The dark side of the (Ground)force

Na história dos despedimentos na Groundforce em Faro tudo tresanda, cheira pior que um traque horas depois de se ingerir uns grelos salteados. Concluiu-se rapidamente que os trabalhadores eram uns calões cheios de regalias, trabalhavam três horas e meia por dia, eram demasiados, etc. Foi num suspiro que desapareceram das notícias. Por um lado há alguma verdade nisto, falta saber que raio de incentivos (e quem os cria) é que existem neste tipo de empresas para que as coisas sejam diferentes.

Ora bem. A estrutura accionista das duas empresas de handling – a Portway e a Groundforce –  é de ir às lágrimas. No meio de um labirinto de compra daqui, vende dali, percentagem por aqui, percentagem por ali, ajeita assim, costura assado, no fim da história, são as duas detidas por esse magnífico empresário: o estado. Para início de conversa porque é que o estado, por vias travessas, quelhos e becos, detém duas empresas concorrentes? Faltam jobs for the boys?

Enquistados de marxismo requentado e estupidez, não vendo para lá da luta de classes que, vinte anos depois, suscita na melhor das hipóteses um bocejo na pior, uma raiva surda contra eles próprios, os sindicatos fartam-se de gritar pelos direitos adquiridos, contra o patronato e as administrações. Não lhes ocorre, porque ainda vivem em 1846, que o que exigem tem a consequência lógica do que acontece neste caso. Nem quero procurar saber quantos administradores existem na Groundforce por trabalhador que é para não me irritar ainda mais. Os sindicatos podiam perfeitamente estar a ganhar isto se percebessem um mínimo de concorrência e de mercado, mas não. Aquelas cabeças não vão mais longe que a interpretação do Álvaro Cunhal da Revolução de 1383-1385

Para ajudar à festa, o esquema está montado de maneira que a Autoridade da Concorrência vela para que…não haja concorrência. Os 336 trabalhadores despedidos dispõem-se a criar uma nova empresa de handling para concorrer com a Portway e a Groundforce – não esquecer que o proprietário tanto de uma como de outra é o bendito estado – em Faro mas…não podem.

Depois a culpa é do neoliberalismo, dos patrões, da Merkel, dos especuladores, dos bancos e assim. Aguentem-se.

16 pensamentos sobre “The dark side of the (Ground)force

  1. Sabiam que: Depois de gastarem milhões a formar esta malta toda, (sim não é só malta que carrega malas) que vão para a rua, já estão a formar mais ainda para entrar na Portway prometendo uma vida, uma carreira, para depois as destruir novamente? Sim porque o trabalho está lá, só durante o verão foram 5.800 aviões a chegar e a partir pela GF.

  2. E sabiam que: Nos últimos dois anos em Faro, as companhias foram passando todas para a Portway (estado) e que inclusivamente a direcção da GroundForce (estado) foi à Alemanha acabar um contrato que estava a meio com a air Berlim e que depois desta destruição e dos prejuízos a Administração (GF) recebeu prémios de boa gestão? O que faz todo o sentido já que o objectivo era fechar a escala de Faro.

  3. Gato Preto,

    provavelmente querem formar pessoas para depois as poderem contratar em regime de trabalho temporário, só no período de Verão.

    Os 336 trabalhadores despedidos provavelmente tinham trabalho mais que suficiente no Verão. No Inverno não. São despedidos para depois se contratar outros, mais jovens, só no Verão, provavelmente com salários e regalias bem mais baixos.

  4. Dervich

    Afinal, é suposto a culpa ser de quem?

    Dos trabalhadores? Das estruturas accionistas das empresas? Do Estado? Da Autoridade da Concorrência? Dos sindicatos?

    Ou é destes todos? Cá a mim parece-me que não, dado que os primeiros e os últimos fizeram e fazem o que deles se espera, ao contrário dos outros, que fizeram e fazem precisamente o inverso do que era suposto.

  5. André

    Helder, alguns pontos que convém esclarecer: O Estado não quer estas empresas, está a tentar vendê-las há muito tempo. Para além do mais, a Autoridade da Concorrência proíbe a TAP de dar instruções à Groundforce, precisamente para assegurar concorrência. Não sei, claro, se esta medida é eficaz, mas é um caso raro de intervenção do regulador para tentar corrigir algo.
    Acontece que estas empresas de handling têm convenções colectivas que são absurdas. Por exemplo, os trabalhadores têm direito a uma pausa de 30 minutos para pequeno almoço entre as 8h e as 9h da manhã, que é o horário de maior movimento em Lisboa. Repara que os trabalhadores deste turno entram às 7h30… Isto, aliado a um conjunto de ineficientes na área laboral, torna estas empresas completamente ineficientes. Foram feitas várias propostas aos trabalhadores para ajustar as convenções colectivas, propostas essas que foram sempre recusadas.
    Agora, naturalmente e depois de perdas de 12 milhões num ano, são despedidos. É a consequência lógica de uma política dos sindicatos, que acham que porque o Estado lá está o dinheiro é infinito.
    Desejo-lhes a melhor sorte na sua futura vida profissional.

  6. Aquilo que o André diz corrobora a minha suposição no comentário 3. Aquilo que se está a fazer é despedir os trabalhadores das empresas para depois os substituir por outros (que já estão a receber formação, diz Gato Preto) com menores salários e menores regalias e, provavelmente, em regime de trabalho temporário (só no Verão).

