A razão alemã

Ainda na edição de hoje do Financial Times recomendo a leitura do artigo onde o Wolfgang Schäuble fundamenta a posição alemã sobre a austeridade. Não concordando com tudo, é um artigo exemplar onde o Ministro das Finanças alemão aborda vários assuntos que a maior parte dos políticos europeus evitam falar. (meus destaques)

As we acted, we saw our budget turn from a nearly balanced position to a deficit of 5 per cent of gross domestic product. Just as it would be dangerous to remove such support abruptly, governments should not become addicted to borrowing as a quick fix to stimulate demand. Deficit spending cannot become a permanent state of affairs.(…)

Behind the calls for us to pursue a more expansionary fiscal course lie two different approaches to economic policymaking on each side of the Atlantic. While US policymakers like to focus on short-term corrective measures, we take the longer view and are, therefore, more preoccupied with the implications of excessive deficits and the dangers of high inflation.

So are German consumers. This aversion to deficits and inflationary fears, which have their roots in German history in the past century, may appear peculiar to our American friends, whose economic culture is, in part, shaped by deflationary episodes. Yet these fears are among the most potent factors of consumption and saving rates in our country. Seeking to engineer more domestic demand by raising government borrowing even further would, here at least, be counterproductive. On the contrary, restoring confidence in our ability to cut the deficit is a prerequisite for balanced and sustainable growth.

Demography is another reason why we must work harder at reducing deficits in the medium term than many others. Not only are Germans getting older, but our population is also shrinking year after year. This will make it harder for future generations to service our debts and, in time, will reduce our growth potential to about 1.5 per cent a year. Whereas the US, with its more vital demographic trends, can hope to “grow” its way out of its public debt, this is not an avenue that is open to us.(…)

We will abide by the rules of the “debt brake” and by its European equivalent, the stability and growth pact, not for prestige reasons, not just because we are legally bound to, nor, as has been comically suggested, out of masochism, but because it is the best way to inspire confidence in our citizens and investors that the state can cope with the current situation.

Without this confidence there can be no durable growth. This is the lesson of the recent crisis. This is what financial markets, in their unambiguous reaction to excessive budget deficits, are telling us and our partners in Europe and elsewhere

19 pensamentos sobre “A razão alemã

  1. ricardo saramago

    Está tudo dito aqui.
    O crescimento económico à base de dívida, pode ser um expediente temporário mas não leva a um crescimento sustentável a longo prazo.
    Para crescer de forma sustentável é necessário manter a confiança dos agentes económicos (aforradores e investidores) e promover o investimento e a produtividade.
    Não vale a pena adiar a resolução dos verdadeiros problemas, porque mais cedo ou mais tarde vem a factura, e as suas consequências podem comprometer o progresso durante décadas.

  2. Nuno

    “Para crescer de forma sustentável é necessário manter a confiança dos agentes económicos (aforradores e investidores) e promover o investimento e a produtividade.”
    Isto é tudo muito bonito, mas como se cresce qdo não há investimento FBCF, há capacidade produtiva excedentária, há desemprego > 10% sem resolução à vista, há ameaça de deflação e há txs de juro nominais próximas de zero (pq as reais, essas já estão em temperaturas negativas)?
    O ideal mesmo seria a Alemanha sair do €uro, este desvalorizava, o marco subia e a competitividade alemã já não seria assim tão grande! Actualmente comportam-se como a China europeia!
    O déficit q a mim me preocupa é o dos empregos!!
    Espero estar enganado, mas na UE o PIB não irá crescer na próxima década e os déficits não irão melhorar significativamente!!

  3. ricardo saramago

    Se há desemprego é porque a oferta de trabalho é superior á procura, para este nível de salários.
    Se há capacidade produtiva excedentária (excesso de oferta)os preços deveriam baixar, mas os governos não deixam, promovendo procura artificialmente (através de endividamento público).
    Porque é que a deflação é um papão tão grande?
    A descida de salários e de preços pode ser preferível a desemprego e inflação, ou não?
    Do mesmo modo uma bancarrota inteligente pode ser a salvação da próxima geração, ao limpar os custos que esta vai herdar se se mantiver a actual política de empurrar o problema para a frente.

  4. Nuno

    Há exemplos onde isso que sugere tenha sido feito com sucesso?
    Ou isso é só crença na teoria dos mercados eficientes que vem nos livros?
    Como é que tal solução pode resultar se todos vamos fazer o mesmo?
    Nem sequer temos qq garantia que essa estratégia faria diminuir o desemprego. O endividamento público para investimento iria, nas actuais condições, fazer o crowdin in do investimento privado!
    Para salvar a próxima geração necessitamos é de crescer, só assim diminuem os déficits e a dívida pública. Sem crescimento não vamos lá! Um pouco de inflação tb seria bem vinda!
    Claro que nós sozinhos não fazemos nada, a nossa actuação macro é decidida a nivel europeu!

  5. Nuno

    Obrigado.
    De qq das formas o que é proposto só tem paralelo em 1937 e com os maus resultados que se conhecem! Nenhuma outra depressão/recessão serve de exemplo para a actual situação.
    A recessão é 60% global, o crescimento via exportação é dificil e as txs de juro não têm para onde descer.
    O panorama é negro e estamos entregues a “médicos” que acham que tudo se cura com a mesma substância activa! O resultado não irá ser famoso! A ver vamos!

  6. ricardo saramago

    As recessões do tempo do padrão ouro nomeadamente nos EUA do sec XIX, ao permitirem a deflação, asseguraram o pleno emprego, a manutenção (e em alguns casos o aumento)do valor real dos salários e ao manterem o valor das poupanças propiciaram a continuação do investimento.

