O papão do multiculturalismo

Todas as sociedades são multiculturais. O problema não é pois o multiculturalismo, mas sim algum multiculturalismo. O factor de sucesso de uma sociedade multicultural não é político, nem jurídico, como diz Henrique Raposo. Na Alemanha, os turcos vivem entre si, como em França o fazem por exemplo os imigrantes de origem magrebina ou da África negra. Não vale a pena o Henrique dizer que não há comunidades mas sim indivíduos porque a realidade fala por si. Se uma série de indivíduos com características minoritárias (religiosas, raciais, ou linguísticas) decide conviver com outros indivíduos com características semelhantes, podemos falar de uma comunidade. Distinguir multiculturalismo de cosmopolitismo, assumindo que neste a segregação não é tão forte, parece um jogo semântico porque não há forma de distinguir com rigor um e outro. Por outro lado, dentro de um mesmo país a integração/segregação dos imigrantes tem nuances. Os alemães e franceses das grandes cidades são tendencialmente mais tolerantes, havendo no entanto uma forte segregação (ou ‘guetização’, como diz a esquerda) entre os nacionais e os estrangeiros, que se concentram massivamente em bairros periféricos. Os alemães e franceses das zonas rurais são bem menos tolerantes mas, contrariamente ao contexto anterior, os imigrantes vivem no meio dos nacionais e esforçam-se mais para se integrar. Isto para dizer que falar de ‘multiculturalismo’ é um bocado fácil, devendo ser deixado esse jargão para os políticos (sempre em busca da nova moda para ganharem popularidade). Este é um ponto prévio.

Mas o problema das críticas ao multiculturalismo nem é tanto a sua falta de rigor. É sobretudo o seu lado romântico e utópico. Sendo que a extrema-direita não está sequer perto de chegar ao poder na Alemanha ou em França, é de supor que o fluxo de imigração se vá manter inalterado. E mesmo que ele seja moderado, o número de imigrantes nestes dois países é hoje suficientemente grande e as cisões culturais existentes tão fortes que é ilusório apelar ao respeito da lei e das regras por parte de todas as comunidades minoritárias. Por um lado, a pressão demográfica destas comunidades sobre os nacionais (muçulmanos e negros fazem muitos filhos) faz que dentro de poucas décadas elas se tornem relevantes e consigam competir em termos de acesso aos lugares políticos (vedar este acesso por via legal só teria efeito temporariamente, e nem se vê bem como isso poderia ser feito pois quem tem direito à nacionalidade tem automaticamente direito a votar e a ser eleito mal atinja a maioridade), e com isso que consigam mudar as próprias leis de acordo com os seus interesses. Por outro lado, não me parece que os governos francês e alemão se preparem para parar o fluxo migratório e comecem a expulsar em massa os turcos ou magrebinos para os respectivos países (única solução prática contra a pressão demográfica). Tal provocaria fortes resistências e o mais provável seria que eclodisse uma guerra civil, com possíveis atentados terroristas (afinal falamos de muçulmanos…) e ataques de membros destas comunidades contra os civis indígenas.

Goste-se ou não, hoje na Europa está a criar-se o cenário para um choque cultural violento. Quem o quiser evitar, tem que defender intransigentemente a liberdade: garantindo o direito à auto-determinação de zonas maioritariamente turcas e/ou muçulmanas ou de uma determinada etnia africana por exemplo; garantindo o direito à discriminação nos serviços públicos ou no trabalho (primeiro ser atendido num serviço público não é nenhum direito, depois um empregador devia ser livre de assumir que só contratava brancos ou católicos se o quisesse – estas duas medidas iriam favorecer a concentração comunitária e a segregação, de que poderia resultar a saída voluntária do país por parte dos discriminados ou o avanço para a criação de movimentos autonomistas); permitindo as câmaras não aceitarem mais estrangeiros (ou restringindo-lhes os direitos cívicos); vedando-lhes ou dificultando-lhes o acesso à nacionalidade; ou ainda não os incluindo no sistema de segurança social (enquanto ainda são minoritários tal seria possível sem grandes tumultos, isentando-os, claro, da respectiva contribuição).

O multiculturalismo não é um problema em si, não é por isso nenhum papão, nem está em falência. Só se torna um problema quando se quer integrar à força povos com culturas demasiado diferentes sob o mesmo ordenamento jurídico e administrativo. Foi esta ideia iluminista que faliu.