    Uma conhecida minha frequentou um desses cursos de formação, em Lisboa. O objetivo, disseram-lhe na cara, não era oferecer-lhe um emprego fixo, eram terem-na disponível para trabalhar durante episódios de maior tráfego no aeroporto.

  7. lucklucky

    “O objetivo, disseram-lhe na cara, não era oferecer-lhe um emprego fixo, eram terem-na disponível para trabalhar durante episódios de maior tráfego no aeroporto.”
    .
    O que é que isso tem de mal?

  8. Brutus

    “O que é que isso tem de mal?”
    Sim, porque para os Lavouras deste mundo, bem pior que não ter trabalho é ter que trabalhar em part-time.
    Horror dos horrores, estes gananciosos capitalistas. Já agora, uma pergunta ao Lavoura, acredita que essa sua amiga teria sequer oportunidade de receber formação, quanto mais perspectivas de um trabalho futuro, se o trabalho em part-time (vulgo “precário”)fosse ilegizado??

  9. André

    O ponto é precisamente esse. Existe uma tal rigidez nos recursos humanos nestas empresas que as torna ineficientes. Por exemplo, não existirem horários flexíveis: não existe mecanismo para os trabalhadores fazerem mais horas nas alturas de maior tráfego, compensando isso com férias noutras alturas do ano etc…
    A culpa, aqui, não é da gestão do Estado. É da rigidez dos trabalhadores. Os privados não compram estas empresas precisamente porque com a situação actual dificilmente conseguem melhores resultados do que os actuais.

  10. Dervich

    “Acontece que estas empresas de handling têm convenções colectivas que são absurdas”

    E a culpa é de quem? De quem assinou um contrato de trabalho com essa empresa, nessas condições específicas?

    Se o trabalhador não cumprir o que assinou no contrato de trabalho pode ser despedido por justa causa, se a empresa não pode fazer o mesmo, que tente impôr condições negociadas, se tal não fôr possível, que encerre funções, que pague as dívidas e as indeminizações que tiver a pagar e feche portas, para dar lugar a outra mais competitiva (leia-se, mais eficiente).

    Agora que mande gente embora para admitir um mês depois outra força de trabalho mais precária e mais mal paga que lhe permita, não só sobreviver, mas aumentar 10% ou 20% dos lucros, isso é que me parece não só ilegítimo mas quase criminoso…

  11. Dervich

    “A culpa, aqui, não é da gestão do Estado. É da rigidez dos trabalhadores.”

    André,
    Será que a AutoEuropa possui uma legislação laboral à parte do resto do país? Se não tem, isso nunca foi impeditivo de realizar os mais variados acordos com os trabalhadores, pois não? O mesmo se passou na TAP, há algum tempo atrás…

    ” Os privados não compram estas empresas precisamente porque com a situação actual dificilmente conseguem melhores resultados do que os actuais.”

    Curioso, há quem pense que TODAS as empresas públicas são mal geridas, afinal parece que não é o caso…

  12. GatoPreto

    Só para que fiquem esclarecidos: A famosa história do pequeno almoço, é assunto de Lisboa, tal nunca se passou em Faro, onde sempre se trabalhou de acordo com o movimento, passando por cima inclusive das horas de refeições minimas (almoço) do regime geral. Quanto às diferenças das tabelas de salários para a Portway concorrente, não se consegue nunca diferenças superiores a 90€ por trabalhador. É verdade que em Faro é uma actividade sasonal, mas não se está a adequar os recursos à época do Ano, estão a despedir TODOS. Quanto ao acordo que a administração diz não ter sido aceite, tinha lá umas letrinhas pequenas que faziam passar as pessoas que tinham contrato TAP sem termo, para a GroundForce, perdendo assim o direito às viagens que são pagas a preço de custo e onde nunca se pode passar à frente de um cliente pagante como é lógico. Em Faro faziam até um horário (4:30 am) sem receber horas nocturnas e entrando ao trabalho quando o aeroporto estava legalmente ainda encerrado pela ANA. Ao Luis Lavoura e ao André: mesmo que tu queiras formar uma empresa de handling com este pessoal qualificado estás proibido de o fazer pela própria autoridade da concorrência. O que vai acontecer agora em Faro é que operando só a Portway podem dar péssimo serviço que não interessa, com o monopólio de operação vai-te queixar ao Tota. Por tudo isto costuma-se dizer que quem está de fora racha lenha. E todas as regras do sector são impostas pelo Estado. Abraços Insurgentes.

  13. JS

    ” …e depois de perdas de 12 milhões …” Que caíram do céu, não foi ?
    PS.- Detesto ser “acionista à força” da Grounforce.

  14. Ginja

    E a culpa é de quem? De quem assinou um contrato de trabalho com essa empresa, nessas condições específicas?

    No sector de transportes os sindicatos tem um poder desproporcional, quando paralisam infligem pesados danos brutais a nível económico e de imagem nas empresas em questão e na restante sociedade. No sector da aviação essa capacidade transformou-se numa chantagem permanente que levou a que empresas publicas deste sector tenham acordos de empresas e regalias impensáveis (e economicamente suicidas).

    A diferença da Autoeuropa é que a partir de certa altura os sindicatos passaram a “negociar”, na aviação nunca saíram da fase de “chantagear”. Para mim são verdadeiros terroristas. Infelizmente quem sofre são os trabalhadores, sim, porque nas paralisações suicidas desta gente nem todos faziam greves.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.