Esgoto a céu aberto

Depois da novela que se iniciou sexta-feira com o primeiro-ministro e o líder da oposição a acusarem-se mutuamente (ainda que com uso e abuso de eufemismos e neologismos) de mentirosos – e neste caso eu acredito em Passos Coelho, que não tem o curriculum de mentiroso compulsivo do PM, não lhe são conhecidos os múltiplos esqueletos no armário que o PM acumula no seu roupeiro, que não veio para a comunicação social denunciar que a outra parte não queria negociar depois de, espantou-se o desprevenido que é ofendido pelo som das arengas de Silva Pereira, duas reuniões de negociação desconhecidas do público – podemos assumir que a política portuguesa é um esgoto a céu aberto. Por exclusiva responsabilidade de José Sócrates e do PS (aquele que o apoia convictamente e aquele que o tolera mas não o desafia em troca das migalhas do dinheiro dos contribuintes de que assim beneficia).

As consequências mais nefastas dos governos socialistas desde 1995 não vão ser as económicas, ainda que estas nos dêem – e aos nossos filhos e, quem sabe, netos – razões para desesperar.

Cavaco Silva escreveu num dos seus livros da autobiografia política que na noite da vitória da primeira maioria absoluta, contaram-lhe, um senhor na Avenida da Liberdade em Lisboa gritava que finalmente ia conseguir comprar um carro próprio. Foi precisamente esta ambição de conseguirmos algo por nós próprios que Guterres matou com a sua política assistencialista, levando à dependência do estado franjas cada vez maiores da população (franjas engordadas pelo empobrecimento inevitável resultante da apropriação crescente de impostos usados para sustentar essas franjas), à desresponsabilização individual no sucesso ou insucesso financeiro, à exigência de que o estado ‘dê’ casas, livros, rendimentos mesmo que não se trabalhe, …

Sócrates, pelo seu lado, conseguiu terminar com qualquer decência que, antes, se exigia aos governantes (incluindo nos governos Guterres; recordemo-nos de dois exemplos: António Vitorino demitiu-se dizendo que um ministro não pode estar sob suspeita e  Jorge Coelho assumiu a responsabilidade política pelo acidente na ponte de Entre-os-Rios). O que é visto como normal (à conta da frequência da reincidência nos comportamento desviantes) neste PM e nos seus ministros levaria a quem em outro qualquer governo de lá se saísse para permanecer em casa durante uns meses com vergonha de descer à rua. O nível é tão subterrâneo que se engendrou, em defesa do PM, a ideia peregrina de que um PM só deve responder politicamente pelo que é susceptível de ser provado em tribunal.

A solução para o descontrole orçamental e para o excessivo peso do estado – o problema económico português – é fácil de implementar, assim haja coragem e determinação políticas. Resolver os males guterrista e socrático é que se afigura tarefa para titãs.

16 pensamentos sobre “Esgoto a céu aberto

  1. Pode estar tudo muito bem no que escreve, mas criticar o assistencialismo ou o que o estado “dá” a quem não trabalha, é esquecer-se de que, por vezes, há situações tão dramáticas na vida das pessoas, que se não for a colectividade, directamente ou através do estado a assisti-las, não há saída, a não ser pelo suicídio. Para que servem os Seguros? É para atender a situações anormais. A ajuda deve ser prestada também, ocorrendo situações anormais das pessoas que dela necessitem.

  2. fms

    É impossível. É inumerável a quantidade de gente que vive à mama do Estado. Portugal é hoje um antro bipolarizado entre grunhos sub-educados e clever-sillies sobre-qualificados; veja-se como escrevem, nos media, sobre a necessidade de ir ao bolso a quem produz – esse acto de lesa-equidade, ter lucros. E na rua? No comboio de permeio com a apatia, o que é que se ouve? E há quanto tempo?

    Vox clamantis in deserto. Que venha depressa o FMI é o que eu desejo.

  3. fms

    @Américo Tavares: há muito a dizer acerca do que introduz. 1) o Estado é mau distribuidor, é como os países em África para onde o dinheiro e a comida vão mas nunca chegam a quem precisa; 2) a solidariedade compulsiva nunca me pareceu bom método, preferia ter liberdade económica para que sobrasse dinheiro, após impostos e comissões, para exercer caridade; 3) é tempo de perceber que não se pode ter omeletes e ovos em simultâneo – ou se oferece tudo ou se cria uma economia potente assente num povo responsável.

  4. @fms: concordo consigo, há muito a dizer.

