Precisam de menos

Anne Applebaum escreveu na Slate sobre o gosto que os Britânicos têm pela austeridade. O pano de fundo do artigo é a forma como o eleitorado britânico encara e aceita os cortes na despesa que estão a ser impostos pelo governo de coligação. Algo impensável em Portugal que há anos discute a necessidade de cortar na despesa e não se decide, preferindo aumentar os impostos. Impossível num país em que acabamos por dar mais dinheiro ao Estado a ter um governo que acabe com o desperdício.

O que está a suceder no Reino Unido não se trata apenas de um corte na despesa e nos serviços sociais desnecessários. Estamos perante uma substituição das mentalidades que vigoram desde a década de 60, a época em que os actuais líderes políticos daquele país nasceram e começaram a ser educados. Há a noção, que muitos britânicos estão a atingir neste momento, num regresso à cultura do sacrifício que vigorou até aos anos 50, que o Estado social, com alguns privilegiados cheios de ‘direitos adquiridos’ em detrimento de outros sem nada e poucas expectativas, não pode continuar tal qual está.

Esta ligação entre austeridade e uma visão a longo prazo, mais certos objectivos a serem alcançados é indispensável para que as decisões difíceis sejam aceites e produzam efeitos positivos. Por isso o título deste ‘post’ não está totalmente correcto. Os habitantes de um país que queiram ultrapassar a crise económica actual, precisam de menos bens materiais, mas já necessitam de mais satisfação íntima para a realização de metas pessoais; de menos garantias para o futuro, mas de mais entusiasmo pelo desafio; precisam de estar menos encostados ‘à sombra da bananeira’ e mais aptos a agir por sua conta e risco; a gastar menos em bens de consumo, como televisores e automóveis, e mais em actividades que se traduzam numa mais-valia profissional e cultural. De serem menos egoístas. De prescindirem de direitos garantidos para todos terem acesso a uma pequena quota-parte do bem comum. Precisam de menos do que têm, mas muito mais de uma nova atitude.

Só recebendo a austeridade com este espírito a austeridade se torna útil, permitindo-se ultrapassar o drama que é o colapso do Estado social. Parece óbvio, e é. Mas não é de ânimo leve que se aceita e qualquer um leva a cabo. Applebaum menciona Nick Clegg quando este refere que quer olhar para os filhos e netos e dizer-lhes ter agido da forma correcta. Não se trata apenas de pensar a longo prazo. Trata-se de brio.

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7 thoughts on “Precisam de menos

  1. agfernandes

    André
    Aqui a grande dificuldade tem a ver com a maturidade de um povo.
    Também só seria possível com outros responsáveis políticos.
    E com uma regeneração global da administração pública, a começar pelo parlamento.

    Por isso valorizo tanto, actualmente, o papel da Igreja no despertar das consciências para os valores cristãos. Que não estão do lado do estado social socialista corporativista, injusto e coercivo, como podemos ser levados a pensar, mas do lado da autonomia, da dignidade e da escolha responsável.
    Ana

  2. Hmmm, este post parece que pretende trocar bens materiais por espirituais. Assim do género, uma pessoa está com uma doença grave, não tem Serviço Nacional de Saúde que a trate, não tem poupanças que lhe permitam tratar-se, e então aguenta a doença com estoicismo e austeridade, quiçá pensando que ela lhe trará a Salvação e o Paraíso.

    Não sei é se as pessoas aceitarão bem esta perspetiva…

  3. Jose Domingos

    Claro que os comissários politicos, não gostam da idéia.
    É uma questão de cidadania, de honra e respeito pelo seu compatriota.
    Coisa que não existe, cá no curral.
    Aos politicos, que não respeitassem estes pressupostos, deveriam ser, exemplarmente punidos.

  4. tric

    “Não se trata apenas de pensar a longo prazo. Trata-se de brio.”

    logo, Passos Coelho não serve! hoje diz uma coisa amanhã diz outra…

    «Não aceitaremos um maior aumento de impostos para o futuro sem que o Governo mostre que realmente está a reduzir a despesa», afirmou Passos Coelho

    com que então, vem aí mais um pedido de desculpas a caminho…

  5. ricardo saramago

    A pergunta que os credores do país fazem é: Como tencionam pagar o que devem?
    Os políticos discutem como continuar a viver de empréstimos.
    Os portugueses não querem ouvir falar de problemas de dinheiro.
    Onde estão os portugueses sérios e responsáveis?
    Será que já estão de malas feitas?

  6. lucklucky

    “Impossível num país em que acabamos por dar mais dinheiro ao Estado a ter um governo que acabe com o desperdício.”

    O problema do Estado Português e dos Portugueses não é desperdício. É riqueza imerecida.

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