Não toques no meu privilégio

Muito me separa ideologicamente do Henrique Raposo, mas diverte-me ver as reacções histéricas e indignadas face a alguns dos seus posts contra a função pública e os seus privilégios. Há tempos foram os enfermeiros (ficaram chateados porque o Henrique Raposo lhes disse que não mereciam ganhar mais), agora parece que saiu da toca uma espécie de ‘grupo de amigos dos funcionários públicos’ a respeito de um – aparentemente – infame ataque à ADSE e a quem dela usufrui. Aqui, aqui, aqui, aqui, e ainda aqui, podem ler-se algumas das mais divertidas reacções à nova diatribe anti-funcionários públicos do HR. Aqueles que passam o tempo a condenar posts/textos ad hominem são os mesmos que não hesitam em atacar pessoalmente quem ouse apontar o dedo ao corpo parasita dos funcionários públicos. Independentemente da razão da crítica A ou B, é sintomático que tanta gente se sinta tocada pessoalmente com este tipo de reparos (em geral ajustados). Será isto um fenómeno associado às castas de intocáveis, típicos das sociedades mais atrasadas?

Se quer levar com um ataque pessoal  ou ser insultado, já sabe, critique a função pública (os seus privilégios, o seu peso no orçamento e a sua  imoral parasitagem da sociedade), é só esperar.

Outra lição a reter: numa sociedade socialista e decadente como a portuguesa, é de certeza bom sinal ser insultado à esquerda e à direita, é sinal de que talvez se esteja a dizer algo acertado.

Leitura complementar: A falácia do pagamento de impostos na função pública, por BZ

20 pensamentos sobre “Não toques no meu privilégio

  1. LA-C

    Confesso que tenho dificuldades em perceber esta discussão. Como é que alguém pode dizer que o ADSE é algo inadmissível com base nos custos do ADSE sem dizer quais as receitas do ADSE?

  2. CN

    Dúvida: Se receitas da ADSE (o desconto de 1.5%) pagam 10% (?) do seu custo, isso quer dizer que têm de aumentar esse desconto para 15% (10x), não?

    [isso sem aumentarem o salário dito bruto dos fp, o qual em si é uma falácia, dado que o salário líquido é que constitui despesa líquida no OE sendo a dita receita dos impostos dos fp apenas uma convenção].

  3. carlota

    O melhor é acabar com tudo o que não for universal. Por exemplo as universidades.
    Só poucos podem entrar, para quê ir dinheiro para uns previligiados, pagos por todos nós ? Acaba-se com as universidades estatais

  4. Hum. Não me parece que a minha reacção tenha sido “histérica” ou “indignada”. E chamar de ataque “ad hominem” a um post em que acabo a dizer que até gosto de ler o Henrique Raposo é, enfim… 🙂

  5. Já agora, uma curiosidade:

    “Se quer levar com um ataque pessoal ou ser insultado, já sabe, critique a função pública (os seus privilégios, o seu peso no orçamento e a sua imoral parasitagem da sociedade), é só esperar”

    O Filipe considera mesmo que os funcionários públicos são parasitas imorais da sociedade? É que, segundo julgo saber, tanto o Henrique Raposo como alguns insurgentes são funcionários públicos (ou pelo menos têm contratos com o Estado). A ideia do meu post era exactamente alertar para a necessidade de introduzir alguma diferenciação na análise. Mas se o Filipe quer meter tudo no mesmo saco…

  6. LA-C

    “3.Dúvida: Se receitas da ADSE (o desconto de 1.5%) pagam 10% (?) do seu custo”

    CN, fico na dúvida. De onde vem esse número? E essas 10% do custo é o custo total, ou apenas o marginal em relação ao uso do SNS?

  7. Eu que até tenho ADSE não vejo lá muito bem qual a sua vantagem. é que acabo quase sempre pagando…
    Mas o problema com o Henrique Raposo é que ele não quer discutir nada, quer só insultar e atacar pois trabalha no mercado do insulto.
    Há muito que evito ler o Henrique Raposo pois o que escreve pouco sentido tem. Li-o agora por causa deste artigo e, registo que não tenho perdido nada por não o ler.

  8. filipeabrantes

    PR,

    A condição profissional de funcionário público beneficia de privilégios, não vejo como o HR ou outros liberais funcionários públicos poderiam negar isso.

  9. Filipe,

    Depende. Há alguns funcionários públicos que ganham menos do que trabalhadores do sector privado que têm as mesmas funções (é uma minoria, eu sei – estou apenas a ser rigorosa).

    Mas esse nem era o ponto. O ponto é que dizer que “a condição profissional de funcionário público beneficia de imensos privilégios” é substancialmente diferente de dizer que ela consiste numa “imoral parasitagem da sociedade”.

