Independência ou corte

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Eclodiu nos blogues uma daquelas pequenas polémicas em que o meio é pródigo. De um lado, está Pedro Mexia, com quem estive poucas vezes e há muito tempo. Do lado oposto, está a direita “dogmaticamente liberal” ou os “taberneiros” que se fazem de “cosmopolitas”, para usar as palavras do Pedro. O tema da polémica são os subsídios aos “artistas independentes”, que o Pedro defende e que eu, por exemplo na crónica da semana passada, não. Enfio, portanto, a carapuça de taberneiro, profissão que, na medida em que vive dos serviços prestados à clientela, me parece mais digna do que a clientela que vive de serviços que não prestam.

Na sua, digamos, argumentação, o Pedro também chama filisteus aos opositores. Puxar do “ódio à cultura” à primeira menção dos impostos é um truque velho e nem por isso ineficaz: o medo de acabarem identificados com tão sinistro grupo leva a que inúmeros inocentes cedam sem um pio ao pagode orçamental que as cúpulas da “cultura” e umas dúzias de “artistas” cozinham jovialmente nas costas de quem, em última instância, os sustenta. Quase ninguém quer ser filisteu.

Felizmente, eu não me importo. Logo, quando o Pedro acusa os “taberneiros” de desejarem a morte de todas as artes não “sustentáveis apenas com a bilheteira”, não consigo contrariá-lo. Embora a custo, julgo que sobreviveria ao cancelamento de uma peça da promessa dramatúrgica Jacinto Lucas Pires, sobretudo se a desdita me poupasse cinco cêntimos que fosse, os quais investiria em teatro a sério, numa Sagres Mini ou no que me apetecesse. Aparentemente, o público concorda comigo e, o que é engraçado, sou capaz de jurar que o Pedro que conheci também.

Mas, insisto, já se passou uma eternidade, ou os anos suficientes para o Pedro integrar o “meio”, alcançar a direcção da Cinemateca e vergar-se a parasitas e meras nulidades. Ou amar a cultura, como o Pedro deve preferir.

3 pensamentos sobre “Independência ou corte

  1. tina

    Mais incisivo e verdadeiro não poderia ser. Também me custa a acreditar que Pedro Mexia não consiga distinguir entre bom teatro e o resto.

  2. José Barros

    Excelente texto.

    Tenho pena de ver o Pedro Mexia defender posições destas (e, sobretudo, na linguagem em que o faz), porque gosto da poesia dele e também dos posts.

    Sobretudo, o terrorismo intelectual foi sempre uma coisa que me afligiu. Essa coisa de considerar bárbaro quem de nós discorda, sobretudo, quando sem argumentos se quer que o bárbaro continue a sustentar aqueles que se pretende defender, é fraco. Está ao nível de um Bernardino Soares a falar da Coreia do Norte.

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