E em menos de cinco minutinhos

Keynes refuted in eleven words.

12 pensamentos sobre “E em menos de cinco minutinhos

  1. A falha no vídeo está entre as 2:10 e as 2:13 – o raciocínio dela é que o rendimento total é uma dado, é que o dinheiro utilizado para o consumo (público ou privado) implicráa menos dinheiro disponível para investimento, e portanto o consumo não pode aumentar a produção total. Mas esse raciocínio é uma pescadinha de rabo na boca, porque só faz sentido se assumirmos logo à partida a conclusão (isto é, esse raciocínio que “prova” que o aumento do consumo não aumenta a produção só faz sentido se assumirmos logo à partida que o aumento do consumo não aumenta a produção).

    Para perceber melhor o que quero dizer, vamos dar o exemplo ao contrário – vamos assumir que Keynes estava certo e que, numa recessão, o aumento do consumo realmente aumentaria a produção; se fosse assim, o aumento do consumo levaria a um aumento do rendimento nacional (já que, no conjunto da economia a produção é igual ao rendimento) – mas, se o aumento do consumo levasse a um aumento do rendimento, então o aumento do consumo já não corresponderia a uma redução correspondente no investimento (como o rendimento agora é maior, a redução no investimento já seria menor que o aumento do consumo), e assim o aumento do consumo já levaria a um aumento da produção.

    Ou seja, o argumento da miúda para demonstrar que o aumento do consumo não aumenta a produção só faz sentido se partirmos logo do principio que o rendimento total vai se manter igual e que o aumento do consumo não o vai aumentar – mas é exactamente isso que está a ser discutido!!!

    Atén pode ser que o keynesianismo esteja errado, mas não é com esse argumento que se vai provar que o está.

  2. Vamos imaginar um exemplo simples – imagine-se uma economia com pescadores, agricultores e construtores navais. Imagine-se que os pescadores não vão sempre à pesca porque têm pouca clientela.

    Agora imagine-se que alguém decide gastar umas moedas de ouro que tinha guardado no sotão para fazer uma grande festa e paga a um pescador (que em principio não estava a pensar ir ao mar) para lhe ir apanhar uns polvos e uns sargos.

    Agora explique-me lá que redução do investimento houve aqui – o dinheiro gasto para pagar os polvos e os sargos não é dinheiro que de outra maneira teria sido gasto para construir mais um barco (é dinheiro que de outra maneira teria ficado guardado à espera de uma melhor oportunidade para ser gasto). A mim parece-me que o aumento da procura originou um aumento da produção (foram pescados polvos e sargos que não teriam sido pescados de outra maneira).

  3. Joaquim Amado Lopes

    Miguel,

    Se alguma coisa se pode dizer do senso comum é que é tudo menos comum. Cada um tem o seu senso próprio e acha que o “seu” senso (ou percepção da realidade) é partilhado pela maioria dos outros, mesmo que não o digam.

    O que a “miúda” (provavelmente com mais competências e mais do que provavelmente com mais senso comum do que a grande maioria dos que acompanham os blogs) disse é que o aumento do consumo e/ou do investimento é sustentado pela combinação de três coisas: (1) uso das poupanças existentes, (2) realocação do dinheiro (do investimento para o consumo, do Estado para o investimento, …) ou (3) aumento da dívida.

    (1) Para recorrer às poupanças existentes (as tais moedas de ouro guardadas no sótão), é necessário poupar antes.

    (2) Realocar dinheiro do investimento para o consumo é comprometer a produção futura. Isso quer dizer que vamos consumir mais para produzir menos, o que significa que estaremos a promover o crescimento económico dos outros.
    Além de que o que consumimos é pago com o que ganhamos com a venda do que produzimos. Consumir mais significa gastar mais e produzir menos significa ganhar menos.

    (3) Sustentar o aumento do consumo com o aumento da dívida significa simplesmente que estaremos a pagar o consumo actual com rendimentos futuros. Se o que ganhamos agora já não é suficiente para sustentar o aumento do consumo, quando tivermos que pagar a dívida passaremos a ter que viver com muito menos consumo do que o actual (mas obrigados a produzir o mesmo ou mais).

    Ainda bem que o Miguel tem moedas de ouro no sótão. Portugal também tem. O problema é que não chegam para pagar as dívidas que já temos e endividamo-nos mais a cada dia que passa.

