O partido que gosta de dar a patinha

Depois de sucessos bem conhecidos no exercício do poder, como o aumento temporário do IVA (no tempo em que ainda estava a 17%), a cedência de créditos fiscais e da segurança social ao Citigroup ou a apetência particular para o equilíbrio orçamental por via do recurso a receitas extraordinárias, eis que nos despedimos hoje pela porta mais pequena da política de Manuela Ferreira Leite.

Depois de, como líder da oposição e no espaço de meros seis meses, ter viabilizado o orçamento de estado cuja execução vigora, de ter largado o partido a uma luta fraticida (que não nego me tem dado um certo gozo em assistir), eis que hoje a vemos terminar com uma humilhação no parlamento, sujeitando-se a aprovar, com a abstenção que impôs ao seu grupo parlamentar, uma verdadeira moção de confiança ao governo Sócrates. Sim, moção de confiança, já que o PEC há muito está decidido e apresentado em Bruxelas, e o desfecho da votação era absolutamente irrelevante para este.

Vinculou deste modo a posição do seu partido (ou conferiu um trunfo precioso nesse sentido ao governo) durante os próximos 4 anos, tudo isto em vésperas de eleições marcadas pelo timing que estabeleceu.

Sujeitou-se ainda a “debater” com os lugares-tenente do primeiro-ministro um documento para o qual não foi tida nem achada, que rasga as (poucas) promessas eleitorais que fez, concluindo o processo com quase um quarto do seu grupo parlamentar a apresentar declarações de voto afirmando uma vontade contra a disciplina de voto que foi imposta.

Quem sabe, um último favor ao presidente da república, depois da posição que deste se conhece na campanha para as últimas legislativas. Mais um estertor do cavaquismo.

Apenas uns meses volvidos desde as eleições, fica uma derradeira lição: vejam agora, os ferozes defensores da “Política de Verdade”, com quantos zeros foi preenchido o cheque em branco que tão entusiasticamente assinaram e promoveram a assinatura.

Mas não há problema. Já há pelo menos três homens providenciais em linha para o dia de amanhã.

6 pensamentos sobre “O partido que gosta de dar a patinha

  1. José Barros

    Caro João,

    Quanto à votação do PEC reproduzo aqui dois comentários, um que fiz no blasfémias, outro no cachimbo:

    No Blasfémias:

    «Os aprendizes de feiticeiro que acham que as reformas liberais vão de mota com o Passos Coelho e com moções de censura, ainda que lentos de compreensão, verão chegar o dia em que aprenderão uma lição de vida. Será o dia em que o povinho reeleger o Sócrates com maioria absoluta ou perto disso.»

    «Deviam aprender com o Ron Paul que, melhor que ninguém, sabe que um projecto liberal tem de ser preparado durante uma dezena de anos, pelo menos, para alguma vez ver a luz do dia. E ainda assim…»

    No Cachimbo:

    «A alternativa era chumbar o PEC, forçar eleições antecipadas num cenário em que a nova liderança do PSD está longe de estar preparada para ser governo e em que o governo está apenas à procura de um pretexto para marcar eleições e dar nova maioria a Sócrates por todas estas razões e mais algumas.

    Ou seja, chumbar o PEC seria em suma dar a oportunidade ao PS de culpabilizar o PSD perante o país pelo aumento dos juros da dívida e pela pressão internacional dos credores e da comissão euopeia, permitindo-lhe dessa forma obter uma rotunda vitória eleitoral, superior ainda àquela que obteve há seis meses. Politicamente seria um tremendo tiro no pé.

    Com a abstenção o PSD obriga o PS a permanecer no governo e a arcar com o descontentamento social da população com as suas políticas. Com a abstenção a nova liderança do PSD terá tempo para preparar uma oposição credível e uma alternativa de governo que os portugueses possam conhecer e na qual possam acreditar. Permite-se, para rematar, que o PSD chegue a 2013 em condições muito favoráveis para obter uma maioria absoluta, haja bom senso da parte da nova liderança.»

    Isto parece-me o óbvio ululante. E por isso acho que Ferreira Leite fez muito bem em abster-se. Fez, aliás, um favor ao novo líder que, por via dessa abstenção, não terá de enfrentar eleições dois meses depois de ser eleito nas directas no cenário que descrevo. Claro que não lhe vão agradecer por isso, assim como não lhe agradecem o facto de as grandes obras públicas estarem suspensas ou a caminho disso…

  2. JS

    Bom Blog JLP. Se me permite. … sem esquecer o ar de princesa herdeira enfurecida, por preterida, quando o Sr. Barroso passou a pasta ao Sr. Santana Lopes. Enfim, as sortes, ou os azares da vida, deram oportunidade à Sra. Leite para mostrar o que vale.
    Não foi o Sr. Socrates que ganhou eleições. Foi a Sra. Leite que as perdeu.
    Em política não basta o saber(qualquer interessado pelo tema sabe o suficiente). Muito menos herdar um título (pergunte ao Sr. Santana Lopes). È preciso tudo o resto. Aprendeu?