30 pensamentos sobre “O papão do multiculturalismo

  1. agfernandes

    Interessante análise, Filipe.
    E pensar que todas as culturais mediterrânicas são multiculturais, uma síntese. E que ainda existem locais no planeta onde esse encontro e coabitação é possível sem grandes atritos.
    Ana

  2. “garantindo o direito à discriminação nos serviços públicos”

    !!!

    O Estado tem por obrigação tratar todos os cidadãos de forma idêntica. Não pode discriminar.Os serviços privados podem discriminar, mas os públicos não.

  3. “permitindo as câmaras não aceitarem mais estrangeiros (ou restringindo-lhes os direitos cívicos)”

    Câmaras municipais a restringir direitos cívicos??!! Onde isto já vai…

    Câmaras municipais a limitar a liberdade de residência? Mas isto é um país ou uma coligação de Câmaras municipais independentes?

  4. “não os incluindo no sistema de segurança social […] isentando-os, claro, da respectiva contribuição”

    Isso seria desastroso em países onde, frequentemente, são os estrangeiros quem mais trabalha e, portanto, são contribuintes líquidos para a Segurança Social.

  5. Lusitânea

    Continuem a querer salvar o planeta, a ser o “exemplo” da política “Norte-Sul”, a dar a nacionalidade automáticamente ao fim de 6 anos dos quais 3 podem ser em prisão, a dar a nacionalidade a analfabetos depois dum exame “oral”, tudo isso de forma automática porque as escolas nem são SEF, mas desde logo ministério das finanças e tudo isso sem sequer haver necessidade porque trabalho não existe para ninguém que vão continuar a ter um lindo enterro.E notem bem tudo isso feito sem reciprocidade em lado nenhum.É o que se chama meter a cabeça no cêpo…
    Estes actos de alta traição estão e vão continuar a ser bem pagos pelos futuros guardadores de cabras do portugal profundo…onde já lhes aparecem os “novos portugueses” sempre positivamente discriminados a mandar…

  6. Lusitânea

    Essa dos contribuintes líquidos para a segurança social é do caraças.É dar um chouriço para levar o porco inteiro…

  7. Lusitânea

    Eu se fosse pobre também deixava de trabalhar.Que trabalhem os queridos discriminados pelos traidores…que conseguiram transformar ex-capatazes em África em paus mandados dos que mandavam…

  8. Miguel C.

    “…é ilusório apelar ao respeito da lei e das regras por parte de todas as comunidades minoritárias.”

    Só é ilusório porque os caras-pálidas vivem presos ao politicamente correcto.

  9. CN

    Luís Lavoura

    Com a ressalva da forma concreta fazer a diferença, a “discriminação” é como a progressividade (dentro do escalão X todos são tratados da mesma forma, dizem…) mas com melhor argumento.

    Um imigrante quando vai para a localidade (no limite país) X, pode saber a priori de certas coisas que tem acesso e não tem acesso, e sim, é verdade que se não tem acesso não devia pagar se for possível fazer essa separação de serviço pago/usufruído. Em alguns casos não o será. O processo poderia prever que após X tempo/anos com bom comportamento cívico passaria a ter igual acesso e “direitos”, ou então fazer depender, como no caso de localidade na Suiça (como creio ter lido algures), da compra de casa permanente.

    Por tudo isto, seria aconselhável que cada unidade administrativa tivesse autonomia para decidir certo tipo de condições, e a nível nacional outras mais gerais. E atenção que o facto de ter autonomia, em muitos casos, muitas localidades poderiam até inversamente dar incentivos para se estabelecerem dado querem combater desertificação ou existir procura para mão de obra.

    Quanto à questão da possibilidade de autonomia, é de facto perigosa, mas isso é mais um motivo para rejeitar a “livre imigração” por acção ou inacção.

