A direita cínica e imoral

Manifestações em Lisboa contra uma anunciada lapidação no Irão podem ter um efeito de pressão residual mas são respeitáveis e se forem genuínas (se por exemplo não se esconderem por trás de outras causas, como a luta genérica contra a pena de morte – como aqui se adverte – ou a mudança do regime iraniano por dentro ou por ataque externo) fazem todo o sentido. Apesar de, segundo consta, a lapidação não se efectuar no Irão há já vários anos, a hipótese de o voltar a ser é preocupante. O que faz menos sentido é a visão maniqueísta e cínica de alguns críticos da manifestação do último sábado (como é o caso de João Pereira Coutinho, neste artigo). A causa é justa e pessoas que se juntem e se manifestem pacificamente na luta por uma causa justa dificilmente são criticáveis. Não merecem ser achincalhados e tratados de ‘pornográficos’. Só uma pessoa cínica (daquelas cuja História não costuma recordar, diga-se) e sem os valores certos pode censurar outras pessoas por se manifestarem contra uma prática injusta e selvagem. Se observarmos bem as reacções negativa de alguma direita à manifestação de Sábado, elas visam a menorização da mesma e o apelo à guerra. Pura e simplesmente. É evidente que a maioria (ou totalidade) destes críticos nunca participará numa provável guerra contra o Irão (quer física, quer financeiramente – afinal os contribuintes americanos servem para isso mesmo). O que os motiva é a paranóia do ataque ao “regime iraniano”. Pouco importa que as aventuras no Iraque e no Afeganistão se estejam a revelar um longo e penoso fracasso, o que parece motivar estes críticos é a fuga para a frente e a extensão dos “direitos” ocidentais e da democracia (esse novo dogma da direita!) pelo mundo fora. Esta duplicidade de comportamentos revela grande irresponsabilidade e imoralidade: apelar a uma guerra que pode facilmente tornar-se devastadora (sobretudo para o povo iraniano, mas também potencialmente para as nações envolvidas no ataque) e global (dados os governos que andam a pressionar o Irão e a impor-lhe sanções) pelo progresso nos costumes iranianos é enquanto método não só completamente desproporcionado e patético como também imoral por se aceitar a morte de milhares de inocentes por ganhos que não a justifica (porque os fins não justificam os meios).

Claro que alguns dos críticos são simplesmente desonestos e fingem a simpatia pelos direitos dos iranianos quando na verdade o que querem é que o “regime” de Ahmadinejad seja riscado do mapa, em benefício de Israel.

15 pensamentos sobre “A direita cínica e imoral

  1. ricardo saramago

    É claro que os honestos são todos anti-israelitas. Aliás, se não o forem, não podem ser honestos.
    A falta de caracter de todos os que não são anti-israelitas e anti-americanos é sobejamente conhecida e é a maldade dessas pessoas que impede a felicidade e o bem estar dos muçulmanos.

  2. CARLOS

    só cá faltava israel…pobreza de espírito maior não deve haver. O facto do Irão ser uma ameaça aos vizinhos árabes, instigar o terrorismo no iraque, ter por diversas vezes prometido exterminar israel, ter feito gato sapato da União Europeia até ao ponto de a ameaçar com o alcance dos seus mísseis, etc….tudo isto é a brincar….o que alguns querem é que o regime ds ayatholas caia em favor de israel ?? mas este insurgente droga-se ?????

  3. ricardo saramago

    Os nossos ingénuos politícamente correctos, vêem o Irão como uma ameaça a Israel e, cegos pelo anti-semitismo, elaboram as suas teorias sobre o mundo e a política internacional, sempre numa optica do bem e do mal.O mal claro é o “ocidente, a direita, a América e Israel”.
    A realidade é bem mais complexa e portanto requer um pouco mais de inteligência e de seriedade.
    Na prática o comportamento do Irão mais não faz do que favorecer Israel e a posição dos EUA na região,já que são as únicas potências militares capazes de fazer frente à ameaça.
    Os países Árabes, embora não o manifestem públicamente, face ao seu inimigo histórico ameaçador e belicista, querem tudo menos o enfraquecimento de Israel e dos EUA e a sua segurança depende paradoxalmente dos “inimigos infiéis”.
    Ao contrário do que pensam os analistas de pacotilha a situação estratégica na região é a mesma desde há séculos quando os portugueses ajudaram os árabes do golfo contra os persas. No médio Oriente vigora um confronto milenar entre Turcos, Arabes e Persas, e existência de Israel nada mudou.
    As análises maniqueístas e simplórias nada esclarecem e não passam de instrumentos de propaganda inúteis.