  3. João

    Completamente de acordo. E gostei do cãozinho… é isso mesmo!

    Só se admitiria esta abstenção, exigindo discutir as medidas a tempo, não na última da hora, e na presença do PM na AR, não com aquelas figuras secundárias que só fazem o que lhes mandam fazer.
    Vinculou o PSD e traiu os seus eleitores. Para fazer o jeito (uma vez mais) ao Presidente.

    Chumbar o PEC implicaria queda do governo?
    Fazer aquela figura triste é forma de passar o testemunho?
    Vincular-se aos fracassos da governação PS, cedendo à sua chantagem política, é base digna de uma nova liderança?

    Agora só falta mesmo ganhar Passos Coelho para fazer o jeito ao PS e ao CDS. Vá lá… já estou por tudo. Já tomei o chá de camomila.

  4. Zé,

    O voto contra teria efeitos nulos em termos de responsabilidade do PSD na continuidade do governo.

    A única acusação sustentada seria a que fazes em relação à imagem perante as agências de rating e os credores, o que me parece algo de somenos, vendo todos os outros vectores que estão em análise por essas entidades, porventura bem mais concretos.

    O PEC continuava, sendo a votação irrelevante, e as pessoas poderia assim concluir da farsa e dos verdadeiros objectivos da votação. Além disso, apesar de parecer uma moção de confiança, efectivamente não o é formalmente, não implicando a queda do governo. Teria sempre que ser este a pedir a demissão e a assumir o ónus de o fazer. Faria algum sentido dizer que era por causa de terem votado contra o PEC continuando ele em vigor com toda a normalidade?

    Além disso, dos dois candidatos com anunciadas maiores probabilidades de suceder à MFL, pelo menos um já disse que não se sente vinculado com a votação do PSD, e ambos desejavam um voto contra. Estas coisas também se sabem no estrangeiro, e não terão uma avaliação muito diferente de um voto efectivo contra.

    A capacidade de escolher o momento de eleições antecipadas continua também na mão do governo. Até pode ser daqui a uns dias durante a “Comissão Face Oculta”, que corre o risco de ser mais um momento de branqueamento com sucesso do PM. Não havendo iniciativas do PSD que contrariem o governo ou que mostrem com acutilância diferença, podes ter aí um novo passeio do Sócrates pelas urnas, sustentado numa perspectiva de que “entre tipos que propõem o mesmo, preferimos o diabo que conhecemos”.

  5. José Barros

    Caro João,

    1) O que dizes faz sentido se não soubermos que o governo já tentou – com sucesso na comunicação social que aceitou alegremente os argumentos pífios – desencadear uma crise política a propósito dos amendoins dados à Madeira pela oposição. O chumbo da resolução do governo quando simultaneamente o PR e o Presidente da Comissão Europeia vieram pedir um “amplo consenso” para o PEC teria apenas o efeito de o PS desencadear novamente uma crise política agora com novos e mais fortes argumentos que previsivelmente seriam novamente aceites outra vez alegremente pela comunicação social dominada pelos socialistas.

    O facto que apresentas de a votação não ser necessária seria contrariado pela máquina de propaganda socialista com o facto de tanto o PR como Durão Barroso (e outras tantas autoridades) terem alertado para a necessidade de a oposição ser responsável. Além disso, o PS poderia argumentar – com alguma razão – que o voto contra do PSD pressuporia que quaisquer votações realmente necessárias na AR (por exemplo, a subida de impostos) seriam previsivelmente chumbadas, assim ficando demonstrado a impossibilidade de aplicação do PEC. Poderia então o PS exigir uma maioria absoluta com o argumento de que na situação de crise não poderia ficar refém do bota-baixismo anti-PEC do PSD. Mesmo que a não obtivesse, ganharia uma nova legitimidade e mostraria à oposição o que lhe aconteceria se voltasse a tentar “brincar com o fogo”.

    Continuo a achar que este seria o cenário previsível. E continuo também a considerar que o PSD não está minimamente preparado para eleições, nem agora, nem daqui a seis meses, razão pela qual considero também previsível uma derrota estrondosa se as eleições ocorrerem nesse espaço de tempo. O que seria mau para o partido, mas, sobretudo, para o país que viveria, pelo menos, mais um ano de socratismo. Isto para dizer que quem não está em condições de atacar não “fala grosso, devendo, pelo contrário, aproveitar os próximos tempos para preparar-se e estar pronto quando a altura chegar.

    A alternativa a “dar a patinha” é, portanto, originar uma crise política aproveitada para o PS ganhar uma nova maioria (possivelmente absoluta) à custa da responsabilização do PSD pela instabilidade criada. Não dou para esse peditório, até porque só um optimista profissional do PSD é que acha que o partido estaria preparado para governar quando o novo líder ainda nem sequer saiu da incubadora.

    Um abraço,

  6. José Barros

    Adenda:

    “optimista profissional do PSD” – que fique claro que não é o teu caso, que nem és do PSD.

    Estou a dizer que só um optimista profissional desse partido é que pode achar que o mesmo poderia ganhar eleições e governar com condições de estabilidade nos próximos seis meses.

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