A juventude eterna de Hemingway

 

“the coward dies a thousand deaths, the brave but one.”

Ernest Hemingway, A Farewell to Arms.

Hemingway foi em tempos o meu escritor. Quando em miúdo me pus a ler ‘O Velho e o Mar’ e me impressionou a teimosia e a morte feliz de Santiago. Rapidamente passei para o ‘Por Quem os Sinos Dobram’, a guerra civil espanhola, o acampamento dos soldados da resistência, o americano Robert Jordan que tinha trocado a vida fácil por uma luta inglória, mas que acabou premiado pelo amor. As voltas à volta da ponte que deveria ser tomada, ou derrubada, já não me lembro bem. Uma a uma fui lendo as obras de Hemingway, sempre com o ‘Adeus às Armas’, que não tinha e não conhecia quem tivesse, debaixo de olho. Encontrei-o na biblioteca da faculdade e li-o devagar, saboreando a crueza das palavras, a secura dos diálogos. Acho que o sangue me gelou, quando Hemingway (porque é sempre ele nos seus romances) vira as costas ao corpo morto da mulher que amou naquela guerra e o livro acaba. Li-o devagar por sentir ser o último que lia como se devem ler os livros de Hemingway: com paixão e uma entrega absoluta. Sem meio termo, dúvidas. Há uma idade certa para o autor que termina quando percebemos que a vida não é tão simples, linear e directa como a vivida nos seus livros. Os amores não acabam daquela forma abrupta. Moem-nos, roem-nos. Vão-nos desfazendo. Amolecendo. E também não agimos daquela maneira heróica, não morremos, nem matamos olho no olho. Não perdemos uma perna ou um braço, como quem muda de camisa, menos ainda sonhamos com leões. Não atiramos tudo para o ar, assim, sem mais nada. Somos fracos e fracos percebemos que precisamos de mais. Independentemente de tudo isso, Hemingway marca quem quiser ser marcado no momento certo. Quem quiser sonhar no tempo devido.

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6 thoughts on “A juventude eterna de Hemingway

  1. agfernandes

    André
    Eis aqui um texto poético, surpreendentemente poético, costela que não conhecia aos Insurgentes, embora o RAF, o Gabriel e o Adolfo ensaiem uns passos, e o Helder entre pragas à Capitão Haddock (é assim que se escreve?), bem, pensando bem, os Insurgentes têm essa costela mas adormecida… onde é que eu ia? Sim, um texto fabuloso este!
    Hemingway, para mim, é melhor no Cinema. A linguagem do cinema é a que melhor o revela. Mas esta é, claro!, a minha modesta opinião.
    Concordo com a perspectiva, André, de uma idade certa… da eterna juventude… mas em Hemingway o que me desafiou mais foi essa consciência de que não podemos perseguir a perfeição, a perfeição que ele insiste em perseguir.
    Os diálogos d’ “As Neves de Kilimanjaro” são fabulosos… sobretudo em cinema…
    Ana

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