Confesso que só hoje vi o programa do São Carlos para 2010/11. Fi-lo talvez por curiosidade mórbida, pois, devido à distância e ao descalabro dos últimos anos, só um motivo muito especial me levaria entrar este ano no teatro de Lisboa. Sei que é arriscado fazer avaliações a priori, mas são os programas e a reputação da casa que nos fazem sair de casa. Compare-se por exemplo com o Teatro Real de Madrid, que já vai na terceira produção — depois de Eugene Oneguin e Mahagonny tivemos esta semana The Turn of the Screw, de Britten, da qual já aqui falei, e que moderou o cepticismo com que recebi as mudanças no teatro madrileno —, enquanto o São Carlos estreia nesta altura a segunda ópera…em versão concerto! Depois, seguimos os programas até Julho e comparamos o equilíbrio das propostas do Teatro Real (Tchaikovski e Britten, Mozart e Messiaen, Strauss e Weill,…) com a estranha lista do São Carlos para 2010/11, na qual apenas encontramos uma obra para o grande público (Carmen, de Bizet). Não é com um programa para catecúmenos que se conquista público. Quanto à reputação, não há muito a dizer. Há cinco anos o São Carlos lutava, com armas capazes, para entrar nos principais circuitos líricos da Europa. Depois, num par de temporadas, transformou-se numa anedota. É nesta altura que sentimos a tentação de fazer uma análise paralela ao percurso e reputação de Portugal, mas isto é tudo tão patético que já nem para isso temos paciência.
A origem do descalabro está na saída de Paolo Pinamonti do São Carlos, por razões políticas. É o retrato da gestão da coisa pública.