  4. «O que a “miúda” (provavelmente com mais competências e mais do que provavelmente com mais senso comum do que a grande maioria dos que acompanham os blogs) disse é que o aumento do consumo e/ou do investimento é sustentado pela combinação de três coisas: (1) uso das poupanças existentes, (2) realocação do dinheiro (do investimento para o consumo, do Estado para o investimento, …) ou (3) aumento da dívida.»

    E eu mantenho o que disse – esse raciocínio só faz sentido se assumirmos que o rendimento total se mantêm constante (se assumirmos que o aumento do consumo aumenta o rendimento total, então esse aumento do consumo não vai ser contrabalançado – pelo menos totalmente – por uma redução do investimento ou da poupança); mas assumir isso é uma raciocínio completamente circular: ela está a partir do pressuposto que o aumento do consumo não faz subir o rendimento/produção total para concluir que… o aumento do consumo não faz subir o rendimento/produção total.

  5. Joaquim Amado Lopes

    Miguel,

    O aumento do consumo tem duas consequências:
    1. a diminuição do dinheiro disponível de quem consome;
    2. o aumento do rendimento de quem produz.

    Se consumirmos mais do que produzimos (sem contribuição externa – matérias primas, energia, …), o efeito é nulo no rendimento total. Se consumirmos mais do que importamos (como produto acabado ou como matérias primas, energia, …) então o rendimento é menor.

    Assim, pergunto-lhe: o que é que nós, portugueses, ganhamos com o aumento do nosso consumo?

  6. ricardo saramago

    O erro de raciocínio, típico do modelo macroeconómico keynesiano, é ignorar os efeitos sobre a situação patrimonial da economia, quer da contracção de dívida (e aqui incluo a criação de moeda) quer da utilização de poupanças para consumo.
    Seria o erro semelhante a analisar a gestão duma empresa desprezando o Balanço, dando apenas atenção à Demonstração de Resultados.

  7. CN

    Tirar dinheiro do sótão (aumentar a quantidade de dinheiro em circulação) faz aumentar os preços, colocar dinheiro no sótão (diminuir a quantidade de dinheiro em circulação) faz diminuir os preços.

    A relação entre consumo e investimento guiada pela taxa de juro livremente fixada não tem de se alterar por causa disso. As pessoas podem passar a usar mais moeda, mas a proporção entre consumo e investimento manter-se (agora, a preços mais elevados).

    Os Keynesianos nunca o entenderam. Daí a ferocidade contra o ouro. Os monetaristas acham que este tipo de decisão livre (agora em termos relativos ao crescimento da economia) deve ser gerido/controlado pelo Banco Central (e por isso o seu sonho é que não exista nenhuma moeda e nota fora do sistema bancário).

  8. ricardo saramago

    Com a explosão da criação de novos produtos financeiros, a disponibilização dos mesmos a quase todos os agentes económicos e a facilidade quase perfeita de movimentos de capitais, que se verificou nos últimos 20 anos, as regras de análise deveriam ter mudado.
    Quando se fala de moeda, dinheiro, massa monetária ou taxa de juro é difícil perceber ou definir do que se está a falar.
    Do mesmo modo os modelos, os regulamentos e as leis, já não reflectem as realidades práticas.
    Este desfazamento teórico e regulamentar da realidade contribuiu também para alimentar a actual crise.
    As crises também têm esta virtude – obrigam a repensar os dogmas da teoria económica.

  9. lucklucky

    O dinheiro que foi gasto para os polvos não sabemos como seria gasto. Como é que pode dizer que não seria usado para fabricar um navio?
    Mas vamos supor que foi de facto para os polvos. A miúda sem as moedas de ouro no sotão sente-se insegura sem a reserva e passa a poupar para restabelecer essa reserva.
    O aumento do consumo diminuí a energia potencial no sistema se o consumo não servir para produzir mais riqueza. Heheheh pouco de Física misturada com Economia.
    Os estímulos a uma economia saciada – uma bolha rebentada é uma economia saciada – é simplesmente dinheiro deitado à rua pois é uma perda de oportunidades futura. Para gastar a energia convêm ser nas oportunidades, ou seja não forçada.

  10. CN_

    “Quando se fala de moeda, dinheiro, massa monetária ou taxa de juro é difícil perceber ou definir do que se está a falar”

    Concordo, tirando os austríacos ninguém sabe do que esta a falar. 🙂

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