Oportunidade perdida

Fonte: Bloomberg
Para quem nos últimos dias se andou a queixar dos violentos ataques dos mercados/especuladores financeiros (deliciosamente caracterizados pelo jcd aqui), lamento que, mais uma vez, perderam uma excelente oportunidade de put your money where your mouth is e lucrar com isso. Com um benefício adicional: os gambozinos especuladores que estivessem do outro lado do trade teriam perdido dinheiro! (e eu que julgava que os especuladores ganhavam sempre)

Hoje, às 18 horas, Ana Margarida Craveiro e Adolfo Mesquita Nunes (Repetição, amanhã, às 19)

Esta semana eu e Antonieta Lopes da Costa estamos à conversa com Ana Margarida Craveiro e Adolfo Mesquita Nunes, com os seguintes temas na ordem dos trabalhos:

1) ‘Rating’ ao fundo – Os mercados financeiros ficaram nervosos após o corte do ‘rating’ da república portuguesa pela Standard & Poor’s. Depois da Grécia, seremos nós?

2) Corrupção absolvida? – O administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, foi absolvido pelo Tribunal da Relação de Lisboa da tentativa de suborno de um vereador do município lisboeta. A decisão parece ter abalado a já pouca confiança que os cidadãos têm nos tribunais. Será caso para tanto?

3) Recuos do governo –  O governo aprovou uma alteração à lei do funcionamento dos tribunais, prevendo a suspensão dos prazos judiciais, no período entre 15 e 31 de Julho. Esta alteração e o novo estatuto do aluno, entretanto também apresentado, são mais sinais da fraqueza deste governo?

O “Descubra as Diferenças”, pode ser ouvido hoje às 18 horas e no Domingo, dia 2 de Maio, às 19. Tem podcast disponível e é também transmitido pela Rádio Universitária de São Paulo, no Brasil.

“Descubra as Diferenças”… Um programa de opinião livre e contraditório, onde o politicamente correcto é corrido a quatro vozes e nenhuma figura é poupada. No final de cada emissão, fique para ouvir a já clássica “cereja em cima do bolo”: uma música, em irónica dedicatória, ao político/figura/situação em destaque na semana.

O orçamento rectificativo subliminar

O primeiro-ministro, José Sócrates, reiterou hoje na abertura do debate quinzenal que a antecipação para este ano de algumas medidas do Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) “reforça as garantias de que seremos capazes de alcançar, e porventura até ultrapassar, a meta de redução do défice fixada já para este ano.

Público

É impressão minha ou Sócrates acabou de admitir que ao que parece já só com a antecipação de receitas que deveriam entrar somente em 2011 é que tenciona conseguir cumprir o deficit (de valor particularmente arrojado, como é sabido) que está inscrito no orçamento de 2010?

Se calhar o problema não é a Grécia sair do Euro

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, é contra a introdução nos tratados europeus da possibilidade de excluir um país da zona euro, uma hipótese em discussão na Alemanha, declarou numa entrevista hoje publicada.

“Os tratados europeus não prevêem tal possibilidade e seria um erro emendá-los”, defendeu Barroso – actualmente em visita à China – numa entrevista ao jornal regional alemão Hamburger Abendblatt.

[…]

Numa entrevista ao jornal Handelsblatt hoje publicada, Roland Koch, do partido conservador da chanceler alemã, Ângela Merkel, “não exclui a introdução de uma cláusula de expulsão”.

Público.

Se uma tal cláusula de exclusão consta ou não dos tratados já firmados, é algo que deixo para espíritos mais informados no direito comunitário, sendo que tal é em grande parte irrelevante conhecendo-se a prática pródiga das instâncias comunitárias de criar direito e de se regerem por interpretações bastante criativas e originais dos seus mandatos e dos seus poderes.

Barroso parece, contudo, preocupar-se com a possibilidade de existência ou do enforcement de uma tal cláusula – afinal uma cláusula que parece perfeitamente óbvia e justa a qualquer um no cenários de todas as outras sanções terem falhado em terminar uma violação sucessiva de compromissos. Parece concretamente preocupado com a iminente possibilidade de materialização de um cenário que justificasse essa possibilidade.

É natural que, no que toca aos países aderentes a uma determinada convenção ou tratado, surjam discussões em relação aos poderes que uns e outros ou o seu conjunto (assente numa determinada maioria) podem vir a ter perante os seus companheiros. No caso concreto, em relação à existência ou não dessa possibilidade de expulsão, acho que Barroso pode estar relativamente confiante no peso da pressão institucional (que já tanto utilizou no passado) e da originalidade de pareceres e interpretações, bem como na possibilidade de essa pressão ser utilizada sobre a Alemanha para refrear a sua vontade.

Mas há um cenário que, quanto a mim, o deveria preocupar mais: se há um direito inalienável dos países na adesão a um tratado ou convenção é o de se desvincularem dela e denunciarem o seu vínculo. Ora o que o modus operandi bem conhecido da Comissão e dos jogos de bastidores do Conselho pode conseguir, enveredando por esse caminho, é que se caminhe para um ambiente muito pouco saudável no seio do Euro, em que por via dessa pressão não se ponha sequer o cenário de expulsar alguém.

Ora nessa circunstância, julgo que o cenário cada vez menos académico e que vai transparecendo aqui e ali, seria o da saída da Alemanha, deixando o Euro e os problemas criados (problemas esses que a posição de Barroso e dos ponta-de-lança europeus parece querer curar com paliativos e não resolver) nos braços dos restantes membros para que estes sejam sejam resolvidos por quem os criou. Da maneira que bem entenderem.

Tiros para o ar

Não se consegue perceber muito bem o que pretende PPC com esta medida de pagar o subsidio de férias em títulos de dívida pública. Como lembrou o actual ministro, “Essa ideia de pagar em títulos de dívida ou em certificados de aforro não reduz despesa, porque a despesa é feita e apenas se altera a forma como é paga.”

Para esta medida de PPC fazer algum sentido seria necessário que Portugal tivesse moeda própria e vontade (essa não vai ser difícil de encontrar) para desvalorizar a moeda, fazendo com que realmente “chutar” o pagamento para o futuro fosse muito mais simples (apesar de potencialmente ruinoso, mas ele depois emigra). Existe claro também a hipótese de forçar os funcionários a aceitar títulos de dívida que paguem 1 ou 2 por cento ao ano, o que realmente daria para poupar nos custos de financiamento actuais mas enfim, se é para afrontar o funcionalismo público e poupar nessas despesas haveria formas mais directas.

Fica-se na dúvida portanto se PPC anda apenas a dar tiros para o ar a ver o que acontece ou se está já a preparar a nação para uma saída da moeda única. Eu aposto nos tiros para o ar.