O importante é não enjoar a bordo

O Ocidente tem estado com os olhos postos na Grécia, desejoso de saber se o euro resiste. Mas há outros perigos para os lados do Oriente. A China começa a dar sinais de preocupação, com o primeiro défice comercial em 6 anos e uma economia bastante dependente dos gastos públicos, desperdiçados na produção excessiva de bens que ninguém quer e sem saída no mercado, e no investimento estatal com pouco ou nenhum retorno. Junte-se a situação calamitosa das empresas estatais chinesas e dos seus bancos insolventes, porque directamente dirigidos por Pequim e sempre prontos para tapar ‘buracos’ orçamentais. As quedas nas bolsas asiáticas há dias atrás reflectem já esses receios com a solidez dos bancos chineses. A China vive um equilíbrio periclitante traduzido no fiasco que está a ser a exposição universal de Xangai, outro sonho megalómano que apenas um estado totalitário pode conceber. Mas os problemas não se ficam por aqui. Também o Japão vai tendo cada vez maiores dificuldades para financiar o seu défice público. Seria apenas a bancarrota da segunda economia mundial. Algo não muito agradável e com repercussões no mundo inteiro.

Lendo a análise feita por Gordon Chang (que escreveu ‘The Coming Collapse of China’), os problemas do Japão são os do mundo ocidental, mas numa escala maior: pouco, ou nenhum crescimento demográfico para pagar um estado omnipresente e gastador. Andámos a brincar com o fogo ao longos dos anos e, não satisfeitos com a asneira, juntámos pólvora ao problema, nos últimos meses. Foram os famosos ‘défices que salvaram o mundo’, na expressão utilizada pelo nosso primeiro-ministro José Sócrates. O problema é que salvamentos deste tipo podem-nos levar não só a um acentuar da recessão económica, como a uma crise do próprio conceito de Estado. O barco vai abanar com força e é ver quem não enjoa a bordo.

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6 pensamentos sobre “O importante é não enjoar a bordo

  1. “a bancarrota da segunda economia mundial”

    Não se deve confundir a economia japonesa (que de forma nenhuma está na bancarrota) com o Estado japonês (que, esse sim, é candidato à bancarrota).

    Se o Estado japonês entrasse em bancarrota isso só muito improvavelmente levaria à bancarrota da economia do Japão. Aliás, a ampla maior parte dos credores do Estado japonês são os próprios japoneses (ao contrário por exemplo do Estado português, que capta os seus empréstimos no estrangeiro, o Estado japonês capta os seus empréstimos predominantemente no próprio Japão).

  2. Não é verdade que só um Estado totalitário possa conceber sonhos megalómanos como sejam exposições universais. À sua escala, Portugal também concebeu o sonho megalómano da Expo 98.

  3. Bom post.

    Será que, finalmente, veremos o reconhecimento intelectual de Menger, Mises, Hayek e Rothbard e o regresso à defesa de valores como os da prudência, da frugalidade, da constituição de poupanças e convencer-mo-nos que não podemos gastar o que não temos, famílias ou estados?

  4. lucklucky

    “Será que, finalmente, veremos o reconhecimento intelectual de Menger, Mises, Hayek e Rothbard e o regresso à defesa de valores como os da prudência, da frugalidade, da constituição de poupanças e convencer-mo-nos que não podemos gastar o que não temos, famílias ou estados?”

    Claro que não, 99% das pessoas não sabe quem são esses tipos, Menger provavelmente 99,999999% que eu por exemplo não faço ideia de quem seja. Caso ainda não tenha notado no Ocidente a Educação está nas mãos da esquerda.

  5. ricardo saramago

    Felizmente que existe uma coisa chamada “mão invisível” que não depende de decretos, de ideologias ou cegueiras.
    É como as bruxas…

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