  10. antonio

    O primeiro ministro de Marrocos disse-o nas Nações Unidas nos anos 70 ” A Europa será muçulmana em 2 ou 3 gerações sem ser preciso disparar um tiro “…o grande amigo do nosso PM, o Kadahfi diz o mesmo todos os dias ( apesar da imprensa portuguesa fazer um esforço para não divulgar )…alguns politicos europeus ( belgas, ingleses, holnadeses ..) já afirmaram que a sharia irá fazer parte da legislação europeia no futuro e que a acomodação é inevitável. A verdade é que a Europa está em declínio económico e demográfico…com uma população envelhecida e uma juventude conformada e politicamente correcta face a uma islão em crescimento demografico, com uma juventude activa ideologicamente e pronta a impor a sua cultura como se vê em França,Alemanha, Dinamarca, na Holanda etc….a Europa é um cavalo cansado face a um cavalo vigoroso..não é dificil perceber qual vai vencer a corrida.

  11. agfernandes

    Filipe

    Ups!, o termo talvez tenha de ser redefinido primeiro. Porque o que vemos na Europa não é propriamente uma forma saudável de convivênvcia intercultural nem a possibilidade de uma “síntese cultural” daqui a uns anos, há de facto uma “sobreposição artificial” de culturas, em que os conflitos, no actual percurso, parecem inevitáveis.

    A “síntese cultural” a que me referi é produto de uma história, e os locais em que as culturas convivem sem atritos são realmente escassos e em condições muito especiais (seria mais “cosmopolitismo”?).
    Ana

  12. agfernandes

    “os locais em que as culturas convivem sem atritos são realmente escassos”

    Olhe, cá em Portugal, tanto quanto me é dado observar, convivem muito bem.

    (É verdade que há em Portugal alguns “guetos”, mas trata-se essencialmente de problemas sociais, não de problemas culturais.)

  13. A ideia que eu tenho é que os jovens “problemáticos” dos bairros “negros” em Portugal e “árabes” em França até seguem mais a cultura negra norte-americana (música rap, aqueles fatos treino com capuz, etc.) do que as suas culturas “tradicionais”, logo não me parece que a diferença cultural seja assim muito importante.

    Por outro lado, comunidades com tradições muito distintas da nossa mas com profissões de classe média (chineses, indianos) têm fama de ser pacíficas (aida me lembro de uma conversa que há anos ouvi no metro, entre dois brancos: “as piores raças que há são os brancos, os pretos e os ciganos; os chineses e indianos é que não se metem com ninguém”).

    A única comunidade em que me parece existir um choque cultural é mesmo com os ciganos.

  14. filipeabrantes

    Miguel,

    os ciganos franceses não têm problemas de convivência com os outros franceses (quando muito a situação será semelhante à dos ciganos em Portugal). As últimas polémicas com ciganos em França têm a ver com ciganos vindos da Roménia, que praticam muita criminalidade e que ocupam terrenos que já têm dono.

  15. Euroliberal

    As culturas também competem entre elas. Tal como as religiões e as economias. A chamada crise do multiculturalismo é apenas o sintoma de uma mudança gradual do paradigma religioso-cultural. Os muçulmanos são mais fortes demográficamente e em vigor religioso, num século que será de resssurgimento da religião.

    Combater o multiculturalismo é, para lá dos aspectos éticos, ineficaz porque a Europa precisa mesmo de muitos emigrantes para combater o défice demográfico e dar sustentabilidade à retoma da economia e ao sistema de pensões (sim, os emigrantes são aliciados, e não invasores indesejáveis) e também perigoso, porque em breve a maioria será outra, e o combate ao multiculturalismo poderá ser recuperado pela nova maioria para guetizar ou expulsar a antiga maioria… O respeito do Outro, pregado por todas as religiões (e o exemplo do brilhante Al Andaluz ainda perdura) é pois a única saída… e a crispação identitária dos populistas e extrema-direita um gesticular inconsequente…É gente que nem f*** nem sai de cima… Se a Europa não fosse decadente e fizesse filhos em numero suficiente, os emigrantes não seriam precisos e não viriam até nós, e não se falava de crise de multiculturalismo… Fomos nós que causámos o problema, e a actual emigração e o surto fulgurante do Islão (emigração, demografia, conversões) são mecanismos da ordem natural para repor equilíbrios… Como tais, são inelutáveis…