    1) É uma tragédia que isso aconteça, como acontece, até porque os meios são sempre escassos, mas a sociedade só por si, sem a estrutura estado, distribui melhor? Nuns casos sim, mas noutros penso que o estado (isto é, todos nós colectivamente) deve assumir a sua, mas só a sua responsabilidade.

    2) A solidariedade só deve ser “compulsiva” nos casos realmente dramáticos, como escrevi acima. Cada um de nós, na medida das nossas capacidades pode e deve praticar a caridade.

    3) Sem ovos não se fazem omoletes, é verdade. Mas só há os dois extremos, que refere? Eu não defendo que se ofereça tudo, antes pelo contrário, porque dessa forma tornamo-nos irresponsáveis e nunca saberemos caminhar por nós próprios. O que defendo é que o estado e as estruturas sociais devem cuidar dos casos graves.

  5. fms

    Mas lá está, é na omnipresença tutelar do Estado que radicam os maus hábitos dos portugueses, designadamente o mito do eterno desenrascanço e a crença pia na obrigação de ser-se compensado, por parte do Estado, pelo ónus da cidadania…

  6. fms

    (repare que estou a ser insidioso em certa medida: sei que existirão sempre casos graves, no limite (digo limite no sentido matemático do termo, assimptoticamente, que andei a ver o seu interessantíssimo site e também eu fui professor de matemática ;)) simplesmente não me parece que o Estado, qualquer Estado, possa impunemente, sem mais prejuízo que o sustentável, atender às necessidades desses casos)

  7. Obrigado pela sua apreciação do meu blogue!

    Sim, os casos só poderão ser atendidos, se tal for sustentável. Mas para isso acontecer será necessário que todos nós façamos o que podermos fazer, deixando para o Estado apenas os que exigem um esforço colectivamente organizado. Um exemplo: as doenças raras, de difícil e dispendioso tratamento, que só o Estado o poderá providenciar, pelo menos para a generalidade dos doentes, não havendo recursos, e a colectividade ou alguns dos seus membros com maior disponibilidade financeira não o fizer, então esses doentes não têm qualquer possibilidade de serem tratados.

  8. fms

    Simplifiquemos.

    Um cidadão de classe baixa, trabalhador e acometido de doença grave, deve ser assistido pelo Estado? Só se não houver solução no privado.

    Mas o cidadão pode pagar essa solução?

    Deve haver liberdade (leia-se ausência de perseguição fiscal e burocrática) para que existam fornecedores de tal solução.

    E havê-los-ia?

    Seguramente, é um mercado virgem e promissor.

    Estamos a ser frios e a tratar pessoas como números?

    Sim. Só pode haver uma postura de Estado que conduza a um modelo solúvel e justo se formos frios e pragmáticos. Devemos tratar as pessoas com honestidade e não as induzir em delírios idealistas quando por trás estamos é a alimentar os lobbies dos amigos.

    E quanto a casos ainda mais extremos, daqueles que não querem/podem/conseguem ser úteis?

    Aí não há cesto de ovos que nos valha.

  9. fms

    Ou seja eu defendo uma rota inversa à sua: em vez de andarmos com paliativos a caminhar no sentido de que o Estado possa atender mais e mais, o Estado que se encolha e deixe as pessoas/empresas florescerem e ajudarem-se entre si.

  10. “Sócrates, pelo seu lado, conseguiu terminar com qualquer decência que, antes, se exigia aos governantes”

    O problema é que, em consequência dos exemplos de Jorge Coelho e António Vitorino, houve pessoas que passaram a querer obter demissões mediante acusações infundadas e aleivosas. nomeadamente no caso Casa Pia (e também naquele golpe sujo de sugerir que Sócrates era homossexual). Ou seja, procurou abusar-se do mecanismo da “decência”. Sócrates não esteve para ir pelo mesmo cano por onde tinham ido Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues, e fez muito bem em não querer.

    Exigir-se decência sim, mas não é para abusar dela!

  11. Compreendo o seu não. Talvez se deva à formulação pouco rigorosa da minha frase «A solidariedade só deve ser “compulsiva” nos casos realmente dramáticos, como escrevi acima. Cada um de nós, na medida das nossas capacidades pode e deve praticar a caridade».

  12. “Resolver os males guterrista e socrático é que se afigura tarefa para titãs.”

    Nos últimos 25 anos, o país foi governado durante treze anos por governos do PSD (coligado ou não com o CDS e durante doze anos por governos do PS (Guterres e Sócrates).

    Gostaria de saber porque carga de água é que só o PS é que é responsável pelos problemas do país…

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