O PSD, o Poder e a Direita (3)

É claro que a teoria de que o PSD se devia concentrar em recuperar o centro é conveniente para o CDS. Mas, mais do que isso, é conveniente para o país. Já que os nossos “pais fundadores” nos deixaram ligados constitucionalmente à representação proporcional, teríamos todos a ganhar se o PSD se organizasse.

O PS seria obrigado a reconquistar terreno à extrema-esquerda, a bem dos valores democráticos que escasseiam por aquelas bandas. O CDS concentrava-se a fazer o que um partido minoritário deve fazer que é defender ideias que o centro não pode defender, mas que alguém devia defender. E o PSD, qual parteiro, possibilitava que isto tudo acontecesse, lutando para instalar o seu líder no Palácio de S. Bento e não à frente de uma facção partidária como tem acontecido. A conversa da especialização, das vantagens comparativas e dos ganhos do comércio livre não vale só para a economia.

Mas melhor do que essa divisão de tarefas seria a divisão de poder. Maiorias de um só partido, num país onde temos um entendimento algo, digamos, limitado do que é uma democracia liberal, são a melhor receita para o desastre. Para o desastre governativo e para o desastre no interior dos partidos. Digo isto não porque os partidos não sejam “todos iguais” e os políticos não sejam “todos uns ladrões”, mas porque a granularidade que a representação proporcional permite obriga os partidos minoritários a atravessarem-se com propostas claras perante o seu eleitorado e a pagarem um preço relativamente mais elevado caso optem pela ladroagem em detrimento dessas propostas. A relativa inflexibilidade eleitoral de um parceiro de coligação minoritário, se for bem utilizada, pode servir de rumo para um governo que, sem ela, facilmente se limitaria a fazer o que fosse preciso para se manter no poder sem que isso coincidisse necessariamente com o “bem comum”.

Governos de centro-direita de coligação podem ser uma solução governativa mais instável mas são também uma solução mais apetecível para quem, como eu, privilegia a liberdade em relação à governabilidade, partidos alimentados pelo pluralismo em relação a partidos vergados pela obediência e o reformismo relativamente ao declínio.

Leitura Complementar: O PSD, o Poder e a Direita e o PSD, o Poder e a Direita (2)

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7 pensamentos sobre “O PSD, o Poder e a Direita (3)

  1. Lusitânea

    Se o CDS quer reivindicar a direita acho bem que se comporte como tal.Afinal qualquer partido hoje na Europa que se manifeste contra a imigração tem logo 15%.O CDS nem isso faz…

  2. Tomás Belchior

    Há muito mais à direita para além do discurso securitário ou da imigração. Aliás, considerar que a direita se resume a isso é por onde tem que começar o combate político.

  3. Lusitânea

    Concordo consigo.Não basta nacionalizar a rapaziada e depois falar em segurança.É preciso ser mais PORTUGUÊS o quer dizer produção nacioanal, defesa dos interesses NACIONAIS, da NAÇÃO.E não é abandalhando-a que se consegue…

  4. Tomás Belchior

    Se o interesse da nação coincidir com os interesses dos portugueses, não tenho nada a opôr.

  5. Tomás, muito do que disse só se virá a saber amanhã.
    Se Passos Coelho ganhar, e acho que o PS e o CDS estão a torcer por isso, o CDS vai crescer. E muito provavelmente, no próximo governo ou no governo a seguir, poderá vir mesmo a ser o próximo primeiro-ministro.
    Ainda é cedo para saber se a sua melhor vocação será de partido minoritário, portanto. Depende também muito da situação do PSD.

    Acho que, com Passos Coelho, o PSD manter-se-á neste “consenso” tipo “bloco central”, nesta amálgama que será penalizada pelos eleitores.
    O PS está em decadência, a apodrecer lentamente e o PSD, se não se descola, vai cair com ele. Embora ainda tenha alguma reserva de energia e vitalidade, ausentes no PS, vai perder com estas colagens ao PS.

  6. Tomás Belchior

    Sim, eu quando falo em partido minoritário estou a limitar-me a analisar a situação actual. No futuro logo se verá o que acontece.

    Quando fala numa amálgama que será penalizado pelos eleitores é preciso não confundir o que nós queremos que aconteça com o que acontece na realidade. O centro vota em quem lhe garantir que tudo fica na mesma, em quem garantir que ninguém toca na sua vidinha. Quando o PS deixar de garantir isso, muda o sentido de voto. É por isso que me parece que o Pedro Passos Coelho é capaz de vingar. É o que tem mais jeito como vendedor do status quo. Não sei se isso é bom para o PSD mas também não sei se alternativas o seriam. Apesar de não me agradar minimamente que ele ganhe, mas é também por isso que eu não sou militante do PSD: ter que sobreviver à custa do consenso não me agrada.

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