    A primeira frase parece-me pelo menos defensável (e em parte até concordo com ela). Isso é bom para o debate. A segunda parece-me, no mínimo, histérica e indignada. Já não é bom para o debate. 🙂

  10. filipeabrantes

    PR,

    Se é uma parasitagem é imoral em si mesma. Claro que há coisas ainda mais imorais, nem isso se discute. E claro tb que trabalhar para o estado ou dele receber de uma forma ou doutra não constitui um crime em si mesmo (ainda mais numa sociedade com um estado omnipresente). Fazer um negócio com um ladrão é legítimo, mas não deixa de ser questionável eticamente.

    Perceba que não vamos deixar de dizer os factos todos só porque há situações ainda piores.

  11. Filipe Abrantes.

    Sou enfermeiro, exerço numa EPE, com contrato individual de trabalho, desde há 7 anos. Tenho licenciatura e mestrado, o meu salário base é de aproximadamente 1030 euros/40 horas semanais, não tenho ADSE.

    A minha pergunta é: Sou um privilegiado?

  12. filipeabrantes

    Mauro,

    Não faz sentido discutir casos isolados. A ADSE e protecção no trabalho de que beneficiam os funcionários públicos (face aos do privado) são privilégios ‘de facto’. Privilégios segundo a wikipedia podem ser: um direito exclusivo, uma regalia ou uma imunidade. Sendo que os únicos privilégios criticáveis são aqueles garantidos pelas autoridades públicas (uma empresa privada podendo assim atribuir privilégios a alguns dos seus funcionários e não ser merecedora de crítica).

  13. A que excepção se refere? Aos mais de 15000 enfermeiros na mesma ou pior situação?
    E ao direito de ser avaliado quanto ao desempenho e à produtividade?
    Ninguém fala nisso mas aplaudem-se reduções sumárias de 20% no vencimento dos funcionários públicos metendo todos no mesmo saco.

    Pessoalmente nem acho que tenhamos assim tantos funcionários públicos face à maioria da UE mas o sentimento de insatisfação dos demais quanto aos trabalhadores por conta do Estado deve-se à sensação de trabalho incompleto ou insatisfatório por parte destes…

    Proponham forma de separar o trigo do joio e não de mandar herbicida para cima de todos… Existem métodos biológicos mais eficazes do que os químicos passe a metáfora

  14. filipeabrantes

    Quando se defende o corte nos subsídios à cultura ninguém se lembra de vir chorar e dizer que se deve “separar o trigo do joio”.

  15. Não fiz qualquer comentário acerca disso portanto não compreendo o argumento.
    De qualquer forma, em épocas de crise, deve redireccionar-se o investimento no que é prioritário. O que basicamente todos discutimos é o que deve ser prioritário

    Mas acaso os gregos teriam discutido filosofia senão tivessem o que comer?

  16. filipeabrantes

    Há um problema. Normalmente os FPs acham que o seu sector é prioritário e ‘essencial’. E encontram sempre bons argumentos para tal.

    No caso da saúde, uma parte (mesmo que reduzida) da população achará sempre que o estado não deve gastar em saúde porque 1. é jovem ou 2. tem seguro de saúde e não quer pagar pelos outros. Que justificação pode haver para obrigar estes dois grupos a pagar a saúda para a restante população?

    Referi o caso da cultura pois quem consome a cultura subsidiada (quer clientes quer produtores) também pode dizer que acha mais prioritários e ‘essenciais’ este financiamento do que por exemplo GNRs no Iraque ou a ASAE.

  17. Os funcionários “públicos” são privilegiados e parasitas independentemente de receberem mais ou menos que a média nacional (ou até que o Belmiro de Azevedo), e independentemente de fazerem algo de produtivo da sua vida (enfermeiro, condutor de autocarros, professor) ou não (polícia que aplica leis injustas, burocratas controleiros, agentes do fisco).

    São parasitas por UMA razão, essencialmente (mas não só): porque os seus rendimentos dependem do imposto, isto é, do ROUBO. Os portugueses não têm, ao contrário do que sucede no mercado livre com qualquer outra empresa, a possibilidade de recusar-se a pagar pelos “serviços” do estado. Por isso, o estado funciona essencialmente como uma máfia, pela extorsão. E da mesma forma que é legítimo tratar os membros duma máfia de parasitas, é legítimo tratar os membros do estado de parasitas – fazem parte duma organização ilegítima em si.

    Os empregados do estado são além do mais CULTURALMENTE parasitas, na sua grande maioria. Isto vê-se pela atitude de resistência (eleitoral, sindical, propagandística, ou até golpista) que adoptam sempre que alguma medida qualquer tende a liberalizar a sua área (privatizações, abertura à concorrência de monopólios estatais, fim do financiamento estatal da actividade). Ou seja, os empregados do estado gostam que o seu patrão-governo, por intermédio da polícia e do sistema prisional, VIOLENTE os seus concidadãos (já que imposto e monopólio só se conseguem perdurar se a polícia estiver constantemente a QUEBRAR os recalcitrantes). Isto, simplesmente porque lhes traz vantagens. Mesmo que saibam que as suas benesses se fazem À CUSTA DA LIBERDADE E DA PROPRIEDADE dos seus semelhantes, aprovam-nas.

