Garganta

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Em Matosinhos, durante uma cerimónia de entrega de diplomas a alunos das Novas Oportunidades (NO), o eng. Sócrates confessou sentir “um nó na garganta”.

Engraçado. Eu também fiquei assim depois de ler, um destes dias, o primeiro estudo editado pela prestimosa Fundação Francisco Manuel dos Santos (e pela Relógio d’Água), O Ensino do Português, de Maria do Carmo Vieira. O capítulo dedicado às NO relembrou-me não apenas que as NO existem como aquilo que, evidentemente, são: uma das maiores anedotas já perpetradas contra a educação em Portugal.

Na prática, as NO consistem na troca dos currículos associados ao ensino básico ou secundário por uma “abordagem autobiográfica”, na qual os alunos (?) descrevem, com o caos gramatical e narrativo facilmente imaginável, a história das suas vidas e o que se acham capazes de fazer. Dito de outra forma, elimina-se a necessidade de se reter uns rudimentos de ciências e letras, em princípio adquiridos ao longo de anos, e passa-se a avaliar as pessoas através de uma redacção confessional que culmina três ou seis meses de uma espécie de aulas. Dito ainda de uma terceira forma: não se avalia ninguém.

De resto, seria complicado uma criatura ser avaliada por quem lhe pede um “portefólio reflexivo de aprendizagens”, conceito que só por si ilustra a literacia dos próprios inventores das NO. Talvez por isso, essas sumidades assumem que as “aprendizagens” em causa incluem, juro, o preenchimento de formulários, o domínio de uma torradeira eléctrica e a capacidade de ingerir um analgésico para combater a dor de cabeça. Ou seja, um sujeito que consiga fazer uma tosta mista ou tomar um comprimido é praticamente catedrático.

E, se não conseguir nenhuma das proezas acima, as NO sempre oferecem o Curso de Jogador(a) de Futebol, que “dá” equivalência ao 9.º ano e que permite aos felizes beneficiários “utilizarem a imagem pública na construção da carreira e do êxito pessoal, na divulgação da equipa que representam”.

Não admira que, no final da cerimónia de Matosinhos, o eng. Sócrates, ele próprio possuidor de um diploma de valor comparável aos que distribui, tenha afirmado que “Isto é que é importante para o País”, que “A política assim vale a pena” e que saía dali “com uma luz no coração”. Obviamente, o nó não lhe bloqueia a garganta. De resto, o Ben-u-ron ajuda.

3 pensamentos sobre “Garganta

  1. Conheço um caso de um indivíduo, já na casa dos 50 anos, que tinha de formação académica apenas o 4º ano e através das NO tornou-se licenciado em enfermagem. Agora, gabando-se da facilidade com que se formou, diz que procura envergar na Medicina.

    Se as Novas Oportunidades não são profundamente reformadas ou abolidas, acho que deixo de ir ao centro de saúde.

  2. Carlos Sanches

    Na minha empresa há umas 40 pessoas que fizeram as NO e, na entrega de diplomas, o chefe do CFP cá da zona e a vereadora da Câmara disseram que, agora que tinham o 12º deveriam pensar seriamente em continuar e ir para as universidades… Sem palavras!!!

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