Especulação e Fraude

A propósito da investigação ao Goldman Sachs, por eventual conduta imprópria durante a crise imobiliária nos EUA que precipitou a crise financeira de 2008, escreve o João Galamba:

«Para além do ‘too big to fail’ e de tudo o que tem sido dito sobre a reforma do sector financeiro, o pior das instiuições é quando o seu poder perverte as regras do mercado concorrencial, isto é, quando alguns ‘players’ passam a deter o poder de criar, soberana, deliberada e conscientemente, o contexto onde eles próprios actuam, tirando daí lucros ilegítimos – sim, ilegítimos. (…) O problema não é existirem especuladores; o problema é quando alguns especuladores têm a capacidade de criar e construir o futuro que dizem estar a prever.»

A eventual ilegitimidade da actuação do Goldman Sachs advirá, a existir, de uma situação de fraude, não de poder de mercado. O que é alegado é que o Goldman Sachs terá criado deliberadamente instrumentos financeiros que sabia estarem assentes em hipotecas incobráveis e depois colocou-os no mercado com ratings AAA devido à influência que tinha sobre as agências de rating. Ao mesmo tempo, terá, sabendo que os títulos nada valiam, “apostado” contra eles (imagino que via posições curtas e/ou credit default swaps sobre os mesmos).

Se fosse apenas uma questão de poder de mercado, isto é, não existindo fraude, então a “aposta” do Goldman Sachs nada teria de ilegítima. Pelo contrário, se a sua dimensão fosse assim tão significativa ao ponto de poder influenciar o mercado com a sua intervenção de shorting e/ou compra de CDSs, então talvez a crise pudesse ter sido menor à medida que o mercado se apercebesse do que o seu maior player estava a fazer, impedindo a bolha de inchar mais. O problema foi justamente que foram muito poucos os que não alinharam na insanidade da bolha imobiliária.

5 pensamentos sobre “Especulação e Fraude

  1. CN

    “Goldman Sachs terá criado deliberadamente instrumentos financeiros que sabia estarem assentes em hipotecas incobráveis”

    Não tenho especial simpatia pela GS mas nunca será assim, a GS estruturou sim um negócio que o comprador para ter investido sabia que existiria um vendedor do outro lado. A GS neste caso parece que em grande medida intermediou embora com estruturação a pedido do vendedor (normalmente é do comprador…daí as bolhas), o comprador é culpado de ter embarcado na bolha de crédito fomentada pelo Banco Central.

    O “saber” que era incobrável é uma afirmação a posteriori, nas bolhas todos pensam que nada vai correr mal porque nada está a correr mal no momento.

    Podem existir nuances a desfavor da GS, que podem abalar prestígio como independência, mas na globalidade “fraude” não parece ser.

  2. Bom, a acusação (ou suspeita) é mesmo essa. Pode não ser verdade. Logo se verá.
    O que ouvi é que há suspeitas de que o GS reuniu as piores hipotecas que determinado cliente tinha e colocou-as num título que depois foi avaliado como AAA. E que isto terá sido feito com conhecimento do que estava a ser feito. A ser verdade não vejo outra forma de qualificar senão fraude. Talvez golpada, scam, racket, aldrabice… 🙂

  3. CN

    O comprador sabida que tinha de existir vendedor. Só pode ser fraude se o AAA tiver sido atribuído de forma diferente que todas as outras emissões no mercado semelhantes.

    O que se alega não é bem isso, são coisas como não ter informado comprador que do outro lado estava um dado investidor X a fazer short-selling, mas isso é pouco convincente, podemos estar sempre a comprar a short-sellers sem o sabermos, ou antes, devemos saber que isso pode estar a acontecer no domínio das hipóteses.

  4. Este colunista não deve ser muito do vosso agrado, mas tem alguma relevancia o que ele diz:

    http://www.nytimes.com/2010/04/26/opinion/26krugman.html?partner=rssnyt&emc=rss

    The bad news is that most of the headlines were about the wrong e-mails. When Goldman Sachs employees bragged about the money they had made by shorting the housing market, it was ugly, but that didn’t amount to wrongdoing.

    No, the e-mail messages you should be focusing on are the ones from employees at the credit rating agencies, which bestowed AAA ratings on hundreds of billions of dollars’ worth of dubious assets, nearly all of which have since turned out to be toxic waste.

  5. Ainda a respeito do poder de mercado, acho que há aqui dois mercados diferentes (ainda que interligados):

    – um é o mercado de titulos; nesse caso, concordo mais ou menos com o meu quase homónimo

    – outro é o mercado de serviços de avalição de rating – nesse caso, se a GS tiver um grande poder como comprador de serviços de avaliação de rating, é expectável que o use para levar as agÊncias a inflacionarem os seus produtos

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