    Por isso, muito pouco respeito merecem os PARASITAS da função pública. O respeito que lhes é devido exprime-se apropriadamente através dum dedo médio (ou melhor ainda, um falo) vigorosamente apontado para o céu: .I.

    Mauro, percebeu, agora?

    .I.

  18. Filipe Abrantes…
    E não é que os FP’s têm razão?
    Prefere viver sem saúde ou sem cinema?

    Não preciso de arranjar nenhum argumento. Você também sabe que certos sectores são essenciais.

    No caso da saúde… Existem excelentes justificações. 1. Os jovens também têm doenças. 2 Os seguros têm plafonds e restrições de acesso a cuidados de saúde.
    Solidariedade colectiva parece-lhe um bom princípio? Senão acreditar nisso pense que fica mais barato no final se pensar que o sector público não se gere pelo lucro e portanto os preços não seriam tão inflacionados se o sector fosse maioritariamente privado.

    Se lhe disse que sou de direita acredita? Mas não nesta questão da saúde, na na forma como a dita direita lida com essa problemática. Acredito que temos de manter um bastião de humanidade e de algo sem natureza competitiva para o utente.

    Permita-lhe que lhe cite este texto porque exprime melhor do que eu o faria o problema dos seguros de saúde:

    parte da subida da despesa no capítulo dos seguros deve-se a um problema de comportamento de alguns consumidores, que não encaram o seguro como uma cobertura de risco para acontecimentos aleatórios, mas sim para gastos nem sempre essenciais, esgotando consistentemente o plafond”…

    É claro que a extensão racional deste argumento é a inevitável espiral de custos e descontrolo orçamental. O que é certo é que os liberais de pacotilha, com frequência, deixam antever a fragilidade dos seus argumentos. O que pretendem é tão só e apenas a transferência dos fundos públicos para a prestação privada. Eles sabem, tão bem como nós, que os seguros de saúde são insustentáveis e que desde sempre os referidos seguros de saúde fazem severas limitações à liberdade de escolha e de utilização dos seus aderentes. Sabem, igualmente, que os prestadores privados, há muito, que “industrializaram” o modus operandi para “rapar” os plafonds até ao último cêntimo.

    Entretanto continuam a propagandear que “em Portugal há dois milhões de pessoas com seguros de saúde”… omitindo que, com coberturas efectivas e utilização frequente, o número não chega a um milhão. Incluem nos dois milhões “seguros meramente virtuais” associados a cartões de crédito ignorando que as novas pessoas seguras mal chegam para compensar as anulações.

    Em síntese na lenda dos seguros de saúde começa a ficar nítida a narrativa da insolvência, da insustentabilidade, da restrição de direitos de acesso, por um lado, e da sobre-utilização e facturação por parte dos prestadores privados cujo “negócio” depende do alimento das seguradoras.

    Retirado do blogue: http://saudesa.blogspot.com

    Mas lá está… eu estou corrompido pelo facto de ser funcionário do Estado e no entanto não me encontro abrangido por nenhum pressuposto negativo associado aos “privilégios” da FP.

    É que já que falou da cultura concordo que em tempo de crise, mais do que em qualquer outro, urge pensar no que é prioritário e neste momento Cultura não o é com certeza… e a Cultura que se referem é de consumo muito elitista ( eu também dela usufruo e pago com o bilhete mas pretenderia não pagar com os meus impostos) e não me traz nem saúde nem dinheiro e o bem estar poderia ser atingido de outra forma…

    Considero-a um luxo que posso prescindir neste momento.

    Algo que não é prioritário pode perfeitamente não ser assegurado pelo Estado

  19. .I.
    Obviamente está “perturbado”. Sem os serviços do Estado não teria quem tivesse ajudado a sua mãe a dar à luz e você não estaria aqui verborreico.

    De qualquer forma preferiria estar à mercê de quem sabe que num momento aflitivo que é o de doença o irá extorquir sem ponta de remorso?

    Realmente é melhor ser parasitado pelo Estado do que ser agredido até à morte por uma empresa…

    Não percebo esse conceito… A empresa privada é mais justa do que a estatal? Ou simplesmente defende a anarquia?

    Sem cooperação e solidariedade colectiva assim como obrigações de fidelidade à tribo nunca teríamos passado da fase das cavernas e sequer desenvolvido linguagem, em última análise…

    Não pode estar a falar a sério… Guarde o dedo do meio para eliminar o prurido da região perineal depois da autoagressão a que se submeteu

    http://saudeeportugal.blogspot.com

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