  4. CN

    ricardo, o argumento que os persas e árabes são inimigos foi muitas vezes evocados na oposição à direita ao neo-conservadorismo que repetiu o tique de ver no comunismo uma frente única (desmentida pela realidade, a inimizade China-URSS e etc) e depois sugeria explicitamente e implicitamente um confronto com o Islão. Alias, avisou-se que depor Saddam traria o risco de fazer aumentar a capacidade do Irão na região.

  5. lucklucky

    Hehehe! não há melhor exemplo dos fins que justificam os meios do que a população do Irão estar aprisionada por um regime violento e agressivo . Como o senhor Abrantes quer “paz” para ele esse fim justifica esse meio.

  6. José Barros

    Concordo em absoluto com o post, como, aliás, antes com o post do Carlos (que penso já tinha escrito sobre o assunto).

  7. filipeabrantes

    “Como o senhor Abrantes quer “paz” para ele esse fim justifica esse meio.”

    Claro. Todos os liberais coerentes querem paz e condenam destruições massiças de propriedade e mortes de inocentes.

  8. Jorge sousa

    eu pensava que repudiar a lapidação e a forma como as mulheres são tratadas pelo islão, sem quaisquer direitos quanto mais os fundamentais, era uma questão civilizacional , mas aqui o abrantes insurgente abriu-me os olhos: é uma questão de se ser de “direita cínica e imoral” ou de “esquerda”…..grande lógica, até a barraca abana…..

  9. Euroliberal

    O Irão não invadiu nem um só país em 250 anos. Pode o Miguel indicar um só ? Se não pode, cale-se, ou perde totalmente a credibilidade. No mesmo período (que começou antes dos EUA existirem) estes invadiram ilegalmente CENTENAS DE PAÌSES. Dispenso-me de os enumerar, idem para Israel… Haja pachorra para tanta mentira decarada…

  10. Euroliberal

    A lapidação não dói mais que a fritura na cadeira eléctrica (que dura 15 minutos de sucessivas descargas que sacodem todo o corpo com intenso cheiro a carne queimada e fumo a sair da cabeça como num refugado esturricado), nem 30 anos de cadeia são necessariamente melhores que a morte para uma assassina. Porque trata-se de uma badalhoca que mandou matar o marido pelo amante… e só por isso foi condenada. Para mais a lapidação foi suspensa à dez anos no Irão e só o enforcamento é aplicado. Além de que a neoconeieagem islamocida NÂO está NADA interessada na sorte dessa assassina infeliz. APENAS a utiliza, faute de mieux, para demonizar o Irão anti-nazionista e incitarem a uma cruzada assassina em que milhões de iranianos fossem mortos para eles se masturbarem, de braguilha aberta, frente à TV, como no shock and awe iraquiano de 2003. Santa hipocrisia… que decadência de valores…

  11. Euroliberal

    O infeliz luckyluck não acerta uma: vejam esta pérola “a população do Irão estar aprisionada por um regime violento e agressivo ” . Como ?

    No Irão há eleições democráticas com alternância e debates livres na TV entre oposição e governo, que Ahmedinejad ganhou por maioria esmagadora. NÂO HÁ APARTHEID DE UMA MINORIA RELIGIOSA RACISTA COMO ISRAEL… E ditadura era no tempo do Xá corrupto que Israel e os EUA apoiavam… Você não qualquer credibilidade nem vergonha nenhuma na cara. Mente com quantos dentes tem…

  12. Euroliberal

    Outro cromo, o Magistral estratega (!!!): “Não sabia que defender a dignidade humana era uma questão de esquerda ou direita…”. Claro que não. Mas apoiar cruzadas assassinas e invadir povos unilateralmente é defender direitos humanos ? Enxergue-se ! E mesmo admitindo que executar uma assassina galdéria violava os direitos humanos, quod non, a invasão do Iraque pelos terroristas cruzados que matou mais de um milhão, não os viola um milhão de meses mais ? Tenha juízo, mais os seus disparates magistrais…

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