o desconto dado pelo continente para clientes com cartão da cadeia quando ultrapassam 500€ num mês.

  5. Há um bocadinho de lógica nessa proposta, se assumirmos que os sacos de plástico têm externalidades negativas (nota – eu acho que não têm: as pessoas acumulam-nos em casa e usam-nos para deitar o lixo fora, tal como sem eles usariam os sacos que os municípios fornecem, pelo que os sacos do supermercado não representam lixo adicional).

    Para uma coisa que tenha externalidades negativas, o lógico é lançar um imposto sobre isso; mas como lançar impostos é impopular, criar um desconto obrigatório (que os supermercados de certeza que vão compensar com um aumento de preços, pondo os consumidores que pedem saco a pagar o desconto dos que não pedem saco) tem os mesmos efeitos práticos, com a diferença que já não é o governo mauzão que cobra impostos, mas o governo bonzinho que dá descontos (ainda que o seu trabalho em prol do consumidor seja torpedado pelas empresas más que sobem os preços).

    Ou seja (se efectivamente houvessem essas tais externalidades negativas dos sacos de plástico) seria uma medida que consegui contribuir para a eficiência económica sem custos políticos; um golpe de génio, portanto.

  6. Tmjhf-Já agora, se quisermos investigar essas margens de lucro, facilmente concluiriamos que se fossem dessa ordem não seriam suficientes para pagar os ordenados!

    A margem de lucro é o que sobra depois de se pagar os ordenados (e o resto).

  7. Ti

    Peço desculpa pela pergunta, mas é mesmo verdade que as margens de lucro são assim tão baixas?
    Fiquei muito surpreendido!

  8. Ti, é verdade mas não se chama margem, chama-se rentabilidade como está no título. A base do negócio, como o Miguel explica é a rotação e o volume. Na minha área (com menor rotação e volume) a rentabilidade não ultrapassa os 8%. A rentabilidade da petrolíferas e das farmacêuticas, por exemplo, é cerca de 2%.

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