    “Keynesian games never work. They are simply deferring the damage of today to tomorrow -a time-worn excuse of politicians of all stripes in an insane attempt to buy votes – irrespective of the economic damage done in the process.”
    Karl Denninger

  7. Nuno

    Padrão ouro? Eu acho que devemo-nos situar na actual realidade!

    Quanto à citação, parece-me parcialmente verdadeira. “Keynesian games” como lhe chama o autor não são para serem aplicados como receita em tempos normais como tem sido feito muitas vezes com maus resultados! É uma receita extraordinária para ser aplicada em tempos extraordinários e para ser corrigida quando o PIB responder aos estimulos!
    Utilizando mais uma vez a analogia com o tratamento médico vejo as políticas Keynesianas como os tratamentos de quimioterapia!!

    “As far as rhetoric is concerned, the revival of the old-time religion is most evident in Europe, where officials seem to be getting their talking points from the collected speeches of Herbert Hoover, up to and including the claim that raising taxes and cutting spending will actually expand the economy, by improving business confidence.” Paul Krugman

  8. Miguel

    “Utilizando mais uma vez a analogia com o tratamento médico…”
    Nesse caso acho que a analogia mais apropriada é eutanásia.

  9. Nuno

    A ver vamos Miguel, a ver vamos! Nada como o tempo para nos mostrar se este sangrar do paciente vai solucionar algo ou se não resultar se vamos ter de o sangrar ainda mais!
    A Irlanda já aplicou a receita alemã de austeridade e os mercados não estão impressionados, o déficit não melhorou e a dívida não baixou! Provavelmente não cortaram o suficiente!

  10. ricardo saramago

    Eu não defendo, nem sou contra o padrão ouro.
    A questão é que a manipulação do valor e da quantidade de moeda ao sabor das conveniencias políticas tem impedido a resolução das crises pela deflação, que ao contrário do que se diz, não é nenhum papão a não ser para os políticos e demagogos.
    Quando no fim da 2ª guerra se voltou ao padrão ouro de forma mitigada (Bretton Woods)estava-se a reconhecer implicitamente que tem que haver algum travão ao endividamento e criação de moeda sem limites.

  11. Miguel

    “mercados não estão impressionados”
    Provavelmente devido à quantidade de “lixo” que National Pension Reserve Fund e o National Asset Management Agency compraram. O risco não desapareceu. Foi apenas transferido para entidades públicas.

    “déficit não melhorou”
    Segundo a última revisão do Eurostar desceu de 14 para 12%. Não é impressionante mas se podemos imaginar o que teria acontecido se não tivessem reduzido a despesa.

    “Provavelmente não cortaram o suficiente!”
    Por outro lado, ao contrário da Grécia, (ainda) não foi preciso nenhum “plano de salvação” da UE e FMI.

  12. Nuno

    Nem falo sequer dos custos do desemprego!
    Como disse e repito o futuro nos dirá se este foi ou não o caminho adequado! Eu acho que não foi.

    Quanto às suas asserções sobre as razões dos mercados não estarem impressionados não passam disso mesmo: asserções e interpretações, pois o que foi dito para justificar os cortes foi que era necessário restabelecer “market confidence” o que objectivamente não aconteceu!

  13. lucklucky

    “o que foi dito para justificar os cortes foi que era necessário restabelecer “market confidence” o que objectivamente não aconteceu!”

    Não percebe que os cortes não são suficientes? A Grécia com os cortes vai ter 150%(se tudo correr como previsto, deve ser mais fácil acertar no totoloto) do PIB em dívida publica dentro de 2 anos, valor muito maior do que hoje.
    Acha que há austeridade com 5-7% de defice o que nos casos dos países em que os estado é quase 50% da economia implica 14% de defice entre despesas e receitas?
    E nos EUA não há cortes federais, a fantasia continua embora o desastrado Obama tenha levado uma chapada no G20 e já tenha começado a ensaiar a mudança de discurso uma vez que os “estímulo” como era de esperar acaba sem criar nada sustentável.

  14. Nuno

    Já me podia ter apontado essa falha!
    Axiomas à parte, conclui-se da verificação de dados objectivos que os cortes na Irlanda não melhoraram a confiança dos mercados, que era a justificação para os cortes.

  15. Nuno

    “Não percebe que os cortes não são suficientes?”
    O que entendo é que os cortes são desnecessários nesta fase, embora concorde que dependa se situação para situação. Acho que serão necessários cortes sim, mas quando o PIB crescer.

  16. lucklucky

    “Axiomas à parte, conclui-se da verificação de dados objectivos que os cortes na Irlanda não melhoraram a confiança dos mercados, que era a justificação para os cortes.”

    A Irlanda tem mais credibilidade que a Grécia não tem? Apesar de estar numa situação pior. Mesmo assim os cortes não são suficientes.
    A Irlanda não tem mercado interno é um Pais em que a riqueza dependia das exportações. A Irlanda caiu porque as exportações acabaram e enquanto não recuperarem não vai haver Irlanda, e até lá têm de ter as contas em ordem, para depois poderem aproveitar uma eventual subida.

    “Acho que serão necessários cortes sim, mas quando o PIB crescer.”

    Curioso…

    Qual está a ser o crescimento Português com a dívida a aumentar 6% nos 5 primeiros meses de 2010?

    Qual foi o crescimento de Portugal com a dívida a aumentar 100% nos últimos 7 anos? O crescimento foi quanto no mesmo período?

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