Árabes ou palestinianos?

O neo-nasserismo de Helena Matos. Por Miguel Madeira.

Mas a deriva nasserista/baathista/pan-árabe de Helena Matos cai no erro de todos os nacionalismos que julgam que o que faz uma nação é um passado partilhado; não é – o que faz uma nação é o desejo de viver um presente e um futuro partilhado (e quando esse desejo existe, facilmente se inventa esse tal passado partilhado) – o caso mais paradigmático é mesmo o de Israel (uma nação deliberadamente criada por indivíduos que decidiram, de forma racional e voluntarista, constituir uma nova nação em vez de continuarem a pertencer às nações em que tinham vivido durante séculos), mas praticamente todas as nações surgidas no século XX andam lá perto (há uns séculos atrás, quem ouvia falar em “checos”? O que havia era “boémios”, “morávios” e talvez mais um ou outro grupo; e que moçambicanos havia no século XIX? E paquistaneses antes da partilha da Índia? E bangladeshis? E os moldavos, que só são uma nação porque viram que a Roménia estava ainda mais falida que eles? E , já agora, em 1760 qual era a diferença entre o que veio a ser os EUA e o que veio a ser o Canadá?).

A verdade é que os “palestinianos” poderiam ser tão só e apenas “árabes” durante séculos, mas a partir do momento em que, após 1948, nos campos de refugiados começaram a aparecer grupos “palestinianos”, que tiverem que lutar tanto contra Israel como contra a repressão jordana e egípcia (o primeiro morto da Fatah foi morto pelos jordanos, não pelos israelitas), surgiu uma identidade nacional palestiniana, distinta (embora não necessariamente contraditória) da identidade árabe, como das identidades tribais e clânicas pré-existentes. E a prova disso é que durante décadas o grupo palestiniano mais importante foram os “nacionalistas palestinianos” da Fatah, enquanto nunca ninguém ligou muito aos “nacionalistas árabes” da Saika ou da FLA, nem à primeira direcção da OLP, de Ahmed Shukeiri (que havia sido largamente escolhida pela Liga Árabe) – ou seja, os “palestinianos” consideram-se um povo, e é isso que os faz um povo (creio que foi Alexandre Herculano – será que os liberais do Blasfémias não o leiem?! – que disse “Nós somos portugueses porque quisemos ser portugueses”).

6 pensamentos sobre “Árabes ou palestinianos?

  1. CN

    O caso de Israel não é pior nem melhor que outros casos na história (muitas outros desejos de nacionalidade concretizados com sucesso uns e com insucesso outros, foram incentivados por sujeição a actos de extermínio anteriores). O dos palestinianos também não. O que revela a tragédia do Estado como monopólio territorial da violência que um dado grupo ideológico ou étnico-cultural quer ter acesso, fonte de todas as guerras (a expressão máxima de anomia, ausência de direito civil e penal) civis e externas: todos têm a sua razão mas essa razão assegura a destruição de vidas, propriedade e a violência generalizada como norma.

  2. lucklucky

    É precisamente isso, quem quiser pode-se considerar um Povo. O problema é que os Palestinianos – e os Líderes aceites pela Esquerda – não concordaram com Filipe Abrantes e não concordaram com Miguel Madeira.
    Os Palestinianos nunca lutaram por uma Nação. Lutaram pela expulsão dos Judeus de todo Israel.

  3. A grande diferença, porém, entre Israel e os palestinianos é que, no primeiro caso, o povo, ou a nação, é definido a priori, sem referência a uma terra de origem; enquanto que no segundo caso o povo, ou a nação, é definido como as pessoas originárias de uma certa terra.

    Ou seja, os palestinianos são, por definição, os árabes originários da Palestina. Pelo contrário, os israelitas são, por definição, os judeus, sejam de onde eles forem originários.

  4. CN

    “Lutaram pela expulsão dos Judeus de todo Israel.”,

    Palestina era o termo usado até pelos judeus americanos para denominar o local. É só ver os cartazes de promoção de viagens/turismo do início de século até WWI (e não sei se depois).

  5. CN

    “Palestina” é um nome romano. Foram os romanos quem chamaram Palestina àquela faixa de terra. O nome permaneceu, portanto, no vocbulário Ocidental.

    Na geografia tradicional árabe, a Palestina é parte da Síria (tal como o Líbano e a parte habitada da Jordânia). Para os árabes não existe uma terra chamada “Palestina” como entidade geográfica própria.

  6. lucklucky

    “Palestina era o termo usado até pelos judeus americanos para denominar o local. É só ver os cartazes de promoção de viagens/turismo do início de século até WWI (e não sei se depois).”
    .
    Obviamente estava-me a referir a seguir à formação do Estado de Israel que foi quando os grupos Palestinianos se formaram com mais seriedade.
    Note-se aliás que os Grupos palestinianos só começaram a contar quando o Egipto e a Jordânia deixaram de reivindicar como seu o território e a partir do momento em que receberam o apoio da URSS, RDA etc.

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