  16. Lusitânea

    Aqui da minha janela tenho um horizonte vasto.Consigo identificar vários bairros sociais difíceis e até uma zona ainda de barracas á espera de mais “social”.Imaginem quem paga…
    É engraçado que na área da imigração/nacionalização a informação é “genérica” e maioritariamwente produzida pelos “interessados” que dizem andar a “enriquecer-nos”.
    Mas eu desafio o politicamente correcto a darem mais pormenores acerca do custo/benefício, do nº de desempregados dos bairros sociais,dos RSI´s, etc para pararem de nos andarema enganar com propaganda traidora, pois que uma política “automática” de nacionalização dos pobres dos outros só pode ser consedirada traidora dos portugueses legítimos!Aliás basta comparar os “anos de crise” á “abertura das portas” iniciada pelo Guterres…

  17. Lusitânea

    Cá por mim estou á espera de saber com quantas “dezenas de milhar” de novos portugueses vamos ser “enriquecidos” estes ano da graça do Senhor de 2010…a presisar de TUDO logo a seguir e que a LEGIÃO de combatentes da pobreza e das desigualdades já têm listado…

  18. Lusitânea

    “precisar” em vez de presisar.
    Não havia dinheiro para experiências musicais e orquestras em Belgais/Castelo Branco?Mas há para “integrar” as crianças africanas.Quantas não foram pegadas pelo “sistema” e levadas ao colo até á cadeira do poder?da decisão?Então e os indígenas lá do interior?Como é?Os gajos ou começam a partir e incendiar umas merdas ou ficam para trás… e vão abrir as valas sob o olhar atento do “diferente”…

  19. Lusitânea

    Em suma:Ou deitam abaixo a Lei da Nacionalidade ou ela nos deita abaixo.E já falta muito pouquinho…

  20. Lusitânea

    O euroliberal sonha.O pêndulo está num lado mas pode e vai voltar para o outro lado.É só aguardar-se mais um bocadinho.E lá fora já iniciou essa mudança.Cá os internacionalistas traidores ainda condicionam pela propaganda tudo mas como estão falidos a coisa já acabou.Se por todo o lado os gajos nos fazem limpezas étnicas porque não podemos nós fazer aqui?

  21. Euroliberal

    Resposta curta: porque seriamos nós, nesse caso, a vos limpar… Aliás os limpadores étnicos nazis acabaram na forca ou no poteau, e os seus discípulos nazi-sionistas acabarão muito provavelmente decapitados pelo sabre…Não é por aí a solução…Se não sabem f****, saiem de cima e deixam trabalhar quem sabe…

  22. Euroliberal

    O que é isso de “portugueses legítimos” ? É outra raça eleita ? São os que não sabem ter filhos ? Os que estão na recessão por muitos anos e têm zero de crescimento enquanto aqueles que consideram subhomens têm 6%, 10% o mesmo 20% de crescimento ao ano ? Então com mais “legitimidade” dessa vamos mesmo para o precipício…

  23. lucklucky

    Será inevitável a Balcanização. E mais violenta será quanto mais politicamente correcta for pois o politicamente correcto só fabrica panelas de pressão.

  24. Euroliberal

    Balcanização ? A demografia diz-nos que as sociedades decadentes extinguem-se naturalmente, por falta de reprodução. Daqui a um século a Europa será completamente diferente…

  25. A respeito de toda essa conversa (ou favor ou contra) de que a Europa em breve será islâmica – os muçulmanos representam uma minoria ínfima da população europeia; só parecem muitos porque se concentram em bairros específicos.

  26. lucklucky

    Por isso falei de balcanização. Será inevitável a não ser que a cultura mude para um lado ou para outro.

    Lembrar que basta 10 ou 15% para uma ditadura se impor se tiver vontade -e direito à intimidação, os medias de esquerda asseguram à priori esse direito a uma parte- e os outros forem demasiados fracos mentalmente – habitualmente isso consegue-se fazendo-os sentirem-se culpados de qualquer coisa – para resistirem.

  27. Euroliberal

    Miguel, ainda não compreendeu para onde vamos. As projecções demográficas apontam para o que eu disse. Veja este video que explica tudo:

    http://il.youtube.com/watch?v=JWErYjdbOE0&feature=related

    A bomba islâmica não é atómica, é demográfica, e esta é feita de valores familiares fortes, coesão social, recusa de toda as ideologias decadentes. Preparem-se, a Europa será muçulmana antes do final do século, e isto sem guerras e façam o que fizerem os histéricos Sarkozy, Wilders e islamófobos de todos os tipos…

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